O que é a Moderna
A Moderna é uma empresa de biotecnologia norte-americana sediada em Cambridge, Massachusetts, especializada em terapias e vacinas baseadas em RNA mensageiro (mRNA). Ficou mundialmente conhecida pela vacina contra a Covid-19 (Spikevax) e, em 19 de agosto de 2026, voltou ao centro das atenções ao anunciar, junto com a Merck, o primeiro resultado positivo de fase 3 de uma terapia individualizada de mRNA contra o câncer — notícia que fez suas ações fecharem em alta de 177%.
A Moderna Inc. (Nasdaq: MRNA) desenvolve medicamentos e vacinas que usam mRNA — uma molécula que carrega instruções para que as próprias células do paciente produzam determinada proteína e, com isso, gerem resposta imune. Em vez de injetar o antígeno pronto, como fazem as vacinas tradicionais, a plataforma entrega a "receita" dele.
Além da Covid-19, a empresa tem no portfólio a mResvia, vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) aprovada pela FDA em maio de 2024, e a mFLUSIVA, vacina contra a gripe aprovada pela agência norte-americana em agosto de 2026. O CEO é Stéphane Bancel, no cargo desde 2011.
Vacina contra o câncer: o resultado de fase 3 no melanoma
Em 19 de agosto de 2026, Moderna e Merck anunciaram que o estudo de fase 3 INTerpath-001 atingiu seu objetivo primário. O tratamento testado foi o intismeran autogene (também identificado como mRNA-4157 ou V940), uma terapia individualizada de mRNA, combinado ao pembrolizumabe (Keytruda), imunoterapia da Merck.
O ensaio incluiu 1.137 pacientes com melanoma em estágios IIB a IV cujos tumores haviam sido removidos cirurgicamente — o chamado cenário adjuvante, em que se tenta impedir o retorno da doença. Dois terços foram sorteados para a combinação e o restante para o Keytruda sozinho. Segundo as empresas, a análise interina mostrou melhora "estatisticamente significativa e clinicamente relevante" tanto na sobrevida livre de recorrência (objetivo primário) quanto na sobrevida livre de metástase a distância (objetivo secundário-chave).
É o primeiro estudo randomizado de fase 3 a demonstrar benefício de uma terapia individualizada de neoantígenos e de uma terapia de mRNA contra o câncer.
O que ainda não foi divulgado. As companhias não liberaram os números detalhados — as razões de risco (hazard ratios) foram retidas para apresentação em um congresso médico futuro. Essa lacuna é relevante: analistas do Evercore ISI escreveram que uma redução de risco abaixo de 25% seria decepcionante, enquanto algo entre 35% e 40% seria "claramente diferenciado". A oncologista Kim Margolin afirmou à Healthline que é preciso ver os dados completos para avaliar a magnitude do benefício, a durabilidade do efeito e se a vacina aumenta eventos adversos imunomediados.
Antes disso, no estudo de fase 2b KEYNOTE-942, com 157 pacientes, a combinação reduziu em 44% o risco de recorrência ou morte em relação ao Keytruda isolado. Com cinco anos de acompanhamento, a redução relatada foi de 49% para recorrência ou morte e de 59% para metástase a distância.
Bancel afirmou esperar que o tratamento esteja disponível para pacientes em 2027; as duas empresas informaram que pretendem submeter o pedido à FDA.
Como funciona a terapia individualizada de mRNA
Diferentemente de uma vacina de prateleira, o intismeran é fabricado sob medida para cada paciente. O processo parte do sequenciamento do tumor removido cirurgicamente: identificam-se as mutações exclusivas daquele tumor e, a partir delas, os neoantígenos — proteínas novas que só existem nas células cancerosas. O mRNA produzido codifica até 34 desses neoantígenos.
Aplicado no paciente, ele instrui as células a produzirem esses marcadores, treinando os linfócitos T a reconhecer e atacar especificamente o câncer daquele indivíduo. A combinação com o Keytruda é complementar: o inibidor de PD-1 tira os freios do sistema imune, e o intismeran indica o alvo.
A disparada das ações (MRNA) em 19 de agosto de 2026
As ações da Moderna fecharam o pregão de 19 de agosto de 2026 a US$ 174,38, alta de 176,97% (US$ 111,42) em um único dia. O volume foi de 185,1 milhões de papéis, cerca de 1.819% acima da média dos três meses anteriores. O valor de mercado saltou de aproximadamente US$ 25 bilhões para cerca de US$ 69 bilhões.
O movimento respingou no setor: a BioNTech subiu 21,96% e a Pfizer, 3,63%. As ações da Merck, sócia no estudo, avançaram cerca de 12% — variação menor porque a empresa vale centenas de bilhões de dólares e o resultado pesa proporcionalmente menos em seu balanço.
A alta também produziu um dos maiores prejuízos diários já registrados para vendedores a descoberto. A Moderna era uma das grandes empresas mais shorteadas do mercado americano — 13,5% do free float, segundo a ORTEX —, e o salto gerou perdas contábeis de cerca de US$ 5,5 bilhões para quem apostava na queda, conforme dados da S3 Partners citados pela Bloomberg.
História e fundação
A Moderna foi fundada em setembro de 2010, em Cambridge (Massachusetts), por Derrick Rossi, Timothy A. Springer, Kenneth R. Chien, Robert S. Langer e Noubar Afeyan. Stéphane Bancel assumiu o comando em 2011.
Em dezembro de 2018, a empresa fez a maior oferta pública inicial da história da biotecnologia até então, levantando US$ 621 milhões com a venda de 27 milhões de ações a US$ 23 cada — antes de ter qualquer produto aprovado.
A vacina contra a Covid-19 e o pico de receita
A vacina mRNA-1273, depois batizada de Spikevax, recebeu autorização de uso emergencial da FDA em dezembro de 2020 e aprovação definitiva em 2022. Foi ela que transformou a Moderna, de uma empresa sem receita de produto, em uma das farmacêuticas mais valiosas do mundo.
O auge durou pouco. O faturamento caiu de US$ 19,3 bilhões em 2022 para US$ 1,94 bilhão em 2025, à medida que a demanda por doses de reforço encolheu — queda que explica por que a ação vinha em trajetória descendente havia anos e por que atraía tantos vendedores a descoberto.
O corte de financiamento público nos EUA
Em 6 de agosto de 2025, o Departamento de Saúde dos Estados Unidos (HHS), sob comando de Robert F. Kennedy Jr., cancelou cerca de US$ 500 milhões em contratos de desenvolvimento de vacinas de mRNA, encerrando 22 projetos financiados pela BARDA e envolvendo empresas como Moderna, Pfizer e Sanofi Pasteur.
Kennedy argumentou que a tecnologia de mRNA "apresenta mais riscos do que benefícios" para vírus respiratórios e que "uma única mutação pode tornar as vacinas de mRNA ineficazes" — avaliação contestada por especialistas em saúde. Um porta-voz da Moderna informou que o contrato da empresa para uma vacina contra o H5N1 (gripe aviária) já havia sido cancelado em maio daquele ano.
Moderna no Brasil
A Anvisa aprovou o registro da Spikevax monovalente em 6 de março de 2024, versão atualizada para a variante XBB.1.5, com indicação a partir de 6 meses de idade. O registro no país é detido pela Adium, representante da Moderna no Brasil. Em 22 de novembro de 2024, a agência aprovou a atualização da composição da vacina para variantes mais recentes.
Próximos passos
Além do melanoma, a Moderna e a Merck testam o intismeran em outros tumores. Resultados de fase 3 em câncer renal são esperados para o fim de 2026 ou início de 2027, e há estudos em andamento em câncer de bexiga e de pulmão de células não pequenas.
Para o mercado, a leitura da fase 3 no melanoma vale menos pelo produto isolado do que pela validação da plataforma: se uma terapia individualizada de mRNA funciona em um tumor, o mesmo método pode ser reaplicado a outros. A TD Cowen classificou o resultado como um "momento decisivo", e o Jefferies projetou vendas na casa dos bilhões de dólares só com melanoma. A confirmação depende dos dados detalhados ainda não divulgados.
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