Daily Journal
Daily Journal

Pesquisadores criam primeiros genomas virais funcionais usando IA

Cientistas do Arc Institute utilizaram modelos de linguagem genômica para projetar e sintetizar 16 vírus funcionais capazes de infectar bactérias.

Daily Journal
Foto: Época Negócios
||
07/08 às 01:42 · atualizado 12:27

Pontos principais

  • Pesquisadores de Stanford e do Arc Institute desenvolveram os modelos Evo1 e Evo2 para o design de genomas.
  • A tecnologia funcionou de forma análoga a modelos de linguagem, processando trilhões de sequências de DNA.
  • Foram sintetizados 302 genomas virais, dos quais 16 demonstraram viabilidade biológica em laboratório.
  • Os vírus criados infectam bactérias E. coli e apresentaram maior eficiência de multiplicação que a versão natural.
  • O estudo, publicado na revista Science, marca a transição do design de genes individuais para genomas completos.
  • A técnica visa o desenvolvimento de terapias contra infecções bacterianas resistentes a antibióticos.
  • Especialistas em biossegurança alertam para os riscos de uso indevido da tecnologia na criação de patógenos.

Pesquisadores do Arc Institute e da Universidade Stanford alcançaram um marco na biologia sintética ao utilizar inteligência artificial para projetar e criar os primeiros genomas virais funcionais. O estudo, liderado por Samuel King e Brian Hie, utilizou a série de modelos de linguagem genômica Evo, treinados com trilhões de sequências de DNA para prever bases químicas e gerar estruturas biológicas complexas. Dos 302 genomas projetados pela IA, 16 foram sintetizados com sucesso e demonstraram capacidade de infectar bactérias E. coli, superando em eficiência a versão natural do bacteriófago Phi X-174.

O avanço é visto como uma ferramenta promissora para a medicina, especialmente no desenvolvimento de terapias com bacteriófagos para combater infecções resistentes a antibióticos. Contudo, a capacidade de gerar organismos funcionais via computação levanta debates urgentes sobre biossegurança. Embora os autores tenham excluído sequências de vírus que infectam humanos do treinamento da IA, especialistas defendem a necessidade de regulamentações mais rigorosas para o acesso a ferramentas capazes de projetar sequências biológicas, visando prevenir o uso malicioso da tecnologia na criação de novos patógenos.

Fonte primária

Arc Institute / Stanford University (Samuel King, Brian Hie et al., preprint bioRxiv)

Generative design of novel bacteriophages with genome language models

Pesquisadores da Stanford e do Arc Institute usaram os modelos de linguagem genômica Evo 1 e Evo 2 — ajustados (fine-tuned) sobre mais de 2 milhões de genomas de fagos, incluindo 14.466 sequências de Microviridae — para projetar genomas completos de bacteriófagos com a arquitetura do ΦX174, um fago histórico que infeta E. coli (genoma de ~5,4 kb, 11 genes, ao menos 7 elementos regulatórios). Dos genomas desenhados, 285 foram sintetizados e testados; 16 se mostraram funcionalmente viáveis, propagando-se e inibindo o crescimento das cepas bacterianas alvo (E. coli C e W) sem afetar cepas não relacionadas. Os fagos funcionais carregam alta novidade genética — entre 67 e 392 mutações inéditas cada em relação ao genoma natural mais próximo — e um deles chegou a 93,0% de identidade nucleotídica com um fago natural, o suficiente para potencialmente qualificar como nova espécie sob certos critérios taxonômicos. Os autores destacam que os modelos Evo não conseguem gerar sequências de vírus humanos por exclusão deliberada desses dados do treinamento, o que bloqueia uso acidental ou intencional para desenho de patógenos; o trabalho também usou apenas hospedeiros bacterianos não patogênicos, desenho baseado em template preservando especificidade de hospedeiro, e cabines de biossegurança dedicadas com descarte especializado.

Comentários

Carregando comentários...