O que é o Tesouro dos EUA
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos é o órgão do governo federal norte-americano responsável pelas finanças públicas do país. Foi criado em 2 de setembro de 1789, e seu primeiro secretário, Alexander Hamilton, tomou posse em 11 de setembro do mesmo ano. A sede fica na Avenida Pensilvânia, 1500, NW, em Washington, D.C., ao lado da Casa Branca.
Entre suas atribuições estão produzir toda a moeda e as cédulas em circulação nos EUA, arrecadar os impostos federais, pagar as contas do governo, administrar as finanças e a dívida pública federal, supervisionar bancos nacionais e instituições de poupança e assessorar o presidente em política fiscal, monetária e econômica.
Para o leitor brasileiro, a comparação mais próxima é o Ministério da Fazenda somado ao Tesouro Nacional e à Receita Federal — mas o Tesouro dos EUA acumula ainda uma função que no Brasil não tem equivalente direto: é ele quem aplica as sanções financeiras dos Estados Unidos contra pessoas e empresas estrangeiras.
Tesouro dos EUA e a Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes
O Tesouro dos EUA entrou no noticiário brasileiro em 2025 como o órgão que aplicou a Lei Magnitsky Global contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. A sanção partiu do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), braço do Tesouro encarregado das sanções.
A cronologia dos fatos:
- 18 de julho de 2025 — o governo dos EUA revoga os vistos de Moraes e de familiares, alegando "cumplicidade em auxiliar e instigar a campanha ilegal de censura" contra cidadãos americanos.
- 30 de julho de 2025 — o OFAC inclui Moraes na lista de sancionados, com base em alegadas violações de direitos humanos na condução do processo da trama golpista e em decisões judiciais que determinaram a retirada de conteúdos de usuários norte-americanos. A medida implicou bloqueio de bens em solo americano, impossibilidade de transações financeiras em dólar e restrições de viagem.
- 8 de dezembro de 2025 — em carta ao congressista americano Rick McCormick, o Tesouro detalha a aplicação da sanção com base na Ordem Executiva 13818, citando "prisões preventivas arbitrárias" e "ataques" à liberdade de expressão, sem dar indícios de que revogaria a medida.
- 12 de dezembro de 2025 — quatro dias depois da carta, o OFAC retira da lista Alexandre de Moraes, sua esposa Viviane Barci de Moraes e o Lex Instituto de Estudos Jurídicos Ltda., encerrando cerca de cinco meses de restrições.
A revogação foi atribuída à aproximação entre Donald Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula condicionava a normalização das relações bilaterais à retirada das sanções, e Washington esperava uma ocasião que permitisse reverter a medida sem esvaziar o instrumento — encontrada na aprovação parlamentar do projeto de lei da dosimetria.
Quem é o secretário do Tesouro dos EUA
O cargo é ocupado por Scott Bessent, 79º secretário do Tesouro dos Estados Unidos, empossado em 28 de janeiro de 2025.
Nascido em 1962, Bessent formou-se em ciência política em Yale em 1984 e construiu carreira na gestão de fundos. Foi integrante de destaque da equipe da Soros Fund Management que lucrou com a crise cambial da libra esterlina em 1992, a chamada Quarta-Feira Negra, e chegou a diretor de investimentos da gestora. Em 2015, deixou a Soros para fundar o fundo de hedge Key Square Group, que teve aporte do próprio George Soros. Também fundou a Bessent Capital e foi professor adjunto de história econômica em Yale.
Como o Tesouro dos EUA está estruturado
O departamento reúne agências que, no Brasil, estariam espalhadas por vários órgãos:
- Internal Revenue Service (IRS) — a autoridade tributária americana, equivalente à Receita Federal.
- Casa da Moeda dos Estados Unidos (U.S. Mint) — cunha as moedas metálicas.
- Bureau of Engraving and Printing — imprime as cédulas de dólar.
- Office of Foreign Assets Control (OFAC) — administra as sanções econômicas e mantém a lista de pessoas e empresas sancionadas.
- Financial Crimes Enforcement Network (FinCEN) — atua no combate a crimes financeiros e lavagem de dinheiro.
Títulos do Tesouro dos EUA: o que são os Treasuries
Os Treasuries são os títulos de dívida pública emitidos pelo Tesouro americano para financiar os gastos e a dívida federal. Funcionam de maneira parecida com os papéis do Tesouro Nacional brasileiro e são tratados no mercado como um dos ativos mais seguros do mundo — a referência a partir da qual outros ativos são precificados.
Os principais tipos, por prazo:
- T-Bills — curto prazo, de 1 mês a 1 ano.
- T-Notes — de 2 a 10 anos, com cupons semestrais prefixados.
- T-Bonds — de 20 a 30 anos, com juros semestrais prefixados.
- TIPS — de 5 a 30 anos, indexados à inflação, com pagamento semestral.
- FRN — 2 anos, pós-fixados, com pagamento trimestral.
Como investir no Tesouro dos EUA e quanto rende
Do Brasil, o caminho mais comum não é comprar o título diretamente, mas um ativo que acompanha esses papéis. Na B3 existem duas rotas negociadas em reais: BDRs e ETFs de renda fixa americana. Como resume o especialista citado pelo portal Bora Investir, da B3, "você não vai comprar, especificamente um título público, mas um ativo financeiro que acompanha a movimentação dos títulos públicos americanos". O aporte mínimo citado é de US$ 100. Também é possível investir por meio de contas em corretoras no exterior.
O rendimento acompanha a taxa (yield) dos títulos no mercado, que varia diariamente. Em 18 de agosto de 2026, o rendimento do título de 30 anos chegou a 5,34% ao ano, o maior patamar desde 2007, e recuou para 5,184% no dia seguinte, após um anúncio do próprio Tesouro.
Na tributação brasileira, os ganhos são tratados como ganho de capital, com alíquotas progressivas do Imposto de Renda: 15% até R$ 5 milhões, 17,5% de R$ 5 milhões a R$ 10 milhões, 20% de R$ 10 milhões a R$ 30 milhões e 22,5% acima de R$ 30 milhões.
A recompra de títulos de agosto de 2026
Em 19 de agosto de 2026, o Tesouro dos EUA dobrou o volume de suas operações de recompra (buyback) de títulos longos, de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões por operação nos papéis com vencimento entre 10 e 30 anos. O programa ampliado vale de 9 de setembro a 4 de novembro de 2026 e acrescenta cerca de US$ 14 bilhões de suporte de liquidez, elevando o total autorizado de recompras a US$ 83 bilhões até 5 de novembro.
A decisão veio depois de uma forte onda de venda de títulos que levou o rendimento de 30 anos ao maior nível em quase duas décadas. Foi a segunda intervenção de Scott Bessent no mercado no mesmo mês, num movimento descrito por analistas como uma postura "ativista" para conter a pressão sobre o preço dos papéis. O pano de fundo inclui a piora do quadro fiscal americano — com a dívida pública ultrapassando US$ 40 trilhões — e a tensão no Oriente Médio.
Por que o Tesouro dos EUA afeta o Brasil
O rendimento dos títulos americanos é a taxa livre de risco de referência do mundo. Quando ele sobe, investidores exigem prêmio maior para comprar dívida de países emergentes, e as taxas dos papéis brasileiros sobem junto; quando ele cede, o movimento se inverte. Foi o que se viu em 19 de agosto de 2026: as taxas dos títulos do Tesouro Direto recuaram acompanhando o alívio nos juros longos americanos logo após o anúncio da recompra.
Reserva estratégica de bitcoin
Em 6 de março de 2025, Donald Trump assinou uma ordem executiva criando a Reserva Estratégica de Bitcoin dos EUA e o U.S. Digital Asset Stockpile, o estoque de outros ativos digitais. A ordem atribui ao secretário do Tesouro responsabilidades centrais: avaliar aspectos legais e de investimento, propor legislação em até 60 dias e definir a estratégia de gestão dos ativos. Órgãos federais devem inventariar todos os ativos digitais que detêm e reportá-los ao Tesouro e ao grupo de trabalho presidencial sobre mercados de ativos digitais.
A reserva de bitcoin é tratada como ativo permanente, que não deve ser vendido. Já o estoque separado de ativos digitais que não são bitcoin admite venda, conforme a estratégia de gestão definida pelo Tesouro.
