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O imposto mora na folha de pagamento

Nos Estados Unidos, 77,8% da arrecadação federal fora da previdência vem do imposto de renda das pessoas físicas. Na China, 9,3%. Se a IA deslocar renda do salário para o lucro, o problema deixa de ser só de emprego e passa a ser de orçamento. A conta completa dos 15 países, extraída das bases oficiais.

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Mesa de escritorio vazia ao anoitecer, com um relatorio de folha de pagamento impresso e a silhueta de um predio publico pela janela
Michael··

Uma empresa troca parte da equipe por agentes de inteligência artificial. A folha encolhe, a produtividade sobe, o lucro aumenta. Do lado da empresa, a conta fecha. Do lado do governo, depende de uma pergunta que quase ninguém faz: o sistema tributário foi montado para cobrar dos salários que sumiram ou dos lucros que cresceram?

Essa é a parte esquecida do debate sobre IA e emprego. A automação não mexe só em ocupações. Mexe na composição das bases tributárias. E se o ganho econômico se concentrar em poucas empresas globais, o país que perde salário não é necessariamente o país que arrecada sobre o novo lucro.

O FMI estima que cerca de 40% dos empregos no mundo estejam expostos à IA, e 60% nas economias avançadas. Exposição não é eliminação. Parte das ocupações será complementada, parte pode sofrer queda de contratações, de salário ou de postos. A OIT calcula que um em cada quatro trabalhadores esteja em ocupação com algum grau de exposição à IA generativa.

Se a exposição é essa, vale perguntar o que acontece com a arrecadação. E para isso é preciso olhar de onde vem o dinheiro do Estado em cada país.

O que a comparação mede

Os números abaixo consideram apenas a arrecadação tributária do governo central ou federal, sem contribuições previdenciárias e sem tributos estaduais e municipais. O ano-base é 2023.

Para os países da OCDE, os dados saem da base Revenue Statistics, no recorte de receita por subsetor de governo cruzado com a classificação de tributos. Para China e Índia, que não estão na OCDE, valem os documentos orçamentários nacionais: o decreto de contas de 2023 do orçamento central chinês, publicado pelo Ministério das Finanças, e o Receipt Budget indiano de 2024-2025, nas estimativas revisadas do exercício 2023-2024, antes das transferências aos estados. Em cada um dos 15 países as categorias somam 100% da arrecadação central considerada.

O recorte é restritivo de propósito, porque é o único jeito de comparar 15 países sem misturar arquiteturas federativas muito diferentes. Ele também cobra um preço, e vale dizer qual. Em federações que repartem o imposto de renda com os entes subnacionais, o governo central aparece menos dependente de salário do que o país realmente é. A Alemanha é o caso mais claro: o Bund fica com uma fatia do imposto de renda e repassa o resto a estados e municípios, então o número federal alemão subestima o peso do trabalho na arrecadação total. Vale a mesma ressalva, em grau menor, para Estados Unidos, Canadá e Brasil. Nenhum percentual aqui é a carga tributária total de um país.

A escala completa

Ordenados pela fatia da arrecadação central que vem do imposto de renda das pessoas físicas:

  • Estados Unidos: 77,8% renda pessoal, 15,1% lucro empresarial, 5,9% bens e serviços

  • Canadá: 54,1% renda pessoal, 21,7% lucro empresarial, 21,0% bens e serviços

  • Austrália: 52,7% renda pessoal, 24,1% lucro empresarial, 22,8% bens e serviços

  • Itália: 42,0% renda pessoal, 11,1% lucro empresarial, 40,0% bens e serviços

  • Reino Unido: 39,6% renda pessoal, 12,7% lucro empresarial, 39,7% bens e serviços

  • Alemanha: 38,5% renda pessoal, 6,5% lucro empresarial, 54,7% bens e serviços

  • Coreia do Sul: 33,8% renda pessoal, 23,6% lucro empresarial, 31,9% bens e serviços

  • França: 30,3% renda pessoal, 18,3% lucro empresarial, 38,3% bens e serviços

  • Índia: 29,7% renda pessoal, 26,8% lucro empresarial, 43,2% bens e serviços

  • Japão: 29,1% renda pessoal, 25,9% lucro empresarial, 39,1% bens e serviços

  • Espanha: 28,4% renda pessoal, 18,5% lucro empresarial, 52,6% bens e serviços

  • Brasil: 21,0% renda pessoal, 25,3% lucro empresarial, 31,5% bens e serviços

  • Argentina: 12,2% renda pessoal, 12,4% lucro empresarial, 61,3% bens e serviços

  • Colômbia: 9,6% renda pessoal, 42,0% lucro empresarial, 40,0% bens e serviços

  • China: 9,3% renda pessoal, 27,6% lucro empresarial, 61,3% bens e serviços

O que sobra até 100% em cada país são impostos sobre propriedade, sobre folha, sobre transações financeiras e, em alguns casos, imposto de renda que a estatística não conseguiu separar entre pessoa física e jurídica. No Brasil essa última categoria é grande, e volta adiante.

Duas leituras exigem cuidado. Na Índia, a rubrica de imposto de renda não societário inclui firmas individuais e sociedades de pessoas, além do imposto sobre operações em bolsa, então o número é um teto para a parcela estritamente pessoal. Na China, a fatia de bens e serviços está líquida das devoluções de tributo na exportação, que o orçamento central lança como receita negativa e que em 2023 somaram 17,1 mil bilhões de yuans.

Imposto pessoal não é sinônimo de salário

Aqui mora a armadilha mais fácil de cair. Na classificação da OCDE, a categoria de imposto pessoal é "impostos sobre renda, lucros e ganhos de capital de indivíduos". Ela cobra o contracheque, mas também cobra dividendo recebido, juro e ganho de capital realizado por pessoa física. Nos Estados Unidos, ganhos de capital são tributados no imposto individual quando realizados, e dividendo qualificado segue as alíquotas de ganho de capital.

Dá para medir parte disso. A OCDE separa a rubrica de ganho de capital de pessoa física da rubrica de renda e lucro, e em 2023 o ganho de capital respondeu por 9,0% de toda a base pessoal federal americana, ou 206 bilhões de dólares. Na Coreia do Sul, 15,1%. No Reino Unido, 5,9%. Canadá, Austrália, Alemanha, França, Japão e Itália não separam a rubrica: lá o ganho de capital é tributado dentro do imposto de renda comum, sem linha própria.

E esses percentuais são piso, não teto. Dividendo e juro recebidos por pessoa física ficam dentro da rubrica de renda, misturados com salário, sem separação estatística possível. Quer dizer que os 77,8% americanos já capturam uma parcela relevante do retorno do capital, e ninguém sabe exatamente qual.

Isso muda a tese, e para melhor. O risco fiscal da IA não é simplesmente trocar renda do trabalho por renda do capital, porque a base pessoal pega os dois. A fragilidade aparece quando a nova renda deixa de ser salário e vira lucro retido dentro da empresa, valorização patrimonial não realizada, estrutura transfronteiriça ou resultado de companhia sediada fora da jurisdição onde o trabalho foi substituído. Salário é tributado de forma contínua e retido na fonte. Ganho de capital depende de realização. Lucro depende de distribuição. Os dois dependem de onde a empresa mora.

Quem tem mais a perder

Vale fazer um exercício aritmético simples. Se a receita de imposto de renda pessoal caísse 10% e todo o resto ficasse igual, a arrecadação central recuaria 7,8% nos Estados Unidos, 5,4% no Canadá, 5,3% na Austrália, 4,2% na Itália, 4,0% no Reino Unido e 3,8% na Alemanha. No Brasil, 2,1%. Na Argentina, 1,2%. Na Colômbia, 1,0%. Na China, 0,9%.

Isso não é uma previsão, e nem tenta ser. O imposto pessoal incide sobre outras rendas além do salário, como acabamos de ver. A conta exclui a previdência, e se a IA atingir justamente a massa salarial, a Previdência sofre um baque adicional que este exercício não captura. Se a IA elevar produtividade, salários e emprego em outros setores, a perda pode ser menor, compensada ou até revertida. O que a aritmética mostra não é o futuro, e sim onde cada orçamento está concentrado hoje.

Ainda assim, a concentração importa. Um governo que tira três de cada quatro reais de imposto da declaração das pessoas físicas depende do que acontece com a renda das famílias de um jeito que um governo que tira um de cada dez não depende. A diferença é estrutural e não precisa de nenhuma projeção sobre a velocidade da automação para existir.

Onde a nova renda aparece

A pergunta que decide o resultado é a de destino. Se a automação deslocar rendimento do trabalhador para empresas domésticas que distribuem lucro a acionistas locais, boa parte da arrecadação se recompõe sozinha, parte no imposto corporativo e parte na declaração dessas pessoas físicas. O Estado troca de base e segue arrecadando, com atraso e volatilidade maiores, mas segue.

Se os ganhos principais ficarem com plataformas estrangeiras, a história é outra. O país perde base salarial local e não captura a base empresarial nova, que é reconhecida em outra jurisdição, nem a renda pessoal derivada dela, que vai para acionistas de outro país. Não há compensação automática. Há vazamento.

China, Colômbia e o outro lado da conta

China e Colômbia estão nos dois extremos opostos aos Estados Unidos, e por caminhos diferentes. A China arrecada 61,3% do seu tributo central sobre consumo e operações econômicas, com apenas 9,3% vindo da renda pessoal. A Colômbia tira 42,0% da arrecadação federal do lucro das empresas, contra 9,6% da renda pessoal, a maior dependência corporativa dos 15.

Nenhuma das duas está imune. Uma queda na renda das famílias derruba consumo, e consumo em queda derruba IVA e impostos indiretos. A Colômbia segue vulnerável se os lucros da economia automatizada forem contabilizados fora do país. A China tende a preservar uma fatia maior da captura fiscal se as plataformas, a infraestrutura computacional e os fornecedores de IA estiverem instalados dentro de casa. É uma hipótese razoável, não uma garantia.

A Argentina empata com a China nos 61,3% de dependência de consumo, e a Espanha chega a 52,6%. Aqui o consumo funciona ao mesmo tempo como amortecedor e como canal de transmissão. Se o trabalhador continuar consumindo, seja por salário preservado, transferência de renda ou emprego novo, o sistema aguenta melhor. Se a renda agregada cair, a proteção evapora.

O caso alemão merece nota à parte. Os 54,7% de bens e serviços no orçamento do Bund são os mais altos entre os países ricos da amostra, e não porque a Alemanha tribute pouco salário. É porque o imposto de renda alemão é compartilhado com estados e municípios, enquanto uma fatia maior do IVA fica no centro. O governo federal alemão está menos exposto que o país.

Japão, Índia e Coreia do Sul têm composição mais equilibrada entre tributação pessoal e corporativa, com a diferença entre as duas bases abaixo de dez pontos nos três casos. França e Reino Unido distribuem a arrecadação entre renda pessoal, empresas e consumo. Em todos esses casos, o desfecho depende menos da existência da IA e mais de três variáveis: quanto trabalho é efetivamente substituído, onde os lucros são registrados e se o ganho de produtividade volta para a economia doméstica.

O problema duplo do Brasil

No recorte federal comparável, o Brasil arrecada 21,0% sobre renda pessoal, 25,3% sobre lucro empresarial e 31,5% sobre consumo e faturamento. À primeira vista, a diversificação parece proteger mais do que a estrutura americana ou canadense. O Brasil é um dos poucos países da amostra em que a União arrecada mais das empresas do que das pessoas.

Duas ressalvas complicam essa leitura. A primeira é que 13,3% de toda a arrecadação federal corresponde a impostos sobre renda que a estatística não conseguiu separar entre pessoas físicas e jurídicas. É a maior fatia não alocada dos 15 países, e enquanto ela existir não dá para afirmar com precisão como a distribuição real se comporta. A segunda é que as contribuições previdenciárias foram excluídas para padronizar a comparação, mas na prática elas existem, e uma queda do emprego formal pressiona a Previdência de imediato.

Há ainda um detalhe brasileiro que agrava a questão anterior. Diferente dos Estados Unidos, onde dividendo e ganho de capital caem na declaração da pessoa física, o Brasil isenta a distribuição de lucros e dividendos no nível do sócio desde 1996. Ou seja: o canal que reconstitui parte da base pessoal quando a renda migra do salário para o lucro está, aqui, deliberadamente fechado.

O risco brasileiro, portanto, não se limita ao Imposto de Renda. Se empresas daqui substituírem trabalhadores por serviços de IA importados, a folha encolhe aqui, a demanda das famílias enfraquece aqui e parte do faturamento tecnológico é reconhecida em outro lugar. O país corre o risco de importar eficiência e exportar base tributária.

Taxar robô não resolve

A tentação política será criar um imposto específico sobre IA, ou cobrar por trabalhador substituído. O próprio FMI alerta que tributar a tecnologia diretamente desestimula investimento, produtividade e inovação, além de ser difícil de operacionalizar. Um imposto sobre automação tem que definir o que conta como automação, e essa definição envelhece em dois anos.

Uma agenda fiscal mais consistente teria cinco frentes.

  1. Fortalecer a tributação de lucros e rendas do capital no momento em que eles chegam à pessoa física, revisando as lacunas que permitem que dividendos, ganhos de capital e grandes lucros sejam proporcionalmente menos tributados do que salário. A OCDE documenta que a renda do capital costuma receber tratamento mais favorável.

  2. Capturar valor onde ele é consumido ou gerado, aperfeiçoando a tributação de serviços digitais transfronteiriços, combatendo transferência artificial de lucros e cooperando internacionalmente para que uma plataforma não atenda um mercado sem contribuir de forma proporcional à atividade econômica local.

  3. Revisar incentivos que favorecem capital em detrimento de trabalho. Benefício fiscal sobre software, equipamento e automação estimula a substituição de trabalhador mesmo quando o ganho social líquido é discutível.

  4. Desvincular parte do financiamento social da folha. Previdência, seguro-desemprego e requalificação não podem depender só da continuidade da relação de emprego tradicional se a renda migrar para capital, propriedade intelectual e infraestrutura digital.

  5. Usar a IA para elevar a produtividade do próprio Estado. Combate à evasão, fiscalização mais inteligente, modernização administrativa e serviço público melhor ampliam a capacidade de arrecadar sem depender apenas de alíquota nova.

O dilema central não é escolher entre trabalhador e empresa. É evitar que o sistema tributário continue cobrando principalmente da fonte de renda que encolhe enquanto a riqueza cresce em outra base, mais concentrada, mais móvel e mais difícil de alcançar.

A pergunta da próxima década não vai ser só quantos empregos a IA substituiu. Vai ser quem ficou com o ganho de produtividade, em que jurisdição esse ganho apareceu e se o Estado ainda consegue chegar até lá.


Metodologia: percentuais calculados sobre a arrecadação tributária do governo central de 2023, excluídas as contribuições previdenciárias. Fontes primárias: base Revenue Statistics da OCDE, nos recortes de países membros e de América Latina e Caribe, consultada em agosto de 2026; Ministério das Finanças da China; e Ministério das Finanças da Índia.

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