As eleições presidenciais da Colômbia de 2026 definem o sucessor de Gustavo Petro, marcando uma polarização extrema entre o progressismo de Iván Cepeda e a direita radical de Abelardo de la Espriella. Após um primeiro turno acirrado em maio, os dois candidatos disputam o segundo turno em 21 de junho. O pleito ocorre em um clima de tensão, agravado pelo assassinato do senador Miguel Uribe Turbay, e decidirá se o país manterá as reformas sociais de Petro ou adotará uma guinada conservadora.
As eleições presidenciais da Colômbia de 2026 definem o sucessor de Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda na história moderna do país. O primeiro turno, realizado em 31 de maio de 2026, resultou na classificação do advogado de ultradireita Abelardo de la Espriella (43,73%) e do senador de esquerda Iván Cepeda (40,92%) para o segundo turno, marcado para 21 de junho. O resultado consolidou um cenário de polarização extrema entre dois projetos antagônicos: a continuidade do progressismo de Petro e uma guinada à direita radical inspirada em líderes como Nayib Bukele e Donald Trump. A grande surpresa foi o colapso de Paloma Valencia (Centro Democrático), que obteve apenas 6,92% após as pesquisas projetarem cerca de 15%.
Gustavo Petro, eleito em 2022 como o primeiro presidente de esquerda da história colombiana, encerra o mandato com aprovação em torno de 50%, após ter atingido um piso de 26% em julho de 2023. Petro está constitucionalmente impedido de concorrer à reeleição.
Reformas aprovadas:
Resultados socioeconômicos:
Paz Total — promessa incompleta: A política de "Paz Total", principal bandeira de Petro, não alcançou a desmobilização de nenhum grupo armado. As negociações com o ELN (Exército de Libertação Nacional) avançaram em mesa de diálogos, mas não produziram acordo definitivo. A violência persistiu em zonas rurais, e a segurança pública se tornou uma das principais demandas da população.
O Congresso eleito para o período 2026–2030 ficou dividido entre dois polos:
Senado (103 cadeiras):
Câmara dos Representantes (183 cadeiras):
A participação nas legislativas foi de 50,62% dos 41,2 milhões de eleitores habilitados.
O evento que definiu o tom da campanha foi o assassinato do senador e pré-candidato presidencial Miguel Uribe Turbay, de 39 anos, o parlamentar mais votado nas eleições de 2022. Uribe Turbay foi baleado duas vezes na cabeça e uma na perna por um menor de 15 anos em 7 de junho de 2025, durante um comício em Bogotá. Após dois meses internado, morreu em 11 de agosto de 2025.
O crime foi o primeiro atentado direto contra um político na Colômbia em mais de 30 anos e reacendeu o fantasma da violência política dos anos 1980 e 1990, quando três candidatos presidenciais foram assassinados. A investigação identificou sete envolvidos, incluindo Simeón Pérez Marroquín, apontado como elo entre o grupo armado e o atirador, e Brayan Ferney Cruz Castillo, preso na Argentina em abril de 2026 e extraditado para a Colômbia. Os autores intelectuais seguem sendo investigados.
Dois membros da equipe de campanha de Abelardo de la Espriella foram assassinados a tiros, obrigando o candidato a usar colete à prova de balas e discursar atrás de vidros blindados em seus comícios.
Resultado no 1º turno: 10.344.679 votos (43,73%)
Nascido em Bogotá em 31 de julho de 1978 e criado em Montería (Córdoba), De la Espriella — apelidado "El Tigre" — é advogado penalista e empresário sem qualquer cargo público anterior. Formou-se em Direito na Universidad Sergio Arboleda e fundou a firma De la Espriella Lawyers em 2002, com capital de 500 mil pesos colombianos; hoje o escritório acumula ativos superiores a 39 bilhões de pesos e mantém sedes em Barranquilla, Bogotá, Medellín e Miami.
Sua carreira jurídica foi marcada pela defesa de figuras controversas: chefes paramilitares durante a desmobilização no governo Uribe (criando a fundação Fipaz em 2004 para evitar a extradição deles aos EUA), políticos investigados por corrupção, e o venezuelano Alex Saab, operador financeiro de Nicolás Maduro, entre 2013 e 2019. Em 2019, antecipou que entraria na política caso a esquerda representasse uma ameaça.
Após um período vivendo em Florença (Itália), voltou à Colômbia e anunciou sua candidatura em 17 de julho de 2025, recolhendo firmas pelo movimento Defensores de la Patria — dos 5 milhões de assinaturas apresentadas, 1,97 milhão foram aceitas, o maior número entre os candidatos. Obteve ainda o apoio do Movimiento de Salvación Nacional.
Vice-presidente: José Manuel Restrepo, ex-ministro da Fazenda (2021–2022).
Plataforma: ultradireita com foco em segurança ("mão dura"), construção de megaprisões no modelo Bukele, bombardeio de acampamentos guerrilheiros, encerramento de negociações com grupos armados, redução do Estado, defesa da família tradicional, livre comércio, oposição ao aborto, à eutanásia e à adoção homoparental. Alinhamento ideológico com o trumpismo.
Estilo: outsider que rejeita alianças com partidos tradicionais; campanha de alto impacto midiático, com eventos multitudinários, uso de jet privado e estética de luxo ostensivo.
Resultado no 1º turno: 9.679.145 votos (40,92%)
Nascido em Bogotá em 24 de outubro de 1962, Cepeda é filósofo, defensor de direitos humanos e senador desde 2014. Filho de Manuel Cepeda Vargas, senador da União Patriótica assassinado por paramilitares em 1994, e de Yira Castro, dirigente comunista. Estudou filosofia na Universidade de Sófia (Bulgária) e fez mestrado em Direito Internacional Humanitário na Universidade Católica de Lyon (França). Viveu no exílio na Europa entre 1998 e 2004 por ameaças contra sua vida; conta com medidas de proteção da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Iniciou a carreira política nas Juventudes Comunistas nos anos 1970, passou pela União Patriótica e pela Aliança Democrática M-19. Em 2003, fundou o Movimento Nacional de Vítimas de Crimes de Estado (Movice). Foi eleito representante pela Câmara em 2010 pelo Polo Democrático e senador por três mandatos consecutivos (2014, 2018 e 2022). É presidente da Comissão de Paz do Senado e foi facilitador dos processos de paz com as FARC (2012–2016) e o ELN (2014–2018), além de arquiteto da política de Paz Total de Petro.
Em outubro de 2025, venceu a consulta interna do Pacto Histórico com 65% dos votos.
Vice-presidente: Aida Quilcué, senadora e liderança indígena.
Plataforma: continuidade da Paz Total com foco na transformação social das regiões afetadas pela violência, revolução ética contra a corrupção, redistribuição de terras, justiça social e manutenção dos programas sociais do governo Petro. Personalidade reservada e ideológica, contrastando com o estilo populista dos adversários.
Resultado no 1º turno: 1.637.428 votos (6,92%)
Senadora desde 2014 e protegida política do ex-presidente Álvaro Uribe, Valencia venceu as primárias da direita em março de 2026, mas não conseguiu consolidar apoio. Obteve endossos do Partido Conservador, do Partido Liberal e do Partido de la U, mas seu desempenho ficou muito abaixo das projeções das pesquisas (12–15%). Após o resultado, concedeu a derrota e declarou apoio a De la Espriella no segundo turno.
Votos em branco: 406.762 (1,72%).
Com 99,85% das mesas apuradas:
| Candidato | Partido/Coalizão | Votos | % |
|---|---|---|---|
| Abelardo de la Espriella | Defensores de la Patria / Mov. Salvación Nacional | 10.344.679 | 43,73% |
| Iván Cepeda | Pacto Histórico | 9.679.145 | 40,92% |
| Paloma Valencia | Centro Democrático | 1.637.428 | 6,92% |
| Sergio Fajardo | Dignidade e Compromisso | 1.007.515 | 4,26% |
| Claudia López | Independente | 225.265 | 0,95% |
| Demais candidatos | Diversos | 354.216 | 1,50% |
| Votos em branco | — | 406.762 | 1,72% |
Participação: 57,81% dos 41.421.973 eleitores habilitados.
A apuração revelou extrema polarização regional. De la Espriella dominou Antioquia com 54,4% (1,72 milhão de votos), enquanto Cepeda obteve força inesperada em sub-regiões como Urabá e o nordeste antioqueño. A disputa foi acirrada na região do Caribe, território de origem de ambos os candidatos.
O presidente Gustavo Petro declarou na noite do domingo que não aceita a contagem preliminar, afirmando em publicação no X que aguardaria os resultados oficiais. Petro alegou irregularidades, afirmando que "centenas de milhares de votos foram adicionados" e repetindo acusações anteriores sobre falhas no software de apuração — sem apresentar provas.
O candidato Iván Cepeda também se recusou a aceitar os resultados preliminares, citando relatos de "um número indeterminado de seções eleitorais com padrões atípicos de votação". "Somente quando as comissões de escrutínio tiverem esclarecido essa questão nos pronunciaremos sobre os resultados", disse. "Não entregaremos a Colômbia ao fascismo", acrescentou.
Antes da eleição, o Pacto Histórico já havia questionado a integridade do sistema eleitoral. O partido entrou com uma ação judicial contra a Registraduría Nacional na semana anterior ao pleito, tentando forçar o órgão a garantir o rastreamento das atas de apuração durante a integração da contagem total. A contagem preliminar não tem valor jurídico vinculante na Colômbia — os resultados oficiais são determinados pelas comissões de escrutínio nos dias seguintes à eleição.
As pesquisas pré-eleitorais mostraram acerto na tendência geral — Cepeda e De la Espriella na frente — mas erraram significativamente em dois pontos: subestimaram De la Espriella (que aparecia com 31% e obteve 43,7%) e superestimaram Valencia (projetada em 12–15%, obteve 6,9%). A maioria dos institutos projetava liderança de Cepeda no primeiro turno, mas De la Espriella foi o candidato mais votado.
Paloma Valencia e o ex-presidente Álvaro Uribe declararam apoio a De la Espriella imediatamente após o resultado, consolidando o bloco de direita. O partido Cambio Radical também aderiu à candidatura de De la Espriella. Pela regra colombiana, o segundo colocado na presidencial ganha uma cadeira no Senado, e seu vice, uma na Câmara.
Cepeda precisa atrair os eleitores de centro — os 4,26% de Fajardo e os 0,95% de López — para viabilizar a virada, mas a tentativa de coalizão "de Abelardo a Fajardo" já havia fracassado antes do primeiro turno por diferenças ideológicas.
A recusa de Petro e Cepeda em aceitar os resultados preliminares adicionou uma camada de tensão ao cenário pré-segundo turno. Embora a contagem preliminar na Colômbia não tenha valor jurídico (os resultados oficiais dependem do escrutínio formal), a postura levantou comparações com questionamentos eleitorais em outros países da região. De la Espriella e aliados acusaram a esquerda de tentar deslegitimar o processo democrático.
A disputa no segundo turno se organiza em torno de três eixos:
Para a América Latina, o resultado é decisivo. Uma vitória de Cepeda mantém o eixo progressista Brasília-Bogotá, fortalecendo a articulação de Lula na região. Uma vitória de De la Espriella isola o Brasil entre governos de direita e rompe a frente progressista sul-americana.
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