4º Congresso Brasileiro de Comunicação Pública - abertura oficial - 16/09/26
A solenidade de abertura do 4º Congresso Brasileiro de Comunicação Pública (ComPública 2026) foi realizada no Auditório Nereu Ramos da Câmara dos Deputados em 16 de setembro de 2026, marcando simultaneamente o bicentenário da Câmara dos Deputados e o aniversário de 10 anos da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABC Pública). O evento não teve caráter deliberativo ou votação legislativa, configurando-se como encontro institucional, acadêmico e profissional dedicado ao debate de diretrizes, desafios éticos e tecnológicos da comunicação voltada à cidadania, com entrega de prêmios e duas conferências magnas.
Abertura Institucional e Composição da Mesa de Honra
A mestre de cerimônias Alessandra Anselmo (jornalista da Diretoria Executiva de Comunicação e Mídias Digitais da Câmara dos Deputados e diretora regional da ABC Pública no Distrito Federal) abriu a solenidade com a apresentação musical do Coral Esplanada (composto por servidores da Câmara dos Deputados, do Ministério das Relações Exteriores e da Controladoria-Geral da União), sob regência do maestro Davidson Miranda, seguido da execução do Hino Nacional Brasileiro.
Pronunciamentos das Autoridades
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Jorge Duarte (Presidente da ABC Pública):
- Destacou o crescimento da associação, fundada em 2016 por 11 pessoas em Brasília, alcançando em 2026 quase 500 associados com representatividade em todos os estados brasileiros.
- Informou que o congresso registrou mais de 1.800 inscritos em todo o país — dos quais mais de 60% são mulheres —, contando com 160 trabalhos distribuídos em seis grupos temáticos (políticas públicas, integridade da informação, memória, direitos, redes sociais, linguagem simples, inteligência artificial, crises e gestão).
- Apresentou dados de pesquisa interna com associados da ABC Pública sobre os maiores gargalos da área, apontando três fatores com índices de 77% a 78% de classificação como "desafiadores ou muito desafiadores": escassez de pessoal, execução de atividades com pouca ou nenhuma estratégia e falta de compreensão das outras áreas institucionais acerca do papel da comunicação pública.
- Registrou os apoios e patrocínios institucionais recebidos de órgãos como Senado Federal, TCU, ATRICON, CNMP, MPDFT, TCE-GO, TCE-PE, Doity, Sindilegis e Social Media Gov.
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Dione Oliveira Moura (Diretora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília - FAC/UnB):
- Ressaltou o papel crucial dos comunicadores públicos durante a pandemia de Covid-19 na disseminação de informações científicas e de saúde pública.
- Defendeu a ampliação de concursos públicos para comunicadores nas esferas municipal, estadual e federal, além de exigir a participação desses profissionais no planejamento estratégico institucional prévio, e não apenas na contenção de crises.
- Relatou a história de seu tio, Zeferino Sena Moura, pioneiro na construção do Congresso Nacional na década de 1960, cujo esforço educacional viabilizou a trajetória de seu primo, o atual senador Confúcio Moura (MDB-RO).
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Ana Cristina Siqueira Novaes (Diretora-Geral do Instituto Serzedelo Corrêa - ISC/TCU):
- Citou a Carta de Natal (aprovada no 2º ComPública em 2023) e o princípio formulado pela jornalista argentina Cynthia Ottaviano: "Ninguém defende um direito que não conhece".
- Apresentou as diretrizes de "cidadão no foco" e "participação cidadã" do plano de gestão do TCU, destacando a plataforma de consulta pública que direcionou fiscalizações prioritárias para temas como a fila do INSS e obras paralisadas na área da saúde.
- Alertou para os riscos de uma transparência meramente formal e defendendo a linguagem simples e acessível: "Comunicar para todos do mesmo jeito pode significar, na prática, comunicar apenas para alguns".
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Glauciene Lara (Diretora de Comunicação Social do Senado Federal):
- Abordou o paradoxo contemporâneo citado na obra Nexus, de Yuval Noah Harari: a coexistência entre a maior disponibilidade histórica de informação e a crescente dificuldade de gerar confiança pública.
- Pontuou os quatro desafios centrais da área: enfrentamento contínuo da desinformação com foco em educação midiática; fragmentação das audiências mediada por algoritmos de redes sociais; impactos éticos, riscos de pasteurização e perda de autoria decorrentes da Inteligência Artificial; e sustentabilidade financeira/continuidade das estruturas públicas.
- Destacou os 30 anos da Lei do Cabo e da criação da TV Senado, prestando homenagem às emissoras públicas legislativas, universitárias e comunitárias e ao professor Murilo Ramos.
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Amanda Maria Ramalho de Carvalho (Diretora-Geral Adjunta da Câmara dos Deputados):
- Enfatizou que a comunicação pública não deve servir a disputas narrativas ou partidárias, cabendo-lhe a transmissão de informações imparciais, fidedignas e voltadas ao fortalecimento da legitimidade democrática das instituições.
- Salientou a relevância estratégica da comunicação interna para conscientizar os próprios servidores públicos sobre o valor público de suas funções, tornando-os agentes multiplicadores de credibilidade institucional.
Miniconferência Internacional: Melissa Fleming (ONU)
A Subsecretária-Geral das Nações Unidas para a Comunicação Global, Melissa Fleming, proferiu conferência abordando a integridade da informação em âmbito global:
- Diagnóstico de risco: Relatou pesquisas da ONU e do Painel Internacional sobre o Ambiente da Informação (IPIE), nas quais três quartos (75%) dos especialistas globais projetam piora no ecossistema de informação no próximo ano, comparando o risco da desinformação ao impacto de guerras de grande escala.
- Economia da atenção e IA: Criticou o modelo de negócios das plataformas digitais e sistemas algorítmicos que priorizam o engajamento baseado em indignação, lucro e sensacionalismo em detrimento de fatos verificados.
- Iniciativas climáticas: Destacou as parcerias da ONU com o governo do Brasil e a UNESCO na iniciativa Verified for Climate e na Coalizão Global para a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas, utilizando psicologia comportamental e influenciadores locais para combater o negacionismo e a inércia climática.
Entrega de Premiações
Prêmio Neuza Meller de Audiovisual Universitário
Instituído em memória da professora e ex-diretora da UnBTV Neuza Meller, falecida vítima de Covid-19, a premiação teve a Universidade Federal de Sergipe (UFS) como vencedora das três primeiras colocações, representadas no palco pelo professor Josafá Bonifácio da Silva Neto:
- 1º Lugar: Série de reportagens Nós (Rádio UFS) — abordagem em três episódios sobre solidariedade e doação.
- 2º Lugar: Reportagem Zero Gravidez na Primeira Infância (Rádio UFS) — análise da gravidez infanto-juvenil sob os eixos de saúde, direitos e educação.
- 3º Lugar: Série de reportagens Povos do Velho Chico (TV UFS) — três episódios sobre as comunidades ribeirinhas do Rio São Francisco.
Prêmio Beth Brandão de Comunicação Pública 2026
Homenagem à pesquisadora Elizabeth Pazito Brandão, pioneira na conceituação teórica da comunicação pública no Brasil, também vítima de Covid-19. O prêmio foi outorgado ao professor sênior da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Dr. Wilson da Costa Bueno (recebido simbolicamente pela professora Dione Moura).
Miniconferência: Wilson da Costa Bueno (USP)
Sob o título "Comunicação Pública no Brasil: ampliando o conceito e reforçando os compromissos", o professor Wilson da Costa Bueno apresentou os seguintes pontos:
- Lançamento editorial: Anunciou o e-book O Jornalismo na Comunicação Organizacional – Desafios à Frente, organizado em parceria entre o grupo de pesquisa Jorcon (ECA-USP) e a ABC Pública, disponibilizado para download gratuito na Biblioteca Digital da associação.
- Conceituação de Beth Brandão: Relembrou a distinção estabelecida pela pesquisadora entre comunicação pública, comunicação governamental e comunicação política (esta última frequentemente contaminada pela disputa ideológica partidária e promoção individual).
- Ampliação do conceito: Defendeu que a comunicação pública não deve ser restrita a órgãos estatais, devendo abranger qualquer ação ou campanha (incluindo da sociedade civil organizada e do setor privado) cujo objetivo precípuo seja atender ao interesse público, aos direitos e à cidadania.
- Crítica ao elitismo e valorização comunitária: Criticou o foco excessivo das assessorias públicas em veículos tradicionais de prestígio, TV por assinatura e redes sociais usadas para promoção pessoal; defendeu a incorporação das práticas de comunicação popular e comunitária (citando os postulados teóricos de Cicilia Peruzzo) para alcançar os setores historicamente vulnerabilizados.
- Manifestação de solidariedade trabalhista: Prestou solidariedade aos milhares de professores e funcionários demitidos sem justa causa pela rede Metodista de Educação (instituição na qual lecionou na Umesp), criticando a morosidade do Judiciário e a falta de pagamento das verbas rescisórias.
