Daily Journal

Bending Spoons is Eating Silicon Valley | CEO Luca Ferrari

Sourcery with Molly O'Shea18 de setembro de 20261h14minVer no YouTube|

Luca Ferrari, cofundador e CEO da Bending Spoons, detalha a tese operacional, a arquitetura tecnológica proprietária, o processo de aquisição e a cultura da empresa de tecnologia baseada em Milão em conversa com Molly O'Shea.

Aquisição da Airtable e a dinâmica de M&A do Vale do Silício

A aquisição da Airtable por um enterprise value aproximado de US$ 1,3 bilhão gerou repercussão no Vale do Silício por envolver uma empresa considerada modelo no ecossistema americano. Ferrari destaca que Howie Liu e sua equipe demonstraram disciplina incomum durante o ciclo de 2021: levantaram menos capital do que poderiam, mantiveram a empresa lucrativa e queimaram pouco ou quase nenhum dinheiro, preservando grande volume de caixa no balanço. No desfecho da venda, os investidores receberam de volta o capital investido com prêmio, a um múltiplo de avaliação comparável ao de pares de SaaS de alta qualidade no mercado público.

A Bending Spoons atua como adquirente ativa:

  • Fluxo de análise: Analisa centenas de empresas ativamente por ano, estabelecendo diálogo direto com algumas dezenas onde há maior convergência.
  • Critérios de corte: Capacidade de projetar a trajetória do negócio com alta precisão por cinco anos ou mais, aliada à certeza de conseguir adicionar valor substancial (melhoria de produto, infraestrutura técnica, monetização e estrutura organizacional).
  • Setores-alvo: Historicamente focada em internet de consumo e SaaS, expandindo recentemente para hardware com a aquisição da austríaca Tractive (dispositivos de rastreamento e monitoramento de saúde de animais de estimação).
  • Financiamento: Aquisições custeadas predominantemente por fluxo de caixa livre próprio e linhas de dívida, com diluição acionária mínima.

O mito do "cemitério de softwares" e a relevância de base

Ferrari contesta a caracterização de que o portfólio da Bending Spoons seria composto por marcas decadentes sem relevância prática. O grupo conta atualmente com mais de 500 milhões de usuários ativos mensais (monthly active users - MAU).

Como exemplo de distorção de percepção, Ferrari cita a AOL (propriedade do portfólio):

  • Apesar de ter cerca de 40 anos de existência e ser vista como ultrapassada pelo mercado de venture capital, a AOL é o quinto maior provedor de e-mail do Ocidente, utilizado como caixa de entrada primária por dezenas de milhões de pessoas.
  • A totalidade das startups de e-mail financiadas por fundos de risco nos últimos dez anos não soma 5% do tráfego e do volume diário de e-mails processados pela AOL.
  • Ferrari afirma que a Bending Spoons não tem interesse em projeção de imagem ou "ser descolada" (cool); produtos com menor apelo de mídia tendem a apresentar precificações de entrada mais atraentes para aquisição.

Sistema operacional proprietário e modelo integrado vs. Private Equity

A Bending Spoons rejeita a comparação com fundos de private equity (PE), apontando três divergências estruturais:

  1. Horizonte de investimento perpétuo: Não opera como fundo com capital fechado de terceiros nem vende ativos após ciclos médios de 5 anos; compra para manter e operar por tempo indeterminado (buy-and-hold).
  2. Profundidade de intervenção técnica e operacional: Enquanto fundos de PE contam com equipes enxutas focadas em engenharia financeira, ajustes de preços e cortes periféricos, o time central da Bending Spoons conta com cerca de 1.000 profissionais (e mais de 2.000 colaboradores somando os times adquiridos), sendo 60% a 70% engenheiros de software, pesquisadores de IA, gerentes de produto, designers e especialistas em crescimento (growth). Os ativos sofrem reescrita de código, rearquitetura completa de nuvem, remodelação da experiência de usuário (UX) e reestruturação da política de monetização (divisão entre camadas gratuitas e pagas, precificação e segmentação).
  3. Plataforma unificada e mobilidade de talentos: Ao longo da última década, a Bending Spoons construiu um sistema operacional compartilhado de mais de 50 tecnologias proprietárias que cobrem processamento e armazenamento de dados, testes A/B, infraestrutura de pagamentos, gestão de credenciais, recrutamento e orquestração de IA. A economia com licenças e ferramentas de terceiros supera US$ 100 milhões por ano. As equipes centrais transitam com fluidez técnica entre as diversas unidades de negócio conforme as oportunidades de P&D demandam.

O desenvolvimento dessas ferramentas segue uma abordagem descentralizada na criação: o problema é resolvido inicialmente na "trincheira" pela equipe de produto específica que sofre a dor. Uma vez validada a eficácia, a solução é repassada ao time de plataforma central para abstração, expansão e integração para o restante do grupo como uma biblioteca interna de código aberto.

Produtividade extrema, agentes de IA e orquestração de modelos

A empresa opera em patamares atípicos de eficiência per capita:

  • Receita por funcionário: O time central atinge US$ 4 milhões de faturamento por colaborador (chamado internamente de Spooner), contra cerca de US$ 1 milhão por pessoa registrado há 2–3 anos. Considerando a totalidade da folha (incluindo funcionários de empresas adquiridas), a métrica fica em pouco menos da metade desse valor.
  • Código escrito por IA: Cerca de 95% do código gerado na Bending Spoons é escrito por modelos de IA, elevando a produtividade geral da empresa em 2 a 3 vezes.
  • AltSpooner: Agente autônomo individual integrado nativamente ao Slack para os colaboradores. O agente replica exatamente as permissões de acesso e credenciais de segurança do funcionário. Casos práticos citados:
    • Análise de dados: Ferrari instruiu seu AltSpooner a tabular testes A/B do StreamYard e recebeu relatórios gráficos detalhados em 5 minutos, trabalho que demandaria horas de um cientista de dados humano.
    • Correção de bugs: A gerente-geral do Evernote identificou um erro na interface, solicitou ao AltSpooner que verificasse a incidência no suporte ao cliente, isolasse a causa raiz na base de código, escrevesse o patch de correção e o enviasse diretamente para revisão do líder de engenharia, resolvendo a falha no mesmo dia com apenas 3 minutos de esforço humano de instrução.

Estratégia de orquestração e desacoplamento de laboratórios

Para evitar o aprisionamento tecnológico (vendor lock-in) e custos proibitivos de inferência, a Bending Spoons desenvolveu um motor de roteamento algorítmico:

  • 99% das requisições e tokens utilizam modelos abertos (open-weight) auto-hospedados na infraestrutura interna, operando a custo marginal de nuvem praticamente nulo.
  • 1% das requisições (apenas tarefas de alta complexidade ou supervisão de código gerado por modelos menores) acionam modelos proprietários de ponta (frontier models) via API de provedores comerciais.
  • Criação de modelos dedicados para casos de uso específicos de nicho (exemplo: o motor de recomendação de eventos do Meetup foi treinado internamente, igualando o desempenho de modelos de fronteira sem incorrer em custos recorrentes de inferência externa).

Cultura, atração de talentos e experimentação contínua

  • Funil de contratação: Em 2025, a Bending Spoons recebeu mais de 800.000 candidaturas de emprego e contratou menos de 300 pessoas.
  • Retenção de pessoal: O turnover não planejado na equipe central foi de 0,6% no último ano (contra médias de mercado em tecnologia próximas a 5%). A mobilidade interna entre produtos (como transitar do Evernote para a plataforma interna ou para a AOL) previne a estagnação de carreira.
  • Experimentação rigorosa: Em um único ano, o grupo executou mais de 3.000 experimentos quantitativos documentados em seus produtos.
  • Princípios centrais: Extreme ownership (responsabilidade individual irrestrita) e postura científica voltada à busca da verdade factual através de dados empíricos, rejeitando decisões corporativas baseadas em política interna ou apego intuitivo.

Riscos de IA, AGI e o problema da subestimação de capacidades

Sobre os debates de Inteligência Artificial Geral (AGI) e segurança cibernética, Ferrari argumenta:

  • O marco de chegada da AGI é conceitualmente irrelevante; o fator decisivo é o avanço horizontal contínuo (crescimento da variedade de tarefas humanas que a IA executa com superioridade) e vertical (aumento da distância de competência em relação aos humanos em tarefas específicas).
  • Assimetria de riscos em relação a armas nucleares: Armas nucleares envolvem destruição mútua assegurada, o que desestimula seu uso por inviabilizar a sobrevivência do agressor. Ataques cibernéticos e agentes de IA avançados permitem agressões altamente cirúrgicas e unilaterais sem destruição do atacante, reduzindo a barreira de entrada para atores mal-intencionados.
  • Risco de subestimação e ausência de "ego" nos modelos: Sistemas de IA são calibrados para serem cautelosos e expressarem incerteza nas respostas para mitigar erros corporativos embaraçosos dos laboratórios. Ferrari alerta que a IA não tem o incentivo de exibir todo o seu potencial ou "se gabar"; ela apenas responde ao que lhe é estritamente perguntado, o que leva pesquisadores e executivos a subestimarem a extensão real de sua inteligência lateral e colaborativa até que incidentes críticos de segurança ocorram.
  • Crítica regulatória: Classifica o AI Act da União Europeia como ineficaz para combater riscos existenciais e prejudicial ao ecossistema de inovação, ressaltando que protecionismos trabalhistas ou restrições que impeçam a adoção plena de IA condenam nações e economias à irrelevância e à regressão econômica nas próximas décadas.