Metodologia
Um fact-check vale o que valem as suas regras. Estas são as nossas, escritas antes de olhar para qualquer candidato — e é com elas que você pode discordar de um veredito nosso de forma informada.
O que é uma alegação
O grão de tudo aqui é a alegação: uma afirmação que, em tese, pode ser confrontada com uma fonte. Se um candidato empilha três números numa frase, viram três alegações — cada uma se verifica sozinha e pode terminar com veredito diferente.
Não entram: promessas de governo (não são checáveis hoje), ataque puramente adjetivo sem conteúdo factual, e fala do mediador. Entram: acusações graves contra adversários, mesmo sem prova — são o material mais importante de um debate, e o veredito registra exatamente o que está e o que não está documentado.
Quando dois candidatos afirmam números incompatíveis sobre a mesma coisa e não existe fonte que arbitre, registramos os dois lados como não verificados e apontamos a contradição. Não escolhemos um vencedor por plausibilidade.
Os seis vereditos
- Verdade
A alegação foi confirmada em fonte primária ou em levantamento público confiável, e o recorte usado pelo candidato corresponde ao dado. Não significa que a conclusão política que ele tirou do número esteja certa — significa que o número está.
- Verdade com ressalva
O fato central se sustenta, mas há algo material faltando: o recorte escolhido favorece quem fala, a fonte é a própria gestão sem verificação independente, o número está arredondado a favor, ou o dado é real e o contexto omitido inverte o sentido. É o veredito mais comum em debate — e o que mais exige ler a explicação.
- Difícil de provar
A afirmação pode muito bem ser verdadeira, mas não há base pública que a confirme ou a derrube — é um relato de campo, uma generalização a partir de casos, ou uma alegação sobre intenção. Diferente de "não verificada": aqui já se sabe que o dado necessário não existe, não que faltou apurar.
- Falso ou distorcido
Duas coisas entram aqui. Falso: a fonte diz o contrário do que o candidato afirmou. Distorcido: o dado existe, mas foi inflado, atribuído a quem não é responsável, comparado sem correção monetária ou apresentado com um recorte que inverte o que ele mostra. Não afirmamos intenção de mentir — afirmamos que a frase não corresponde ao que a fonte registra.
- Opiniãofora das contas de acerto e erro
Superlativos sem critério ("o maior programa da história"), promessas, avaliações de adversário e posições programáticas. Registramos porque compõem o debate, mas ficam fora de qualquer conta de acerto ou erro: não há fonte que torne uma opinião verdadeira ou falsa.
- Não verificadafora das contas de acerto e erro
A alegação é objetiva e teria como ser conferida — mas o dado não está publicado, exigiria pedido de acesso à informação, consulta processual ou levantamento próprio. Não é um julgamento sobre o candidato: é o registro de que ele afirmou algo que o Estado não publica. Cada uma dessas linhas carrega, na explicação, o caminho de apuração que resolveria a dúvida.
Os tipos de alegação
O tipo muda o que "verificar" significa, e por isso está registrado em cada linha.
- Numérica
- Afirma um valor: "a fila do SISREG tem 159 mil pessoas". Resolve-se com a série da fonte — quando ela existe.
- Comparativa
- Afirma uma posição relativa: "o melhor IDEB do Nordeste", "o segundo pior salário do Brasil". O veredito depende do recorte, e o recorte é quase sempre onde está a disputa.
- Factual
- Afirma que algo aconteceu: uma obra entregue, uma operação da polícia, uma decisão judicial. Resolve-se com documento.
- Temporal
- Afirma quando ou por quanto tempo: "há oito anos não se constrói um hospital". O erro comum aqui é o intervalo, não o fato.
- Opinião
- Juízo de valor, proposta ou avaliação de adversário. Registrada, não pontuada.
Como a verificação roda
- 1. Transcrição. Baixamos a legenda automática do vídeo oficial e a quebramos em blocos de 30 segundos com timestamp. É legenda automática: tem erro de nome próprio e de número, e o passo seguinte é instruído a corrigir só o que é evidente.
- 2. Extração. Um modelo percorre a transcrição e separa as alegações, com autor, tema e timestamp. Nesta etapa ele não julga nada — se não dá para saber com segurança quem falou, a alegação é descartada. Atribuir fala ao candidato errado é o pior erro possível aqui.
- 3. Verificação. Cada alegação vai sozinha para uma checagem com busca web. A regra que sustenta tudo: o padrão é "não verificada", e só se sai dele com uma fonte que apareceu na busca. Conhecimento prévio do modelo não vale como prova.
- 4. Disciplina de fonte.As URLs citadas são conferidas contra os resultados reais da busca; o que não bater é descartado. Se a checagem concluir "verdade" ou "falso" sem nenhuma fonte sobrevivente, o veredito é rebaixado automaticamente para não verificada, com a marca de que precisa de revisão humana.
- 5. Revisão. Nada vai ao ar automaticamente. O debate fica em rascunho até alguém da redação revisar e publicar.
Por que tanta coisa fica sem conclusão
Mais da metade das alegações termina como não verificada. Isso não é desistência: é o resultado. A maior parte do que se afirma num debate brasileiro é acusação nominal sem documento ou número que o poder público simplesmente não publica — fila de saúde sem painel aberto, folha de pessoal sem série, execução de emenda que exige consulta processual.
Toda linha marcada assim carrega, na explicação, o caminho concreto que resolveria a dúvida: qual órgão, qual base, qual pedido. É uma lista de pautas de apuração tanto quanto um veredito.
Como lemos as comparações entre candidatos
- Taxa, nunca contagem. Quem tem mais tempo de microfone faz mais alegações. Ranking por número absoluto de erros mede tempo de fala.
- O denominador é só o checável. Opinião e não verificada ficam fora dos dois lados da conta. Cobrar do candidato uma alegação que não pôde ser checada seria cobrar dele a opacidade do Estado.
- Piso de 10 alegações checáveis para entrar em ranking. Abaixo disso os números aparecem, fora da ordenação.
- "Opacidade" é métrica separada. Mede quanto do discurso se apoia em números que ninguém consegue auditar. É uma informação real sobre como a pessoa argumenta — e não é sinônimo de desonestidade.
- Classificamos frases, não pessoas. Não existe nesta seção um índice de mentira por candidato, e um veredito de distorção não afirma intenção de enganar — só que a frase não corresponde ao que a fonte registra.
Erramos?
Se você tem uma fonte que contradiz um veredito nosso, queremos ver. Corrigimos a linha, registramos a data da correção e mantemos a explicação anterior visível. Escreva para contato@dailyjournal.news com o identificador da alegação (o código no canto de cada linha, como SP-001).
