Como funciona a maior potência do século XXI | Ricardo Geromel
Ricardo Geromel, autor de O Novo Poder da China e cofundador da FCGI, detalha a dinâmica econômica, tecnológica, cultural e educacional que transformou a China na maior potência industrial do século XXI. Ao lado de Lucas Abreu no podcast Aura, Geromel analisa como o modelo de desenvolvimento chinês combina meritocracia milenar, planejamento estatal de longo prazo com lógica de venture capital e uma competição de mercado predatória que remodelou setores como energia solar, veículos elétricos e inteligência artificial.
Educação, Confucionismo e o Exame Imperial (Keju)
A obsessão chinesa por educação formal e engenharia tem raízes históricas e impacto demográfico direto no país:
- Contagem regressiva desde o berço: Geromel cita o exemplo do fundo de venture capital Sky9 Capital (liderado por Ron Cao), que em sua reunião anual para investidores globais apresentou a foto de um recém-nascido segurando uma placa com a contagem regressiva de 6.253 dias para a realização do Gaokao (o vestibular chinês).
- Classes dos gênios: O governo chinês seleciona anualmente cerca de 100 mil crianças de alto desempenho para programas de aceleração de talentos. Medalhistas em olimpíadas científicas têm ingresso automático na Universidade de Tsinghua sem prestar vestibular.
- Funil educacional implacável: Apenas cerca de 50% dos alunos que concluem o ensino fundamental conseguem vaga no ensino médio regular (high school); os demais são direcionados ao ensino técnico ou escolas privadas. Dos que entram no ensino médio, apenas metade passa no Gaokao para universidades públicas de ponta. Essa pressão educacional e o custo associado de tutoria tornaram-se um dos principais fatores para a queda da taxa de natalidade no país.
- Pedigree acadêmico na liderança política: O atual presidente Xi Jinping e o ex-presidente Hu Jintao são engenheiros químicos/civis formados em Tsinghua; o ex-presidente Jiang Zemin formou-se em engenharia na Universidade Jiao Tong de Xangai. Geromel compara esse modelo com o Brasil, onde 80% das crianças estudam na rede pública e o histórico acadêmico de lideranças políticas raramente é critério de avaliação pública.
- Origem no confucionismo: Confúcio e a compilação dos Analetos estabeleceram a meritocracia como ferramenta de governança imperial. O exame imperial (Keju) vigorou por cerca de 1.500 anos (até 1911, com a queda da dinastia Qing). Durante séculos, o exame foi a única via de mobilidade social e acesso à burocracia estatal, consolidando a mentalidade familiar de investimento absoluto nos estudos dos filhos.
Deng Xiaoping, Memória da Fome e a Taxa de Poupança
A busca por enriquecimento material na China contemporânea difere estruturalmente da ocidental:
- Evolução do PIB per capita: Em 1995, o PIB per capita brasileiro era 8 vezes superior ao chinês. Enquanto o indicador brasileiro estagnou próximo a US$ 10.000 ao longo dos últimos 15 anos, o PIB per capita chinês ultrapassou US$ 14.000 (mais de 35% superior ao do Brasil), sustentando uma população de 1,4 bilhão de pessoas.
- Deng Xiaoping e a retirada de 800 milhões da pobreza: Sob a liderança de Deng Xiaoping ("Enriquecer é glorioso" e "Deixar alguns enriquecerem primeiro"), a China promoveu a maior erradicação de miséria da história humana em um intervalo de 30 anos.
- Memória geracional da fome: Entre 1949 e 1976 (período de Mao Tsé-Tung), o país viveu extrema escassez. No início dos anos 1980, 88% da população vivia na miséria absoluta, sendo proibido ter animais domésticos devido à falta de alimentos. A geração nascida após as reformas econômicas foi a primeira a não passar fome, mas foi educada por pais e avós com traumas de privação, o que explica a mais alta taxa de poupança doméstica do mundo e a urgência por segurança financeira.
Planos Quinquenais e Pragmatismo na Execução
Embora o planejamento central estabeleça metas de longo prazo (como o centenário da fundação da República Popular da China em 2049), o governo descarta iniciativas que não performam:
- Planos Quinquenais: Em execução no 15º Plano Quinquenal (modelo herdado da União Soviética em 1952), o governo fixa KPIs públicos para urbanização, educação, infraestrutura e sustentabilidade.
- O cancelamento do Plano do Futebol: Em 2015, a China publicou um plano oficial com metas até 2050 para sediar uma Copa do Mundo e chegar à final, estabelecendo densidade de campos por habitante e atraindo jogadores internacionais com altos salários (Hulk, Oscar, Renato Augusto, Elkeson e Aloísio). Durante a pandemia de 2020, ao avaliar o retorno econômico e a reação popular contra os salários de estrangeiros, o governo cancelou e deletou o programa integralmente.
Energia Solar, Mobilidade Elétrica e o "Efeito Bagre"
A transformação industrial chinesa foi catalisada por problemas ambientais locais e direcionamento de capital intensivo:
- Da poluição à liderança solar: Em 2011, com Pequim liderando índices globais de poluição atmosférica, o Estado passou a subsidiar massivamente a cadeia de painéis fotovoltaicos e baterias. Em dez anos, os custos caíram 99%, forçando o fechamento de concorrentes ocidentais. Hoje, a China controla mais de 80% da cadeia global de energia solar.
- Efeito Bagre (Catfish Effect) e a Tesla: Em 2018, existiam mais de 100 montadoras na China, mas a população preferia veículos a combustão estrangeiros. O governo atraiu a Tesla para construir a Giga Shanghai, concedendo autorização para operar com 100% de capital estrangeiro (inédito para montadoras), cessão de terras e subsídios diretos na compra (cerca de US$ 10.000 por veículo). A entrada da Tesla funcionou como o "bagre no tanque de sardinhas": forçou os fabricantes locais a inovarem radicalmente ou quebrarem.
- Dominância da BYD e do setor de baterias: As duas maiores fabricantes mundiais de baterias automotivas são chinesas (CATL e BYD). A BYD, que começou apenas com baterias, migrou para veículos a combustão e deu foco total em elétricos e híbridos. A empresa emprega mais engenheiros do que todos os engenheiros formados no Brasil anualmente.
- Capacidade de produção e exportações: A China possui capacidade instalada para produzir mais de 50 milhões de veículos anuais contra uma demanda interna de 26 a 30 milhões. As exportações passaram de 1 milhão de unidades em 2020 para mais de 8,3 milhões em 2025. Deste volume exportado, 75% ainda eram a combustão, fabricados em joint ventures mais baratas instaladas no país, cujo lucro local é reinvestido nas plataformas elétricas.
- Caso Xiaomi SU7: A Xiaomi desenvolveu um sedã elétrico com design e desempenho comparáveis ao Porsche Taycan, precificado em US$ 30.000, esgotando toda a produção anual no primeiro dia de vendas. Geromel contrasta o caso com o Projeto Titan da Apple, cancelado após uma década e US$ 10 bilhões investidos sem viabilidade de competir em custo com a cadeia chinesa.
- Desmistificação da tese de dumping: Menos de 20% da produção de veículos da China é exportada (contra 70% a 75% da Alemanha e Coreia do Sul). A densidade veicular na China ainda é de 220 carros por 1.000 habitantes (nível similar ao brasileiro, contra mais de 800 nos EUA), o que sustenta ampla margem de expansão do mercado interno com o conceito de "celular sobre rodas" totalmente integrado à automação doméstica.
Interdependência Brasil-China e Negócios via Guanxi
A relação comercial entre os dois países consolidou uma dependência estrutural mútua:
- O Brasil como "derivativo da China": Geromel relembra sua tese publicada na Forbes em 2011. A China é o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009. Os números atuais mostram que 66% da soja brasileira exportada vai para a China, enquanto 70% da soja importada por Pequim vem do Brasil. Além disso, 50% da carne bovina e 45% do petróleo exportados pelo Brasil destinam-se ao mercado chinês (enquanto os EUA compram 10%). Em 2024, o petróleo ultrapassou a soja e o minério de ferro como principal produto exportado pelo Brasil.
- Negociação focada no "CPF" antes do contrato: Na China, onde a profissão de advogado e as empresas privadas foram inexistentes entre as décadas de 1950 e 1970, a segurança dos acordos baseia-se na confiança pessoal e reputação (Guanxi), e não estritamente na pessoa jurídica ou no litígio contratual. Executivos de alto escalão descem pessoalmente à portaria para recepcionar comitivas ("dar face" / mianzi) e priorizam o relacionamento interpessoal em vez de fechamentos rápidos de transações.
O Estado como Fundo de Venture Capital e Controle Estrutural
O modelo econômico chinês opera sob premissas distintas tanto do socialismo soviético quanto do capitalismo ocidental:
- Capitalismo de Estado como VC: O governo define a direção estratégica (como semicondutores, IA, baterias e solar), provê capital e incentivos abundantes e aceita milhares de falências no processo, confiando que os sobreviventes pagarão a conta do ecossistema e dominarão o mercado global.
- Realidade dos subsídios globais: Geromel refuta a exclusividade chinesa em subsídios lembrando que Elon Musk acumulou mais de US$ 38 bilhões em contratos, subsídios e incentivos do governo americano, e que a tecnologia fundacional do Google foi financiada pela National Science Foundation (NSF), DARPA e NASA.
- Fim da bolha imobiliária: Ao constatar o risco sistêmico do setor imobiliário (que representava 25% a 30% do PIB), o governo impôs a política das Three Red Lines (Três Linhas Vermelhas), cortando o crédito especulativo e redirecionando o fluxo financeiro para a manufatura de tecnologia avançada.
- Sistema Hukou e aversão a monopólios: O documento de registro residencial (Hukou) restringe a migração interna não autorizada para metrópoles como Xangai e Pequim, vinculando o acesso a moradia, escolas públicas e hospitais ao local de origem. O governo estimula a competição agressiva entre províncias e parques industriais (como o Suzhou Industrial Park - SIP) e coíbe monopólios privados em quase todos os setores.
Por que o SaaS Falhou na China e a Virada da Inteligência Artificial
A estrutura do mercado de software chinês difere totalmente do modelo norte-americano:
- Inexistência do modelo SaaS: Em 2020, metade das maiores empresas de tecnologia dos EUA operava sob modelo SaaS (Software as a Service). Entre as maiores da China, nenhuma adotava essa receita. Historicamente, empresas e consumidores chineses não aceitam pagar assinaturas recorrentes de software, exigindo compras únicas de licença perpétua ou recebendo o software como brinde atrelado a hardware.
- Dominância dos "Quatro Dragões": O tráfego e os usuários de IA na China são concentrados pelos quatro gigantes incumbentes (Baidu, Alibaba, ByteDance e Tencent), que possuem 2,5 vezes mais tráfego que as startups emergentes ("Seis Tigres", que inclui a MiniMax).
- O "Momento Sputnik" do DeepSeek: Criado por um fundo quantitativo com cerca de 150 engenheiros, o DeepSeek lançou modelos de raciocínio de código aberto com custo divulgado de desenvolvimento de US$ 6 milhões (uma fração dos bilhões gastos por OpenAI e Anthropic), provocando a perda de US$ 589 bilhões em valor de mercado da Nvidia em um único dia.
- Escala sem monetização direta: Mais da metade das 100 maiores aplicações de IA do mundo em volume de usuários são chinesas; contudo, apenas 4 constam entre as 100 maiores em faturamento. Isso reforça a estratégia local de tratar IA e software como infraestrutura aberta e deflacionária, monetizando em serviços secundários.
- Movimento Chuhai (Internacionalização): Devido à concorrência interna brutal e à recusa do mercado local em pagar por SaaS, startups de tecnologia chinesas adotam cada vez mais a estratégia de nascer com foco exclusivo em clientes no exterior (ex.: MiniMax e Manus — esta última teve aquisição de US$ 2 a 3 bilhões barrada por órgãos reguladores chineses após tentar transferir sua equipe para Singapura).
Consumo, Soft Power e Mercado de Café
- Schwarzman College e diplomacia preventiva: Criado por Stephen Schwarzman (fundador da Blackstone) na Universidade de Tsinghua, o programa de bolsas para pós-graduação baseou-se na tese do livro Destinados à Guerra (Graham Allison), que aponta que em 75% das vezes em que uma potência emergente desafiou a hegemônica, houve guerra. O colégio busca integrar futuras lideranças globais com tomadores de decisão chineses.
- A revolução do café e o caso Luckin Coffee: Historicamente consumidora exclusiva de chá, a China passou por uma rápida transformação no consumo de café. A Luckin Coffee desbancou a Starbucks (que operava mais de 800 lojas em Xangai focadas no modelo de convivência) adotando lojas compactas, pedidos 100% via aplicativo, entrega em menos de 15 minutos e preços pela metade da concorrente americana. O avanço abre espaço direto para a exportação de café em grão pelo agronegócio brasileiro.
