Bill Gurley: Searching for Feynman
Em palestra no All-In Summit, o investidor de capital de risco Bill Gurley (Benchmark, investidor histórico da Uber e Zillow) analisa o fracasso institucional e científico na determinação da causa-raiz da pandemia de COVID-19. Gurley estabelece um paralelo direto entre o tratamento de cinco desastres modernos e a ausência de uma investigação independente e técnica sobre a COVID-19, identificando o fenômeno de captura regulatória, conflitos de interesse da comunidade de virologia e o papel fundamental de investigadores independentes (searchers) contra instituições que ocultam dados (blockers).
O Método CAPA e a Dinâmica entre Searchers e Blockers
A ciência e a engenharia utilizam o protocolo CAPA (Corrective and Preventive Action), composto por cinco etapas sequenciais:
- Detectar o problema;
- Investigar;
- Confirmar a causa-raiz (root cause);
- Corrigir;
- Prevenir.
O método é exigido por lei pela FDA (farmacêutica e dispositivos médicos) e pela indústria aeroespacial. Gurley enfatiza que a prevenção futura é impossível sem a identificação precisa da causa-raiz técnica e institucional. Em todo desastre, operam duas forças opostas:
- Searchers (Buscadores): Jornalistas investigativos, cientistas independentes, comissões bipartidárias e denunciantes que buscam a verdade factual dos mecanismos de falha.
- Blockers (Bloqueadores): Agências reguladoras capturadas e corporações que fecham fileiras institucionalmente para evitar responsabilização e litígios.
Estudo de Cinco Grandes Catástrofes Modernas
1. Colapso do Champlain Towers (Surfside, Flórida – Junho de 2021)
- Impacto: 98 mortes.
- Falha técnica e institucional: Erros de projeto estrutural originais, cronograma inadequado de manutenção e desconsideração de laudos de inspeção preventiva pela diretoria do condomínio. O ar marinho corroeu a laje da piscina, que colapsou na garagem/subsolo, destruindo as colunas estruturais do edifício.
- Searchers: Abertura de cinco investigações paralelas independentes:
- National Institute of Standards and Technology (NIST), com os engenheiros Glenn Bell e Judith Mitrani-Reiser dedicando cinco anos à apuração;
- Allyn Kilsheimer, especialista contratado pelo município de Surfside;
- Grande Júri estadual convocado pela procuradora estadual Katherine Fernandez Rundle e ação coletiva sob o juiz Michael Hanzman;
- Cobertura investigativa do Miami Herald (liderada pela editora-executiva Monica Richardson, com o repórter Aaron Leibowitz no local em duas horas, a repórter Sarah Blaskey e a professora Dawn Lehman, da Universidade de Washington), mobilizando 37 pessoas e conquistando o Prêmio Pulitzer; além de modelagem 3D do The New York Times.
- Prevenção: Reformas nas leis estaduais de inspeção periódica de condomínios na Flórida e em estados costeiros.
2. Acidentes do Boeing 737 Max (Outubro de 2018 e Março de 2019)
- Impacto: 346 mortes (voos Lion Air 610 e Ethiopian Airlines 302).
- Falha técnica e institucional: A Boeing instalou motores maiores e mais eficientes na fuselagem antiga do 737 para competir com a Airbus. A mudança deslocou o motor para a frente da asa, desequilibrando o avião em certos ângulos de subida. Para corrigir a inclinação sem exigir novo treinamento em simulador para pilotos, a Boeing inseriu o software secreto MCAS (Maneuvering Characteristics Augmentation System). Um sensor de ângulo de ataque defeituoso forçou o nariz da aeronave para baixo repetidamente.
- Searchers: Comissões bipartidárias da Câmara (liderada por Peter DeFazio) e do Senado (Ted Cruz e Roger Wicker); investigação do Departamento de Justiça (DOJ); agência indonésia KNKT; 57 denunciantes internos; cobertura de Dominic Gates (The Seattle Times, vencedor do Pulitzer) e Peter Robison (autor do livro Flying Blind); e o sindicato de pilotos, que gravou reuniões com a Boeing e acionou a Lei de Acesso à Informação (FOIA).
- Blockers: A Boeing (que inicialmente culpou a falta de treinamento dos pilotos) e a FAA (que sonegou documentos ao Senado). O senador Ted Cruz confrontou o chefe da FAA afirmando que o órgão fora capturado: “Senhor, você sabe que não trabalha para a Boeing?”. A falha do MCAS era conhecida 45 dias após o primeiro acidente, mas nenhum dos dois órgãos suspendeu os voos a tempo de evitar a segunda queda.
3. Furacão Katrina (Nova Orleans – 2005)
- Impacto: 1.800 mortes, 400.000 desalojados, US$ 125 bilhões em prejuízos.
- Falha técnica: O U.S. Army Corps of Engineers alegou transbordamento natural (overtopping), mas a tempestade (categoria 3 na chegada à terra) provocou o colapso estrutural das fundações dos diques por infiltração basal (undermining).
- Searchers vs. Blockers: Investigações conduzidas pelo Congresso, pela Universidade Estadual da Louisiana (LSU), pela National Science Foundation (NSF) liderada pelo professor Raymond Seed (UC Berkeley), e pelos jornalistas Mark Schleifstein e John McQuaid (The Times-Picayune, ganhadores de dois Prêmios Pulitzer). O Army Corps of Engineers contratou a American Society of Civil Engineers (ASCE) por US$ 1 milhão para integrá-la à investigação interna, gerando obstrução documentada em um relatório de 42 páginas publicado por Raymond Seed.
- Prevenção: 90 recomendações implementadas na reconstrução de US$ 15 bilhões do sistema de proteção de Nova Orleans, intacto há quase duas décadas.
4. Desastre Nuclear de Fukushima Daiichi (Japão – Março de 2011)
- Impacto: 2.200 mortes indiretas, 154.000 evacuados, US$ 200 bilhões em custos de contenção.
- Falha técnica: O dique marítimo de contenção da usina tinha 5,7 metros de altura, enquanto estudos internos da concessionária TEPCO previam ondas de tsunami de 10 a 15 metros dentro de uma janela de 30 anos. A TEPCO engavetou o relatório. O mar inundou os geradores a diesel, impedindo o resfriamento dos núcleos dos reatores.
- Searchers vs. Blockers: A TEPCO e o órgão regulador nuclear japonês (NISA) operavam em captura regulatória. A Dieta Nacional do Japão nomeou a primeira comissão independente e privada de inquérito da história do país (NAIIC), presidida pelo médico Dr. Kiyoshi Kurokawa. A comissão exigiu que nenhum integrante tivesse laços com a indústria ou com a NISA, reuniu dados abertos e publicou o relatório final primeiramente em inglês, definindo o episódio logo na abertura: “O acidente na usina nuclear não pode ser considerado um desastre natural. Foi profundamente provocado pelo homem e poderia e deveria ter sido evitado.”
5. Explosão do Ônibus Espacial Challenger (Janeiro de 1986)
- Impacto: 7 mortes de astronautas.
- Falha técnica: Falha de resiliência dos anéis de vedação de borracha (O-rings) nos propulsores de combustível sólido em baixas temperaturas no lançamento matinal na Flórida. Engenheiros da subcontratada Morton Thiokol alertaram contra o lançamento na véspera, mas a liderança da NASA forçou a decolagem.
- A atuação de Richard Feynman: Nomeado para a Comissão Rogers para dar aval técnico formal, Feynman limpou sua agenda acadêmica no Caltech por seis meses, evitou a burocracia de Washington, entrevistou engenheiros diretamente na fábrica e demonstrou a falha em rede nacional ao mergulhar uma amostra de borracha do anel em um copo de água com gelo, comprovando a perda de elasticidade. Quando o comitê tentou suavizar o relatório final, Feynman exigiu que seu trabalho fosse incluído sem edições, o que deu origem ao Apêndice F.
