Como Luiz Inácio virou Lula
A trajetória pública de Luiz Inácio da Silva tem seu primeiro registro de imprensa em 15 de julho de 1975, em nota da página 22 da Folha de S.Paulo sobre apreensão na Volkswagen e ameaça de demissões após férias coletivas na linha do Passat. Ele constava como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, assumido durante a ditadura militar sob o governo do general Ernesto Geisel.
Origens e entrada no movimento sindical
Nascido em Pernambuco em 1945, Lula migrou ainda criança para São Paulo e formou-se torneiro mecânico pelo Senai. Sua entrada na estrutura sindical ocorreu aos 23 anos, incentivado pelo irmão mais velho, Frei Chico, que já militava no movimento sindical em São Paulo e no ABC. Impedido de assumir uma diretoria porque sua fábrica já tinha um representante, Frei Chico indicou Lula para compor a diretoria liderada pelo companheiro Afonso Monteiro da Cruz.
As greves do ABC e a projeção nacional (1977–1978)
Em 1977, o sindicato mobilizou os trabalhadores em torno de uma defasagem salarial de 34%, decorrente de manipulações nos índices oficiais de inflação de 1973. A política salarial da época era centralizada por Brasília, sem margem formal para negociações internas nas fábricas.
- 12 de maio de 1978 (Scania): Metalúrgicos bateram o ponto, ligaram os equipamentos e cruzaram os braços, deflagrando a primeira grande greve operária no Brasil em dez anos.
- Expansão: O movimento atingiu mais de 150 mil trabalhadores em cerca de 600 fábricas do ABC paulista. Sem negociações diretas imediatas, os empresários reuniram-se na Fiesp enquanto os operários organizavam assembleias em estádios de futebol.
- Perfil de liderança: Aos 32 anos, Luiz Inácio destacou-se ao discursar com a linguagem direta do chão de fábrica, sem o vocabulário acadêmico de esquerda tradicional ou dos velhos partidos.
Declarações polêmicas na imprensa (1979)
Em julho de 1979, entrevistas a publicações alternativas e de grande circulação registraram visões do líder sindical:
- Jornal Lampião da Esquina: Ao responder sobre feminismo, declarou: "Feminismo, eu acho que é coisa de quem não tem o que fazer"; sobre a presença de homossexuais na classe operária, afirmou: "Não conheço".
- Revista Playboy: Questionado sobre figuras históricas que admirava, mencionou Tiradentes, Mahatma Gandhi e Che Guevara. Acrescentou Mao Tsé-Tung ("lutou por aquilo que achava certo") e Adolf Hitler:
"O Hitler, mesmo errado, tinha aquilo que eu admiro num homem, o fogo de se propor a fazer alguma coisa e tentar fazer [...] O que eu admiro é a disposição, a força, a dedicação. É diferente de admirar as ideias dele, a ideologia dele." Entre os líderes vivos, citou Fidel Castro e o Aiatolá Khomeini ("a determinação de acabar com aquele regime do xá foi um negócio sério").
Fundação do Partido dos Trabalhadores (1979–1980)
Rejeitando frentes políticas amplas — por considerar que nelas a classe trabalhadora apenas serviria de massa de manobra —, Lula defendeu uma legenda autônoma na qual os assalariados formulassem seus próprios programas. Ele admitiu articular a ideia com figuras como Fernando Henrique Cardoso, Chico de Oliveira, Jarbas Vasconcelos e parlamentares do MDB.
- 10 de fevereiro de 1980: Fundação oficial do PT no Colégio Sion, em São Paulo, reunindo sindicalistas, intelectuais, religiosos e militantes de esquerda. O manifesto apontava para a chegada "ao governo e à direção do Estado" visando uma sociedade sem explorados nem exploradores.
- Entrevista pós-fundação (12 de fevereiro de 1980): Ao ser provocado sobre a possibilidade de via armada na tomada do poder, Lula afirmou que "todos os tipos de luta devem estar nos prognósticos da organização política da classe trabalhadora", argumentando que as classes dominantes não entregariam o poder por vias puramente parlamentares.
Intervenção, prisão e conexões internacionais (1980–1981)
- Prisão em 1980: Em 17 de abril de 1980, o Ministério do Trabalho decretou intervenção nos sindicatos do ABC durante nova greve. Em 19 de abril, Lula foi preso com base na Lei de Segurança Nacional, permanecendo detido por 31 dias. O episódio ampliou sua projeção pública.
- Nicarágua e Cuba: Em julho de 1980, participou do aniversário de um ano da Revolução Sandinista na Nicarágua, defendendo o país como "um novo modelo para a América Latina".
- Definição de socialismo: Em 21 de junho de 1981, à Folha de S.Paulo, declarou que o objetivo do PT era construir um "socialismo brasileiro", adaptado à cultura local e voltado à igualdade na fartura. Em novembro do mesmo ano, declarou ao Estadão: "Não interessa que eu seja socialista, comunista ou centrista. Sou um torneiro mecânico".
Eleição de 1982 e a autocrítica do PT
Na primeira eleição direta para governador após quase duas décadas, Lula concorreu ao governo de São Paulo com o slogan "Trabalhador vota em trabalhador". Em 15 de novembro de 1982, terminou em 4º lugar; Franco Montoro (PMDB) foi o eleito.
A avaliação interna do partido apontou quatro desvios que teriam afastado o eleitorado:
- Doutrinarismo: Imposição de debates teóricos profundos para trabalhadores focados em demandas materiais imediatas (alimentação, emprego, saúde).
- Aparelhismo
- Basismo/Interismo
- Eleitoralismo
Diretas Já e o Colégio Eleitoral (1984–1985)
Durante a campanha das Diretas Já (1983–1984), Lula dividiu palanques com opositores tradicionais. Com a rejeição da Emenda Dante de Oliveira na Câmara em 25 de abril de 1984, o PT decidiu boicotar o Colégio Eleitoral, divergindo do PMDB, PDT, PCB e PCdoB, que apoiaram a chapa Tancredo Neves-José Sarney contra Paulo Maluf.
- Ruptura interna: Três deputados federais petistas descumpriram a ordem partidária e votaram em Tancredo no dia 15 de janeiro de 1985: Airton Soares, José Eudes e Bete Mendes. Os três foram expulsos ou deixaram a legenda.
Relações com Cuba e a entrevista da Folha de 1985
Entre 1984 e 1985, Lula viajou a Havana em diversas ocasiões, reunindo-se com Fidel Castro para tratar de temas como a moratória da dívida externa de países do Terceiro Mundo, acompanhado de nomes como Luiz Eduardo Greenhalgh, Hélio Bicudo, Marilena Chaui e Francisco Weffort.
Em 29 de dezembro de 1985, concedeu entrevista à Folha de S.Paulo com declarações de forte repercussão:
- Via eleitoral vs. Força: Afirmou não acreditar que a classe dominante permitiria o socialismo pelas eleições: "Embora eu vá usar de todas as artimanhas possíveis, todos os pretextos possíveis para tentar chegar ao poder pela via do voto", alertando que se a via parlamentar falhasse, caberia recorrer a outra via.
- Rejeição à social-democracia: Argumentou que a social-democracia europeia só existia "na medida em que existem escravos" no Terceiro Mundo.
- Eleições e democracia: Declarou que "democracia não é você votar", sugerindo que, em um modelo avançado, o regime poderia "prescindir de eleições" formais, substituindo-as por conselhos populares ou comunitários.
Reações da imprensa e de lideranças
- O Estado de S. Paulo (Editorial "Caiu a máscara"): Afirmou que Lula abandonava os princípios democráticos ao admitir a violência armada.
- Jornal do Brasil: Registrou o rompimento de Leonel Brizola, que qualificou a postura de Lula como digna de "grupelho trotskista" e afirmou que o petista estava "20 anos atrasado".
- O Globo (Editorial "Lula ao Natural"): Acusou o dirigente de adotar uma postura antidemocrática e primária, reiterando a crítica em julho de 1986 após Lula declarar em Caçapava que o poder deveria ser tomado "pela conscientização ou na marra".
Constituinte de 1987–1988 e a votação da Carta Magna
Em 15 de novembro de 1986, Lula foi eleito o deputado federal mais votado do país, puxando votação histórica para a bancada do PT na Assembleia Nacional Constituinte.
- Posicionamentos: Defendeu a estatização do sistema financeiro, a nacionalização da exploração mineral, a desapropriação de terras produtivas que descumprissem função social e a subordinação irrestrita da propriedade privada ao interesse público.
- Voto contrário à Constituição de 1988: Em 22 de setembro de 1988, discursou na tribuna afirmando que, embora a Carta contivesse avanços nos direitos sociais, ficara aquém das expectativas da classe trabalhadora. Na votação final do texto, os 15 votos contrários (contra 474 a favor) foram exclusivamente da bancada do PT.
Eleições municipais de 1988 e o avanço eleitoral
Pouco mais de um mês após a promulgação da Constituição, o PT obteve vitórias expressivas nas capitais:
- São Paulo: Eleição de Luiza Erundina.
- Porto Alegre: Eleição de Olívio Dutra.
- Vitória: Vitória da candidatura petista.
O resultado consolidou a presença do partido no comando da maior metrópole do país no mesmo período em que o bloco soviético entrava em colapso e o consenso econômico global caminhava para as reformas de mercado.
