O que aconteceu em Giruá em julho de 2026
O Rio Grande do Sul teve pelo menos três tornados confirmados pela Defesa Civil estadual em 2026: dois em fevereiro, em Pelotas e entre Encruzilhada do Sul e Canguçu, e um em 28 de julho, no interior de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho, no noroeste do estado. O episódio de julho foi o mais destrutivo do ano, com sete feridos e residências completamente destruídas, sem registro de mortes.
O estado está no chamado corredor de tornados da América do Sul e é, ao lado de Santa Catarina, o que mais registra o fenômeno no Brasil.
Um tornado atingiu áreas rurais de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho, no noroeste gaúcho, por volta das 18h25 de terça-feira, 28 de julho de 2026. A ocorrência foi confirmada pelo Centro de Monitoramento da Defesa Civil do Rio Grande do Sul (CMDEC) em nota técnica, com base em imagens de radar, vídeos gravados por moradores e na análise dos danos.
Sete pessoas ficaram feridas e não houve mortes. Além dos ventos, houve queda de granizo de fraca intensidade.
O fenômeno esteve associado a uma supercélula — um tipo de tempestade cuja corrente ascendente gira sobre si mesma. Segundo o CMDEC, supercélulas costumam produzir granizo grande e rajadas intensas e, em algumas ocasiões, tornados. A MetSul Meteorologia registrou que a atmosfera do noroeste gaúcho estava excepcionalmente instável naquela tarde, com máximas de até 33 °C e um jato de baixos níveis transportando ar quente e úmido junto à superfície, o que intensifica o cisalhamento do vento e favorece a rotação das tempestades.
Como não há estações meteorológicas na área atingida, não foi possível medir a velocidade do vento. Até 29 de julho de 2026, o tornado não havia recebido classificação na escala Fujita Aprimorada.
Cidades atingidas
Giruá — As comunidades rurais de Rincão dos Coimbras, Rincão dos Mellos, Rincão dos Ribeiros, Amaral e Melgarejo estão entre as mais afetadas. A prefeitura registrou quatro feridos, um deles com possível fratura de perna, e cerca de dez desabrigados encaminhados a casas de familiares. Marieli Dalla Costa, secretária municipal de Assistência Social e coordenadora da Defesa Civil de Giruá, informou que aproximadamente quatro propriedades foram atingidas, uma delas totalmente devastada. Equipes do Corpo de Bombeiros, do Samu, da Defesa Civil e da Secretaria de Obras foram mobilizadas, com máquinas pesadas para desobstruir estradas.
Sete de Setembro — A Defesa Civil municipal informou três feridos encaminhados ao hospital e duas residências totalmente destruídas.
Senador Salgado Filho — Ao menos 12 casas foram atingidas e cerca de 50 pessoas afetadas, com destelhamentos, queda de árvores e danos à rede elétrica. Diversas estradas ficaram interditadas, e a prefeitura orientou a população a evitar sair de casa.
O governador Eduardo Leite (PSD) afirmou ter conversado com os prefeitos das três cidades e colocado a estrutura do estado à disposição. A Coordenadoria Regional de Proteção e Defesa Civil de Santo Ângelo passou a apoiar os municípios atingidos.
Os tornados de fevereiro de 2026
Antes do episódio de julho, o Rio Grande do Sul já havia registrado dois tornados em quatro dias, durante uma sequência de tempestades severas em fevereiro.
O primeiro ocorreu em Pelotas, na manhã de 12 de fevereiro, por volta das 10h45, quando uma linha de instabilidade avançou sobre a cidade. O Centro de Pesquisas e Previsões Meteorológicas da UFPel (CPMet) classificou o fenômeno como EF0 na escala Fujita Aprimorada, a partir da avaliação preliminar dos danos no bairro Fragata. Uma estação do Inmet registrou rajadas de 75 km/h, mas o CPMet estimou, pelos estragos observados, que os ventos possivelmente superaram 100 km/h em pontos da cidade. Houve queda de postes, destelhamentos e árvores sobre casas. Ao menos 13 municípios gaúchos reportaram danos naquele dia, segundo a Defesa Civil.
O segundo foi registrado em Encruzilhada do Sul, por volta das 18h35 de 15 de fevereiro, nas proximidades da localidade de Arroio Abranjo, com danos também no interior de Canguçu. Segundo a MetSul, o funil permaneceu ativo por quase dez minutos e o fenômeno chegou a ser avistado de Amaral Ferrador. Como a área é pouco habitada, os impactos foram limitados — houve relatos de estragos em uma residência e prejuízos em lavouras de soja. A Defesa Civil emitiu Alerta Laranja para a região às 18h30, cinco minutos antes do registro.
Por que o Rio Grande do Sul tem tantos tornados
O estado fica dentro do corredor de tornados da América do Sul, uma faixa que abrange o Sul do Brasil, o centro e o norte da Argentina, o Uruguai, o Paraguai e parte da Bolívia. É a região com maior frequência de tornados do Hemisfério Sul.
A combinação que produz o fenômeno tem três ingredientes principais:
- Choque de massas de ar — ar quente e úmido transportado desde a Amazônia e o Chaco encontra massas de ar frio e seco vindas da Patagônia e da Argentina.
- Cisalhamento vertical do vento — o vento muda de direção e velocidade conforme a altitude, o que faz a corrente ascendente das tempestades girar e permite a formação de supercélulas.
- Relevo plano — as planícies do Pampa facilitam a circulação dessas massas de ar e aumentam a instabilidade.
Segundo a MetSul, correntes de jato em baixos níveis — um corredor de vento a cerca de 1.500 metros de altitude que se origina na Bolívia e transporta ar quente até o Sul do Brasil — estão presentes na esmagadora maioria dos episódios de tornado na região.
Um estudo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) coordenado pela professora Karin Linete Hornes identificou 581 tornados no Brasil entre 1975 e 2018, dos quais 411 na Região Sul e 180 — 44% do total do Sul — em território gaúcho. O Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul aponta que, entre 1991 e 2024, o estado respondeu por 26,78% dos desastres causados por tornados no país, atrás apenas de Santa Catarina.
Uma climatologia publicada em 2025 no periódico Ciência e Natura, da UFSM, reuniu 310 ocorrências de tornados no Sul do Brasil e identificou o setor de maior frequência na área que abrange o norte do RS, o oeste de Santa Catarina e o sudoeste do Paraná — exatamente a faixa onde ficam Giruá e Senador Salgado Filho. O mesmo trabalho aponta o inverno como a estação de máxima ocorrência, o que ajuda a explicar um tornado destrutivo em pleno julho.
Como os tornados são classificados
A intensidade é medida pela Escala Fujita Aprimorada (Enhanced Fujita, ou escala EF), operacional desde 2007 e adotada internacionalmente. Ela não mede o vento diretamente: a classificação é feita a partir dos danos observados, comparados com 28 indicadores de danos e seus respectivos graus, para estimar a maior velocidade de vento ocorrida ao longo do caminho de destruição.
A escala vai de EF0 a EF5. Na categoria mais baixa, os ventos não superam 116 km/h e os danos são leves; na mais alta, podem ultrapassar 500 km/h.
Por depender de vistoria em campo, a classificação costuma sair dias depois do evento — e tornados que passam por áreas rurais pouco construídas tendem a receber notas mais baixas do que a força real do vento, simplesmente porque há menos estruturas para servir de indicador.
O limite dos radares e os alertas da Defesa Civil
O caso de julho expôs uma lacuna na cobertura de radar do noroeste gaúcho. A Defesa Civil estadual emitiu um Alerta Laranja para a região às 17h14, com validade até as 20h10, indicando potencial de tempestade severa com granizo e rajadas intensas — mas o aviso não mencionava tornado.
A razão está na distância: o alerta foi elaborado com base no radar meteorológico de Chapecó, em Santa Catarina, a cerca de 200 quilômetros da tempestade. A essa distância, o feixe mais baixo do radar varria a atmosfera a mais de 4,5 quilômetros de altitude sobre a área atingida, o que tornou impossível identificar a rotação próxima da superfície que indicaria a formação de um tornado.
Em fevereiro, na ocorrência de Encruzilhada do Sul, a célula responsável havia sido identificada pelo radar de Porto Alegre, com refletividade próxima de 60 dBZ — valor compatível com granizo e rajadas intensas — e estrutura alongada característica de supercélula. Também naquele caso o Alerta Laranja saiu poucos minutos antes do fenômeno.
Tornados anteriores no Rio Grande do Sul
Os registros gaúchos são catalogados pela Plataforma de Registros de Tempo Severo (PRETS), ligada à Universidade Federal de Santa Maria, e acompanhados pela MetSul Meteorologia, pelo Inmet e pela Defesa Civil.
Alguns dos episódios mais graves das últimas décadas:
- Águas Claras, Viamão (11 de outubro de 2000) — Tornado atingiu o distrito na Região Metropolitana de Porto Alegre, com faixa de devastação estimada entre 250 e 300 metros de largura por pesquisadores da UFRGS e meteorologistas da MetSul. Deixou ao menos uma morte, feridos e famílias desabrigadas. Na época o estado não contava com radares modernos capazes de identificar rotação nas tempestades.
- Erebango (12 de abril de 2014) — Classificado como F2 pela Defesa Civil estadual, com ventos de até 252 km/h. Uma morte e 26 desabrigados.
- São Francisco de Paula (março de 2017) — Ventos de 140 km/h, uma morte, 370 desabrigados e 600 desalojados.
- Ciríaco (2018) — Uma morte, um ferido e 528 moradores desalojados.
O tornado mais letal já registrado no Brasil ocorreu em 1959, na divisa entre Santa Catarina e Paraná, e deixou cerca de 90 mortos.
O aumento no número de registros nas últimas décadas está ligado sobretudo à popularização de celulares e da internet: eventos que antes passariam despercebidos hoje são filmados e documentados. O Brasil ainda não tem um banco de dados histórico consolidado de tornados comparável ao dos Estados Unidos ou da Europa.
