Quem é Nigel Farage
Nigel Paul Farage é um político britânico, líder do partido Reform UK e deputado da Câmara dos Comuns pelo distrito eleitoral de Clacton, no leste da Inglaterra. Nascido em 3 de abril de 1964 em Farnborough, no condado de Kent, estudou no Dulwich College, escola privada no sul de Londres, entre 1975 e 1982.
Ao sair da escola, foi trabalhar como operador no mercado de commodities na City de Londres, passando por casas como Drexel Burnham Lambert, Crédit Lyonnais Rouse, Refco e Natixis Metals. Nunca cursou universidade.
Foi membro fundador do UKIP (Partido da Independência do Reino Unido) em 1993 e se tornou a figura pública mais associada à campanha pela saída britânica da União Europeia. Elegeu-se deputado do Parlamento Europeu pela região Sudeste da Inglaterra em 1999, com reeleições em 2004, 2009 e 2014, permanecendo no cargo até a saída efetiva do Reino Unido do bloco, em 2020.
Nigel Farage é de direita ou de esquerda?
Farage é uma figura da direita. Suas posições são descritas na literatura política como populistas de direita, e parte dos analistas classifica seu discurso como de extrema direita. Os eixos centrais de sua atuação são o euroscepticismo — a oposição à integração europeia, que marcou toda a sua carreira —, a redução da imigração e a crítica ao que apresenta como um establishment político distante do eleitor comum.
Ele rejeita o rótulo de extrema direita e se apresenta como voz de eleitores desatendidos pelos dois grandes partidos britânicos, o Trabalhista e o Conservador.
Do UKIP ao Reform UK
Farage liderou o UKIP em dois períodos: de 2006 a 2009 e de 2010 a 2016. Renunciou à liderança em 4 de julho de 2016, dias depois da vitória do "Leave" no referendo do Brexit, afirmando ter cumprido seu objetivo político.
Em janeiro de 2019 foi anunciada a criação do Brexit Party, do qual Farage assumiu a liderança em março do mesmo ano. Em 2021 o partido foi renomeado Reform UK, ampliando sua agenda para além da saída da União Europeia. Farage retomou a liderança da sigla em junho de 2024.
Antes de 2024, disputou sem sucesso diversas eleições para a Câmara dos Comuns, entre elas Buckingham, em 2010, e South Thanet, em 2015.
Brexit e o referendo de 2016
A saída do Reino Unido da União Europeia foi a causa que definiu a trajetória de Farage. Durante duas décadas no Parlamento Europeu, ele usou o mandato como plataforma para atacar a própria instituição, e seu partido pressionou o governo conservador de David Cameron a convocar uma consulta popular sobre a permanência no bloco.
O referendo de junho de 2016 terminou com vitória da opção pela saída. Farage não ocupava cargo no governo britânico nem participou formalmente das negociações de retirada, mas é amplamente reconhecido como um dos principais responsáveis por levar o tema ao centro do debate nacional. O Reino Unido deixou formalmente a União Europeia em 2020.
Farage vence Clacton em 2024
Na eleição geral de 4 de julho de 2024, Farage conquistou pela primeira vez uma cadeira na Câmara dos Comuns, pelo distrito de Clacton. Recebeu 21.225 votos (46,2%), contra 12.820 (27,9%) do conservador Giles Watling, então titular da vaga — uma maioria de 8.405 votos, com comparecimento de 58,7% dos 78.245 eleitores registrados.
A eleição suplementar de Clacton em 2026
Em 7 de julho de 2026, Farage anunciou que renunciaria à cadeira para disputá-la novamente em uma eleição suplementar, em meio à apuração parlamentar sobre suas finanças pessoais. Ele apresentou a manobra como um teste de confiança diante dos próprios eleitores.
O pleito foi realizado em 13 de agosto de 2026. Farage venceu com 22.239 votos (63,3%), cerca de mil votos mais do que havia obtido em 2024. O comparecimento ficou em torno de 44%.
Trabalhistas, Conservadores, Liberais Democratas, Verdes e o Restore Britain se recusaram a lançar candidatos. A líder conservadora Kemi Badenoch chamou a disputa de "a eleição suplementar falsa de Farage". Ao ser declarado vencedor, Farage disse ter obtido uma vitória "convincente, arrasadora" e afirmou: "Convoquei esta eleição suplementar porque queria que o povo de Clacton fosse meu juiz, não a mídia tradicional."
O custo estimado da eleição ficou entre 200 mil e 250 mil libras, valor usado por críticos para caracterizar o episódio como desperdício de dinheiro público destinado a desviar a atenção das investigações em curso.
Nigel Farage x Count Binface
Com a ausência dos grandes partidos, o principal adversário de Farage em Clacton foi Count Binface, personagem satírico consagrado na política britânica — um candidato-piada que se apresenta como alienígena intergaláctico usando uma lata de lixo na cabeça.
Binface terminou em segundo lugar com 9.455 votos (26,9%), descrita como a maior fatia já obtida por um candidato de protesto na história política do Reino Unido. Ele se tornou o polo do voto útil antifarage, arrecadou mais de 15 mil libras em doações em um único dia e recebeu apoio do empresário de energia verde Dale Vince.
A disputa registrou 34 candidatos, recorde para uma eleição parlamentar britânica — a marca anterior era de 26, na suplementar de Haltemprice and Howden em 2008. A cédula resultante teve 90 centímetros de comprimento, a mais longa já usada no país. Os 32 candidatos restantes somaram 3.417 votos e todos perderam o depósito eleitoral.
As investigações sobre doações e presentes não declarados
As apurações que levaram Farage a renunciar tratam de benefícios recebidos antes de ele se tornar deputado, mas dentro do período de doze meses em que as regras parlamentares exigem declaração.
O caso central é um presente de 5 milhões de libras feito em 2024 pelo bilionário de criptomoedas Christopher Harborne. Segundo Harborne, o dinheiro foi destinado a "apoiar a segurança de Nigel, não apenas agora, mas pelo resto da vida dele". Farage havia declarado que não disputaria a eleição de 2024 e mudou de posição semanas depois de receber os recursos. Ele sustenta que se tratava de doação incondicional, ligada à segurança e ao papel no Brexit, e que não tinha obrigação de declará-la porque foi anterior ao mandato.
A segunda frente envolve benefícios em espécie custeados por George Cottrell, empresário do setor de criptomoedas condenado por fraude — preso em 2016 em uma operação policial nos Estados Unidos por lavagem de dinheiro, cumpriu oito meses após acordo judicial, e ainda assim foi nomeado por Farage chefe de finanças do UKIP em 2015. Durante a campanha de 2024, Cottrell pagou equipe de redes sociais, segurança, hospedagem e material de escritório de Farage, além de dar acesso a uma casa em Londres. Farage confirmou os arranjos e os classificou como "totalmente não declaráveis".
O Comissário Parlamentar de Padrões abriu a investigação sobre possível "omissão no registro de interesse" em 13 de maio de 2026, após reportagem do The Guardian. Como esse tipo de apuração só se aplica a parlamentares em exercício, a renúncia de julho suspendeu o processo — que foi retomado logo depois da vitória na suplementar, com a recuperação do mandato. Se a conclusão for de quebra das regras, Farage pode ser suspenso do Parlamento, o que teria potencial para provocar nova eleição suplementar.
Em paralelo, a Comissão Eleitoral encaminhou doações à Polícia Metropolitana, que abriu em fevereiro de 2025 uma investigação sobre duas contribuições de 250 mil libras feitas em maio de 2024 por Fiona Cottrell, para apurar se elas ocultavam a origem real dos recursos. Farage nega irregularidades, afirma não ter violado a lei e trata as investigações como perseguição política.
O acidente de avião de 2010
Na manhã de 6 de maio de 2010, dia da eleição geral britânica, a aeronave leve em que Farage viajava caiu depois que uma faixa de campanha rebocada pelo avião se enroscou na empenagem. Ele sofreu fratura do esterno e de costelas e perfuração de um pulmão.
Reform UK nas pesquisas
Em agosto de 2026, o Reform UK aparece tecnicamente empatado com o Partido Trabalhista na liderança das intenções de voto nacionais. Médias de pesquisas do período apontam o partido entre 23% e 25%, com os Trabalhistas em faixa semelhante e os Conservadores perto de 20%. Levantamento do Ipsos realizado entre 30 de julho e 4 de agosto de 2026 mostrou vantagem trabalhista de três pontos, dentro da margem de erro.
A aprovação pessoal de Farage é negativa, e pesquisas de preferência para primeiro-ministro apontam o trabalhista Andy Burnham à frente dele. A próxima eleição geral do Reino Unido deve ocorrer até 15 de agosto de 2029.
Vida pessoal e presença na mídia
Farage foi casado duas vezes: com Gráinne Hayes, de 1988 a 1997, e com Kirsten Mehr, com quem se casou em 1999 e de quem se separou depois. Tem quatro filhos e vive em união com Laure Ferrari.
Fora da atividade parlamentar, apresenta programas no canal GB News, incluindo um que leva seu nome, e mantém presença intensa em redes sociais — canal que foi central em sua campanha de 2024 e que aparece, por meio do custeio da equipe que o operava, entre os itens sob investigação.
