O que é a Organização de Cooperação de Xangai
A Organização de Cooperação de Xangai (OCX, ou SCO na sigla em inglês) é um bloco político, econômico e de segurança da Eurásia, criado em 2001 e formado hoje por dez Estados-membros — entre eles China, Rússia, Índia, Paquistão e Irã. Sua sede fica em Pequim, e chinês e russo são os idiomas oficiais. Reunidos, seus membros somam mais de 40% da população mundial e cerca de um terço do PIB global, segundo o presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, na abertura da cúpula de 2026.
A OCX é uma organização intergovernamental permanente. Sua agenda declarada gira em torno de três eixos: segurança regional, com prioridade ao combate ao que o bloco chama de "três forças do mal" — terrorismo, separatismo e extremismo —, cooperação econômica e intercâmbio cultural.
A instância máxima é o Conselho de Chefes de Estado, que se reúne anualmente em cúpula e adota as decisões estratégicas. A administração cotidiana cabe ao Secretariado, sediado em Pequim e chefiado pelo secretário-geral Zhang Ming. A organização mantém ainda a Estrutura Regional Antiterrorista (RATS), seu braço de coordenação de inteligência e operações de segurança.
Fundação e história
A OCX foi fundada em 15 de junho de 2001, na cidade de Xangai, na China. Ela nasceu da conversão de um mecanismo anterior, o grupo conhecido como "Cinco de Xangai", criado em 26 de abril de 1996 por China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão para tratar de disputas fronteiriças e desmilitarização de fronteiras herdadas do fim da União Soviética. Com a entrada do Uzbequistão, em 2001, o grupo virou organização formal.
A expansão para fora da Ásia Central veio depois: Índia e Paquistão entraram juntos em 9 de junho de 2017, o Irã em 4 de julho de 2023 e Belarus em 4 de julho de 2024, elevando o bloco a dez membros. Em 2026, a OCX completou 25 anos.
Países membros
Os dez Estados-membros plenos são:
- Fundadores/originais: China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão
- Índia e Paquistão — desde 9 de junho de 2017
- Irã — desde 4 de julho de 2023
- Belarus — desde 4 de julho de 2024
Além dos membros plenos, a OCX tem duas categorias de vínculo mais frouxo. Os Estados observadores são Afeganistão e Mongólia. Os parceiros de diálogo somam catorze países: Arábia Saudita, Armênia, Azerbaijão, Bahrein, Camboja, Catar, Egito, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Laos, Maldivas, Mianmar, Nepal, Sri Lanka e Turquia.
Objetivos e como funciona
O documento fundador define os objetivos em torno do que o bloco chama de "Espírito de Xangai" — confiança mútua, benefício recíproco, igualdade, consulta, respeito às diferentes civilizações e busca de desenvolvimento comum. Na prática, isso se traduz em quatro frentes:
- Segurança: coordenação antiterrorismo pela RATS, exercícios militares conjuntos e cooperação contra o narcotráfico.
- Economia e conectividade: corredores de transporte para os países sem litoral da Ásia Central, projetos de infraestrutura e energia.
- Finanças: ampliação do uso de moedas nacionais nas transações entre membros, reduzindo a dependência do dólar.
- Institucional: as decisões são tomadas por consenso, sem cláusula de defesa mútua — a OCX não é uma aliança militar nos moldes da OTAN.
Na cúpula de Tianjin, em 2025, Xi Jinping prometeu acelerar a criação de um banco de desenvolvimento da OCX e anunciou US$ 1,4 bilhão em empréstimos a países membros ao longo de três anos. A Declaração de Tianjin fixou as diretrizes do bloco para 2026-2035. Em Bishkek, um ano depois, o banco seguia em fase de desenho, sem compromissos de capital fechados.
A cúpula de Bishkek em 2026
A 26ª cúpula da OCX aconteceu em 31 de agosto e 1º de setembro de 2026, em Bishkek, capital do Quirguistão, sob o lema "25 anos da OCX: juntos por paz, desenvolvimento e prosperidade sustentáveis". Presidiu o encontro o presidente quirguiz Sadyr Japarov.
Estiveram presentes Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Narendra Modi (Índia) e Masoud Pezeshkian (Irã), além de líderes de Paquistão, Uzbequistão, Belarus e Cazaquistão. O secretário-geral da ONU, António Guterres, e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, também participaram.
Os chefes de Estado assinaram a Declaração de Bishkek sobre o 25º aniversário da organização e mais 27 documentos, totalizando 28 textos. Entre eles: o regulamento de um Centro Universal de Enfrentamento a Desafios e Ameaças à Segurança dos Estados-membros, o regulamento do comitê executivo do Centro Antidrogas da OCX, um plano de cooperação em segurança da informação para 2026-2028, um programa de "Corredor de Tecnologias Verdes" para 2026-2030 e um plano de desenvolvimento de portos e centros logísticos para o mesmo período.
Em seus discursos, Xi Jinping afirmou que "as incertezas e os fatores imprevisíveis no cenário internacional aumentaram significativamente" e defendeu um mundo "multipolar igualitário e ordenado". Putin propôs tornar permanente o regime sem vistos entre Rússia e China. Modi resumiu a posição indiana em "segurança, conectividade e oportunidade" e defendeu o combate ao terrorismo, ao separatismo e ao extremismo.
Ao fim do encontro, Japarov passou a presidência rotativa da OCX ao Paquistão, que comanda o bloco no período 2026-2027 e deve sediar a cúpula de 2027.
Divergências internas e críticas
A imagem de bloco coeso convive com atritos difíceis de ignorar. Índia e Paquistão, admitidos juntos em 2017, mantêm tensão de fronteira e chegaram a Bishkek sem anunciar reunião bilateral. Índia e China arrastam disputas de fronteira próprias, ainda que os dois países venham reaproximando-se sob pressão tarifária dos Estados Unidos.
A Índia também exerce autonomia estratégica dentro do bloco: recusou-se a endossar declarações anteriores da OCX que condenavam ações israelenses. Como as decisões saem por consenso e não há obrigação de defesa mútua, divergências desse tipo tendem a diluir os textos finais em vez de romper o grupo.
Qual a relação do Brasil com a OCX
O Brasil não integra a OCX — não é Estado-membro, nem observador, nem parceiro de diálogo. Nenhuma das três listas oficiais inclui o país.
A associação que aparece no noticiário brasileiro é indireta e vem da sobreposição com o BRICS: China, Rússia, Índia e Irã participam dos dois grupos, e as duas organizações compartilham temas como multipolaridade, reforma da governança global e uso de moedas nacionais no comércio. São, porém, arranjos distintos — a OCX é eurasiática e tem um componente de segurança regional que o BRICS não possui.
OCX e BRICS: qual a diferença
Os dois blocos são frequentemente citados juntos como contrapontos à influência dos Estados Unidos, mas não se confundem:
- Alcance geográfico: a OCX é um bloco eurasiático contíguo; o BRICS reúne países de continentes diferentes, incluindo Brasil e África do Sul.
- Agenda: a OCX nasceu de questões de fronteira e segurança e mantém uma estrutura antiterrorista permanente (a RATS); o BRICS tem foco econômico e de governança global, com o Novo Banco de Desenvolvimento como principal instituição.
- Composição: China, Rússia, Índia e Irã estão nos dois. Brasil, África do Sul, Egito, Etiópia e Emirados Árabes Unidos, entre outros, estão no BRICS — Egito e Emirados figuram na OCX apenas como parceiros de diálogo.
