O Vini me fez uma pergunta simples numa quinta-feira de manhã. Quanto custaria para o dono do data center pagar a conta de luz e de água de todo mundo que mora no bairro. Não a conta do data center. Só a do bairro.
Levei uma hora para responder e três dias para parar de pensar nisso.
Onde isso fica
O Colossus, da xAI, é o maior cluster de IA do mundo. Ele não fica num deserto. Fica em três endereços muito específicos.
O primeiro é 3231 Paul R. Lowry Road, dentro do parque industrial Frank C. Pidgeon, no CEP 38109. O bairro se chama Boxtown. É 94,8% negro e a renda mediana é de US$ 37.496 por ano.
O segundo é 5400 Tulane Road, em Whitehaven. Mesmo perfil.
O terceiro é 2400 Stateline Road West, do outro lado da divisa, em Southaven, Mississippi. Chama-se MACROHARDRR, foi anunciado em janeiro de 2026 como o maior investimento privado da história do estado, US$ 20 bilhões, e fica a menos de um quilômetro do Colossus 2.
Somando os três, são 53.466 domicílios e cerca de 138 mil pessoas morando ao redor.
A conta
Não estimei nada. Fui buscar a tarifa.
A MLGW é a concessionária de Memphis, municipal desde 1939, e publica tudo. A tarifa residencial de eletricidade em vigor desde 5 de janeiro de 2026 tem US$ 15,10 de custo fixo mensal e a energia sai entre 9,4 e 10,2 centavos por kWh dependendo da estação, mais 2,39 centavos do repasse de combustível da TVA. A água residencial dentro do município custa US$ 2,393 por ccf. A própria MLGW publica o consumo médio de uma casa: 13.692 kWh e 98 ccf por ano.
Uma casa em Memphis, portanto, paga US$ 1.841 de luz e US$ 235 de água por ano. Dois mil e setenta e seis dólares.
Multiplicando pelos domicílios:
Boxtown, CEP 38109, 16.616 casas: US$ 34,5 milhões por ano
Whitehaven, CEP 38116, 15.599 casas: US$ 32,4 milhões por ano
Southaven, Mississippi, 21.251 casas: US$ 54,6 milhões por ano
Os dois bairros de Memphis, que são os que aparecem na ação judicial e na lei municipal, dão US$ 66,9 milhões por ano. Os três juntos dão US$ 121,5 milhões.
Para efeito de escala: a xAI gastou cerca de US$ 18 bilhões só em GPU. Zerar a conta de luz e de água dos dois bairros de Memphis custaria 0,37% disso, uma vez por ano. Os três bairros custariam 0,7%.
O que foi feito de verdade
Em agosto de 2025 a Câmara Municipal de Memphis aprovou destinar 25% do IPTU da xAI a projetos num raio de cinco milhas dos data centers, com teto de US$ 100 milhões. Foi noticiado como pioneiro no país.
O primeiro ciclo fechou em junho de 2026. Chegaram US$ 3,3 milhões.
No mesmo período, do lado do Mississippi, a xAI negociou um acordo de pagamento substitutivo com Southaven e com o condado de DeSoto para pagar menos IPTU, e a agência estadual aprovou isenção total de imposto sobre equipamento.
Então dá para pagar tudo com menos de um por cento do capex anual, e a escolha foi negociar redução de imposto. Isso não é uma hipótese sobre o futuro da distribuição da abundância. É uma preferência revelada de janeiro de 2026, numa decisão de US$ 121 milhões.
Watts e litros
O Guilherme pediu a versão física da comparação, e ela é mais interessante que a financeira.
A carga residencial média dos três bairros é de 86,7 MW. O consumo de água é de 10,8 milhões de galões por dia. Per capita: 628 watts contínuos e 297 litros por dia.
O Colossus tem cerca de 1,5 GW energizados hoje e 2 GW como alvo. Compra hoje 1,3 milhão de galões de água por dia da MLGW e pediu autorização para 3,7 milhões.
Em energia, o data center é 17 vezes a comunidade hoje, e 23 vezes no alvo. Em água, é 0,12 vezes hoje e 0,34 vezes se conseguir o que pediu.
Essa assimetria me pegou de surpresa e vale explicar. Se todo o calor do Colossus saísse por evaporação, a conta é direta: 1,8 GW térmicos divididos pelo calor latente de vaporização da água, 2.410 kJ por quilo, dão 747 quilos por segundo. Dezessete milhões de galões por dia. Eles pedem 3,7. Invertendo a conta, os 3,7 milhões de galões só carregam 390 MW, ou seja, apenas 22% do calor sai pela água. O resto sai seco.
Isso é um ponto a favor do projeto, e acho justo dizer. Refrigeração líquida em circuito fechado troca água por eletricidade, e eles escolheram gastar watt em vez de aquífero.
Só que a água não sumiu, mudou de endereço. A geração termelétrica evapora água em torre de resfriamento. Com a matriz da TVA, algo na faixa de 0,4 galão por kWh. Os 11,8 TWh anuais do Colossus viram cerca de 13 milhões de galões por dia consumidos nas usinas. Mais do que a água residencial dos três bairros inteiros.
E tem o número que resume tudo. No alvo de 2 GW, o Colossus consome 15,8 TWh por ano. Toda a MLGW vendeu cerca de 13 TWh em 2024, somando residências, comércio e indústria, para 930 mil pessoas. Um único cliente supera a concessionária inteira.
Ah, e a usina de reúso de água que zeraria a retirada do aquífero, projetada para 13 milhões de galões por dia, parou em abril de 2026. Musk disse que primeiro termina o Colossus 2. O orçamento tinha saído de US$ 80 milhões para US$ 200 milhões. Até voltar, o resfriamento sai de água potável tratada do aquífero Memphis Sand.
Aí o Vini puxou o Grundrisse
E foi aqui que a conversa ficou boa.
No Fragmento sobre as Máquinas, escrito em 1858 e nunca publicado por Marx em vida, ele diz que a maquinaria torna o tempo de trabalho uma base miserável para a produção. A riqueza passa a depender do conhecimento social geral, do que ele chamou de intelecto geral. Todo o argumento da abundância pós-capitalista sai daí.
A leitura otimista para em "o tempo de trabalho deixa de ser a medida". A frase seguinte é a que interessa: o intelecto geral é "absorvido pelo capital, em oposição ao trabalho, e assim aparece como atributo do capital".
O conhecimento é social. Todo texto humano, todo artigo científico, todo o corpus. A propriedade não é. Marx acertou o cercamento, não a abundância.
Mas tem um lugar onde a analogia quebra, e quebra forte. A máquina de Marx tem uma propriedade que a IA não tem: uma vez construída, o conhecimento se reproduz a custo marginal zero. Um livro, uma planta, um software. Copia à vontade, não custa nada.
Inferência não é isso. Cada token é watt. Os pesos são não rivais, o uso dos pesos é rival, porque disputa segundo de GPU e megawatt e aquífero. O intelecto geral, em Memphis, tem uma pluma de óxido de nitrogênio e um medidor. Marx nunca imaginou um intelecto geral com piso termodinâmico.
E tem a frase dele que descreve o modelo de negócio dos laboratórios com uma precisão desconfortável:
O capital é ele mesmo a contradição em movimento, no sentido de que pressiona para reduzir o tempo de trabalho ao mínimo, enquanto põe o tempo de trabalho, do outro lado, como única medida e fonte da riqueza.
Dezoito bilhões em GPU, vinte bilhões em Southaven, tudo gasto para tirar trabalho de tudo. E o retorno desse gasto exige que a inteligência não fique de graça, porque se ficar, nada disso se paga. Eles estão apostando dezenas de bilhões que a coisa que prometem não vai acontecer.
Abundância e "para todos" são duas perguntas
O Vini separou bem: abundância material é possível, "para todos" é que é o problema. E o melhor argumento a favor dele não é a IA, é o trigo.
A Revolução Verde resolveu a comida como problema de produção. A oferta de calorias por pessoa foi de cerca de 2.200 kcal por dia em 1961 para 2.960 hoje, com a população dobrando no meio do caminho. Produzimos aproximadamente 1,5 vez as calorias de que a humanidade precisa.
Em 2023, 730 milhões de pessoas passaram fome.
Resolvemos a escassez do insumo mais básico da vida humana e a fome não acabou, porque a fome nunca foi principalmente um problema de produção.
Justiça seja feita, o outro lado também tem números. A pobreza extrema caiu de cerca de 40% da humanidade em 1981 para menos de 10% hoje. A abundância distribuiu, imperfeita e massivamente, e distribuiu sob o capitalismo, não contra ele. A versão honesta é que a produção te leva quase todo o caminho e o resto é política pura. Esse resto está travado há trinta anos.
A pergunta que eu não sei responder
O Vini fechou com a melhor de todas. Se a IA virar utilidade pública, quem paga?
Uma estrada funciona porque quem usa produz o excedente que a financia. Uso sobe, arrecadação sobe, capacidade cresce. Loop fechado com sinal de realimentação. E esse loop passa pelo trabalho.
Nos Estados Unidos isso não é metáfora, é o orçamento. Das receitas federais de 2024, cerca de US$ 4,92 trilhões, o imposto de renda pessoa física deu US$ 2,43 trilhões e a folha de pagamento deu US$ 1,71 trilhão. O imposto sobre lucro das empresas deu US$ 530 bilhões. Ou seja: 84% da receita federal americana é imposto sobre salário. O Estado fiscal moderno não é financiado pelo capital, é financiado pelo trabalho, desde que inventaram a retenção na fonte em 1943.
Tire a renda do trabalho e o Estado perde a base antes de perder qualquer outra coisa.
O Altman já percebeu isso, e dá para ver pelo mecanismo que ele escolheu. O Moore's Law for Everything propõe um fundo financiado por 2,5% do valor de mercado das empresas ao ano, pago em ações, mais 2,5% do valor da terra privada, pago em dinheiro. Repare no que ele não taxa. Nada de renda, nada de folha, nada de lucro. Ele taxa estoque, não fluxo, que é exatamente a jogada de quem concluiu que o fluxo vai sumir. Ele nunca diz isso, mas o desenho diz por ele.
Agora rode a proposta dele para frente, coisa que acho que ninguém fez. Pagar em ações significa diluição, e diluição compõe. Os acionistas atuais ficam com 0,975 a cada ano. Em trinta anos, 0,975 elevado a 30 dá 0,468.
O fundo público passaria a deter 53% do setor corporativo americano em três décadas.
Isso não é imposto. É socialização gradual dos meios de produção, com cronograma, sem revolução. O Altman chama de capitalismo. Existe precedente e quase ninguém cita: o plano Meidner, Suécia, 1976. Rudolf Meidner propôs que as empresas emitissem 20% do lucro anual em novas ações para fundos controlados pelos sindicatos, com o objetivo declarado de transferir a propriedade da indústria sueca aos trabalhadores em uma geração. Foi implementado em versão diluída em 1983 e morto em 1991. É a tentativa mais próxima do que o Altman descreve, e o capital lutou quinze anos e ganhou.
Onde isso termina
O problema é que uma utilidade financiada por imposto sobre capital não é uma utilidade. É um dividendo.
Se você dá compute para pessoas que não produzem mais nada, o compute deixa de ser insumo e vira bem de consumo. Não tem loop. O financiamento vira uma decisão política de redistribuir, renovada todo ano. E dividendo é politicamente frágil de um jeito que infraestrutura não é, porque infraestrutura tem uma base de produtores que precisam dela e dividendo tem uma base de beneficiários que podem ser chamados de dependentes.
Temos três exemplos vivos de Estado financiado por ativo em vez de por cidadão. O Alasca, com um fundo de uns US$ 80 bilhões e um dividendo entre mil e três mil dólares por ano, que funciona e é intocável. A Noruega, com US$ 1,8 trilhão, dona de 1,5% de todas as ações listadas do planeta, financiando 20% do orçamento estatal. E os países do Golfo, que são ricos, estáveis e não são democracias.
O padrão que a ciência política registrou aí é desagradável e bem documentado. Quando o Estado deixa de precisar taxar o cidadão, ele deixa de precisar do consentimento dele. Sem taxação, sem representação, e a seta corre nessa direção também. O cidadão sai de fonte de receita e vira linha de custo, e a prestação de contas do Estado aponta para quem gera o dinheiro. Que seria o estoque de capital de IA e quem o controla.
A Noruega é o contraexemplo e importa: ela construiu instituições democráticas fortes antes de o petróleo chegar. A ordem dos fatores é que decide, não a fonte da receita. O que não é nada tranquilizador, dado que estamos decidindo isso agora, numa década em que as instituições estão ficando mais fracas e não mais fortes.
A única ideia boa
A fatia de compute do Altman é melhor que dinheiro, e acho a coisa mais subestimada que ele já disse.
Transferência em dinheiro faz de você um rentista. Meio de produção faz de você um proprietário. Se a sua dotação é compute em vez de dólar, você não está no auxílio, você tem uma roça. O loop fecha de novo porque quem recebe volta a produzir.
Duas coisas quebram isso.
Economia de escala. Um cluster de 2 GW faz coisas que uma fatia pessoal não faz, e o pequeno é atropelado como foi o pequeno agricultor.
E a palavra "revender". O Altman diz explicitamente que a fatia é negociável. Toda dotação alienável se reconcentra. Toda distribuição de terra da história que permitiu venda terminou com alguém dono de dez mil hectares. Torne inalienável e ela deixa de ser propriedade e vira ração, o que é outra sociedade ainda.
Essa é a bifurcação. Fatia negociável reconcentra no que já temos. Fatia não negociável é um comum racionado, administrado por quem manda no fundo. Não li ninguém com uma terceira saída, e eu também não tenho.
Volta para Boxtown
Escrevi tudo isso e continuo voltando aos US$ 66,9 milhões.
É a menor versão possível da pergunta distributiva. É respondível hoje, com 0,37% do que já foi gasto em placa de vídeo. Não depende de fundo soberano, nem de reforma tributária, nem de esperar a esfera de Dyson. São 32.215 contas de luz e de água numa concessionária municipal que já existe e já sabe emitir boleto.
Com renda mediana de US$ 37.496 no 38109, esses US$ 2.076 anuais são 5,5% da renda da família. Sem contar o gás, que em Memphis pesa mais que a luz no inverno. Acima de 6% a literatura chama de pobreza energética severa, e o bairro chega lá todo mês de dezembro.
A resposta até agora foram US$ 3,3 milhões e um acordo para pagar menos imposto.
Se a abundância não consegue zerar a conta de luz das 138 mil pessoas que estão em pé do lado da máquina, respirando o que sai dela, "tudo vai ser de graça" não é previsão econômica. É declaração de missão.
Tarifas e consumo médio: MLGW Facts & Figures 2024 e os tarifários RS e W-1 vigentes. Domicílios e renda: American Community Survey 2020-2024. Água e aquífero: Protect Our Aquifer e E&E News. Foto de capa: usina Allen, da TVA, na Plant Road, sudoeste de Memphis, a poucas quadras do Colossus. TVA Web Team, CC BY 2.0.
