O que é o Hyperion
Hyperion é o apelido do Richland Parish Data Center, o maior campus de data centers já construído pela Meta, erguido em Holly Ridge, no estado americano da Louisiana. Projetado para chegar a 5 gigawatts de capacidade computacional, é a peça central da aposta de Mark Zuckerberg em "superinteligência" e o maior anúncio de investimento privado da história da Louisiana, com mais de US$ 50 bilhões previstos.
O Hyperion é um campus de data centers dedicado ao treinamento e à operação de modelos de inteligência artificial da Meta. O nome oficial da instalação é Richland Parish Data Center; "Hyperion" — um dos titãs da mitologia grega — foi o apelido interno que Mark Zuckerberg tornou público em julho de 2025, ao anunciar que a Meta construiria vários "superclusters" de IA. Durante as negociações com o governo estadual, o projeto tramitou sob o codinome "Project Sucre", e as terras foram adquiridas por uma subsidiária de fachada chamada Project Laidley.
Quando concluído, o campus deve somar cerca de 4 milhões de pés quadrados (aproximadamente 372 mil m²) de área construída e 5 gigawatts de capacidade elétrica destinada a computação — mais de 2 GW deles reservados, segundo a Meta, ao treinamento de grandes modelos de linguagem de código aberto.
Onde fica o Hyperion
O campus fica em Holly Ridge, uma comunidade não incorporada de Richland Parish, no nordeste rural da Louisiana, às margens da rodovia estadual LA-183, entre as cidades de Rayville e Delhi e a cerca de 50 km a leste de Monroe.
O terreno é o antigo "Franklin Farm megasite", uma área de 2.250 acres (cerca de 9,1 km²) comprada pelo estado em 2006 da família Franklin com o objetivo de atrair uma fábrica de automóveis, que nunca veio. Reportagens posteriores à expansão de 2026 citam uma área total do projeto próxima de 3.200 acres.
Qual o tamanho do Hyperion e a comparação com Manhattan
A comparação com Manhattan vem do próprio Zuckerberg: ao apresentar os planos de infraestrutura da Meta em julho de 2025, ele disse que o Hyperion cobriria uma parcela significativa da área da ilha de Manhattan. A frase circulou depois como "um data center do tamanho de Manhattan", o que exagera a escala real.
Manhattan tem cerca de 59 km². O terreno do Hyperion tem entre 9 km² e 13 km², dependendo do recorte considerado — algo entre um sexto e um quinto da ilha. A comparação faz mais sentido no consumo de energia do que na área: 5 gigawatts é mais do que a demanda elétrica média de muitas cidades grandes, e a geração que a Entergy precisará dedicar ao campus supera metade de tudo o que a concessionária produz hoje para o estado da Louisiana.
Quanto custa e como o projeto é financiado
O valor anunciado subiu três vezes em menos de dois anos:
- Dezembro de 2024 — a Meta anuncia o campus com investimento de US$ 10 bilhões e capacidade prevista de mais de 2 GW.
- Outubro de 2025 — a Meta anuncia uma joint venture com fundos geridos pela Blue Owl Capital, elevando o projeto a US$ 27 bilhões.
- Julho de 2026 — a empresa confirma a expansão para 5 GW e investimento total acima de US$ 50 bilhões.
A estrutura financeira chamou tanta atenção quanto o tamanho do projeto. Na joint venture anunciada em 21 de outubro de 2025, os fundos geridos pela Blue Owl ficaram com 80% da participação e a Meta com 20%, embora a Meta siga responsável pela construção e pela operação. A Blue Owl aportou cerca de US$ 7 bilhões em caixa e a Meta recebeu uma distribuição única de aproximadamente US$ 3 bilhões; as partes se comprometeram a financiar cerca de US$ 27 bilhões em custos totais de prédios e infraestrutura. Parte do capital levantado pela Blue Owl veio de dívida emitida à PIMCO e a outros investidores selecionados em oferta privada. O Morgan Stanley atuou como assessor financeiro exclusivo da Meta.
Todos esses valores se referem a terreno, prédios e infraestrutura. O custo de encher o campus de chips é outra conta, e muito maior: a Bloomberg estima que os equipamentos de computação elevem o custo total do projeto para mais de US$ 250 bilhões. A Meta não confirma cifras acima do que anuncia oficialmente — daí a diferença entre as manchetes que falam em US$ 50 bilhões e as que falam em US$ 250 bilhões.
O efeito prático da estrutura escolhida é que a maior obra da história da Meta não aparece integralmente no balanço da empresa — o arranjo virou referência (e alvo de crítica) no debate sobre como as big techs estão financiando a infraestrutura de IA com dívida fora do balanço.
Como o Hyperion será alimentado
A energia é o ponto mais disputado do projeto. O fornecimento cabe à Entergy Louisiana, concessionária regulada pela Louisiana Public Service Commission (LPSC).
Em agosto de 2025, a LPSC aprovou o primeiro pacote: três usinas termelétricas a gás de ciclo combinado no complexo Franklin Farms, somando cerca de 2.262 megawatts, além da subestação Smalling. Em 27 de março de 2026, Meta e Entergy fecharam um acordo para triplicar a geração dedicada, com a proposta de mais sete usinas a gás — e, em abril de 2026, a comissão adotou um rito acelerado para analisar o pedido. Somadas, as dez usinas custariam perto de US$ 11 bilhões e representariam cerca de 7,5 GW de geração a gás, além de aproximadamente 2,5 GW de renováveis e baterias — potência equivalente à de mais de 5 milhões de residências e mais do que metade de tudo o que a Entergy gera hoje na Louisiana. As sete novas usinas ainda dependem de aprovação da LPSC.
A Meta afirma que arca integralmente com o custo da energia e que o acordo com a Entergy deve gerar US$ 2,65 bilhões em economia para os demais consumidores ao longo de 20 anos, além de US$ 215 milhões destinados a programas de assistência a famílias de baixa renda. A empresa também assinou contratos de energia renovável na região, entre eles a compra de 172 MW de um novo parque solar da Lightsource bp na Louisiana.
O principal contra-argumento é de prazo: a Meta se comprometeu a pagar a receita anual das usinas por 15 anos, mas as termelétricas têm vida útil de cerca de 30 anos. Críticos sustentam que, se a empresa deixar o estado antes disso, a conta remanescente recai sobre os consumidores residenciais da Louisiana. Organizações como Earthjustice, Sierra Club e Union of Concerned Scientists contestaram o ritmo das aprovações e o impacto ambiental da nova geração fóssil.
Uso de água
O Hyperion usa um sistema de refrigeração em circuito fechado que faz circular uma mistura de glicol pelas salas de servidores; segundo a Meta, na maior parte do ano o resfriamento é feito a seco, sem consumo de água, e cerca de 95% da água permanece no sistema a cada ciclo.
Os números divulgados variam conforme a métrica. A Meta projeta consumo médio de aproximadamente 1,5 milhão de galões por dia (cerca de 5,7 milhões de litros). Registros estaduais e a própria empresa, porém, admitem picos de mais de 23 milhões de galões diários — até 8,4 bilhões de galões por ano — nos períodos mais quentes.
A água vem do aquífero aluvial do rio Mississippi, o mesmo que abastece comunidades e fazendas da região; há cerca de 50 poços agrícolas e domésticos a menos de 1,6 km do perímetro da obra. Pesquisadores apontam que não existe órgão estadual encarregado de monitorar o consumo da Meta ou a condição do aquífero ao longo do tempo, e alertam para riscos de subsidência do solo e intrusão salina em caso de superexploração. A Meta anunciou uma parceria de restauração hídrica com a Resource Environmental Solutions em uma bacia de 316 acres.
Cronograma de construção
O trabalho de terraplenagem começou em dezembro de 2024 e a construção pesada engrenou no início de 2026. A obra emprega um pico previsto de mais de 7.500 trabalhadores de ofícios especializados — eletricistas, encanadores industriais, montadores de estrutura metálica, carpinteiros e técnicos de fibra óptica.
A Meta projeta cerca de 2 GW em operação até 2030 e o campus completo, de 5 GW, por volta de 2032. Em operação plena, a instalação deve sustentar cerca de mil empregos permanentes.
Incentivos fiscais e o sigilo nas negociações
A forma como a Louisiana atraiu o projeto se tornou objeto de investigação jornalística e de disputa regulatória. Durante a sessão legislativa de 2024, autoridades estaduais reescreveram um projeto de lei em tramitação para criar uma isenção de imposto sobre vendas de equipamentos de data center, montaram um pacote de desonerações de imposto predial e compromissos de infraestrutura e evitaram reuniões públicas antes de revelar o negócio.
Uma investigação do New York Times detalhou o uso de incentivos fiscais, acordos de confidencialidade e negociações privadas. Mais de cem servidores estaduais assinaram termos de sigilo, e o próprio governador Jeff Landry assinou um NDA em 23 de abril de 2024, em nome do gabinete, com a Laidley LLC — a subsidiária usada pela Meta no projeto. O documento foi obtido por pedido de acesso à informação da Gulf States Newsroom em parceria com a Type Investigations.
O acordo trata a própria existência do contrato como informação secreta, proíbe anúncios públicos sem autorização por escrito, vale por cinco anos após o fim da relação (indefinidamente para segredos comerciais) e é regido pela lei do estado de Nova York. A definição de "informação confidencial" abrange "termos propostos", preços e dados financeiros — inclusive os que envolvem dinheiro público. David Cuillier, diretor do Brechner Freedom of Information Project, disse que o acordo "vira as leis de acesso à informação de cabeça para baixo" e classificou a cláusula de sigilo como reprovável. Steven Procopio, do Public Affairs Research Council, alertou que o uso generalizado de NDAs corre o risco de negar aos cidadãos a informação necessária para entender as decisões do governo.
A disputa por transparência chegou à LPSC, onde um juiz administrativo decide se a Meta precisa revelar detalhes-chave do projeto. Especialistas em ética observam que, embora as negociações aparentemente tenham cumprido a lei estadual, o processo restringiu o escrutínio público de um dos maiores pacotes de incentivo já concedidos pelo estado.
Impacto na economia local
Richland Parish é uma das regiões mais pobres da Louisiana, e o efeito da obra já é mensurável. Desde o início da construção, mais de US$ 1,6 bilhão em contratos foram fechados com empresas do estado. O aumento da arrecadação permitiu que a rede pública local pagasse bônus anuais de até US$ 50 mil a professores — um salto de cerca de 400% em relação ao ano anterior. A Meta destinou mais de US$ 1 milhão em doações a escolas para programas de STEM, além de repasses ao conselho de idosos de Richland e ao cemitério de veteranos do Nordeste da Louisiana, e mantém oficinas gratuitas de capacitação digital para pequenos negócios. O pacote de expansão inclui mais de US$ 1 bilhão em melhorias de infraestrutura pública — estradas, água e esgoto.
Há também atrito. Moradores de Holly Ridge relatam congestionamento causado pelo tráfego da obra e reclamam da presença de empreiteiras de fora do estado apesar das promessas de contratação local. Proprietários de terra no entorno viram o valor de suas áreas disparar, o que aprofundou a distância entre quem tinha terra para vender e quem não tinha.
Hyperion e Prometheus: a corrida da Meta pela superinteligência
O Hyperion não é um projeto isolado. Em julho de 2025, ao criar a divisão Meta Superintelligence Labs, Zuckerberg anunciou que a empresa investiria centenas de bilhões de dólares em infraestrutura computacional e detalhou dois superclusters: o Prometheus, primeiro cluster multigigawatt da empresa, previsto para entrar em operação em 2026, e o Hyperion, que escalaria para 5 GW ao longo dos anos seguintes.
Mais recentemente, a Meta passou a estudar transformar parte dessa capacidade em produto. A empresa avalia alugar capacidade computacional excedente a terceiros — uma iniciativa internamente chamada de "Meta Compute" —, o que colocaria a companhia, pela primeira vez, no mercado de infraestrutura de nuvem em que Amazon, Microsoft e Google já operam.
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