O que são as mensagens entre Vorcaro e Moraes
São diálogos extraídos pela Polícia Federal de um celular apreendido com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, no âmbito da Operação Compliance Zero. Em 1º de setembro de 2026, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator do caso, retirou o sigilo de um relatório policial de 218 páginas que reconstrói a relação entre Vorcaro e o ministro do STF Alexandre de Moraes.
O relatório foi entregue a Mendonça em 27 de agosto de 2026, em resposta a um despacho de 24 de agosto que determinou à PF identificar os interlocutores das mensagens do banqueiro. Segundo a manifestação da Procuradoria-Geral da República, cerca de 190 das 218 páginas tratam de Moraes.
O material reúne mensagens, registros de encontros, minutas de contratos e metadados. O núcleo é uma sequência de mensagens enviadas por Vorcaro entre 30 de outubro e 17 de novembro de 2025 — os treze dias que antecederam sua primeira prisão — em que ele pede ao ministro informações sobre investigações em curso e intervenção junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
A retirada do sigilo não abriu investigação formal contra Moraes. Pelo regimento interno do STF, cabe ao plenário da Corte autorizar a investigação de um de seus integrantes.
O que dizem as mensagens
As mensagens abaixo foram enviadas por Vorcaro e reproduzidas no relatório da PF. As respostas do interlocutor não foram recuperadas.
30 de outubro de 2025 — primeiro pedido explícito. Vorcaro relata ter obtido "informações informais e em confidência de turma do banco central" de que "G e os diretores estão na pressão máxima de novo pra uma medida". A PF entende que "G" é uma referência a Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central. Na sequência:
"É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco. Estou disponível pra tratar e explicar qq coisa, só não pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que tem ido ao Bacen alegando que farão algo em breve."
Segundo o relatório, o banqueiro chegou a repassar ao interlocutor uma relação de quatro delegados e três procuradores da República encarregados das apurações preliminares. No mesmo dia, cerca de vinte minutos depois, escreveu:
"Tudo de importante fica no seu colo! Impressionante! Mas seu legado pro Brasil será eterno. Tenho muito orgulho e tenho certeza que cada vez mais se consolidará como a pessoa mais importante do país."
4 de novembro de 2025 — Vorcaro pergunta sobre a natureza das medidas judiciais que julgava iminentes: "médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?" e "Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?". Às 23h44:
"Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade. Como eu disse, não temos nada, nem o Banco Central abriu sequer um processo administrativo, e eles me auditam todos os dias. (…) Se puder, me deixe uma mensagem após falar com ele."
5 de novembro de 2025 — "Como estamos aí? Conseguimos bloquear a maldade e sacanagem?". No mesmo período, o banqueiro submete ao interlocutor a estratégia de seus advogados, os criminalistas Pierpaolo Cruz Bottini e Roberto Podval: "Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo."
15 de novembro de 2025, sábado, dois dias antes da prisão:
"Que loucura, bem na semana em que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda já tenho que estar fora?"
E, em outro trecho do mesmo dia: "Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?". O "juiz Ricardo" é Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, que viria a assinar o mandado de prisão.
16 de novembro de 2025, véspera da prisão. Às 16h57, Vorcaro pede que o interlocutor tente convencer o diretor-geral da PF a adiar as medidas:
"Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível."
Também nesse dia: "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?" e "Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei dá pra segurar?". Na madrugada, o banqueiro marcou um encontro presencial: "Às 14h, então. Passo na sua casa ou prefere na minha?".
17 de novembro de 2025, dia da prisão — "Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?". Horas depois, Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Dubai.
Na avaliação dos investigadores, o teor e a cronologia das mensagens sustentam a hipótese de que o banqueiro recebia informações sobre o andamento da Operação Compliance Zero, incluindo datas e horários de diligências planejadas.
Como as mensagens foram enviadas e recuperadas
Vorcaro não digitava os textos no aplicativo de mensagens. Ele os escrevia no aplicativo de notas do celular, fotografava a tela e enviava a imagem pelo WhatsApp no modo de visualização única, que apaga o conteúdo após a abertura. O contato tinha ainda a função de mensagens temporárias de 24 horas ativada desde 17 de setembro de 2025.
A perícia contornou o apagamento cruzando três rastros que permaneceram no aparelho: o conteúdo do bloco de notas, as capturas de tela armazenadas e o registro de uso do aplicativo de mensagens imediatamente depois de cada captura. Com esse cruzamento, os investigadores reconstruíram o texto enviado e o destinatário.
O destinatário foi identificado como um contato salvo na agenda de Vorcaro sob o nome "Alexandre de Moraes BRASILIA". Segundo a PF, esse contato foi gravado em 26 de dezembro de 2023, treze segundos depois de o ex-ministro Fábio Faria compartilhar com o banqueiro quatro contatos vinculados ao mesmo número de telefone: "Alexandre de Moraes BRASILIA", "Novo", "STF TSE NOVO" e "Eu STF".
Há um limite importante nessa reconstrução: apenas o lado enviado por Vorcaro foi recuperado. O relatório registra que houve respostas e que o interlocutor usava o mesmo método, mas o celular de Alexandre de Moraes não foi objeto de perícia. Não se conhece, portanto, o conteúdo do que o ministro respondeu.
Os encontros entre Vorcaro e Moraes
O relatório da PF identifica ao menos seis encontros presenciais entre o banqueiro e o ministro, articulados em boa parte pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que nas conversas se refere a Moraes pelo apelido "Careca".
- 30 de dezembro de 2023 — almoço no Hotel Six Senses Botanique, em Campos do Jordão (SP), organizado em poucos dias a pedido de Faria. As mensagens registram a logística: "São 9 pessoas e 4 seguranças".
- 2 de fevereiro de 2024 — jantar de casais na residência de Faria, em Brasília. Segundo o relatório, o encontro foi pedido pelo próprio ministro e transferido para a casa do ex-ministro.
- Março de 2024 — convidado para um novo encontro, o interlocutor responde que tinha jantar marcado, mas que daria tempo "de tomar um whisky".
- Julho e novembro de 2024, fevereiro, março e abril de 2025 — outros registros. Em 15 de novembro de 2024, Vorcaro escreve à filha que estava "com alexandre moraes". Em outra data, um motorista do banqueiro avisa que "o Min Alexandre chegou" a uma residência no Lago Sul, em Brasília. Em 29 de abril de 2025, ao ser perguntado pela namorada como estava o dia, responde que estava com "Alexandre".
Em novembro de 2024, ao repassar o endereço da residência do banqueiro a "Alex", Faria acrescentou que depois apagaria as informações.
Segundo a revista piauí, três fontes afirmam que Moraes e Vorcaro não se conheciam antes de Faria os apresentar. Faria e o banqueiro haviam se conhecido em outubro de 2023, em um evento do instituto Esfera Brasil em Paris. Procurado pelo Valor Econômico, Fábio Faria afirmou que "sugeriu o escritório Barci de Moraes para atuação em um caso na Justiça de São Paulo" e que não se reuniu com a banca nem soube dos valores contratados. Ele não é alvo da investigação.
Os contratos com o escritório Barci de Moraes
O relatório detalha dois documentos entre empresas de Vorcaro e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia, cuja sócia-diretora é Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Contrato de R$ 131 milhões. Assinado em janeiro de 2024, com vigência de três anos e parcelas mensais de aproximadamente R$ 3,6 milhões, com pagamento previsto até o quinto dia útil de cada mês. As parcelas de fevereiro e março daquele ano atrasaram. Em 15 de março de 2024, Fábio Faria alertou o banqueiro: "O careca não pode atrasar". Vorcaro determinou o pagamento imediato à equipe, classificando o compromisso como "o pgto mais importante que temos" e instruindo "pode pagar sempre, sem nota" e "do jeito que for". Em seguida, o relatório registra uma transferência do Banco Master ao escritório no valor de R$ 3.422.200. Em abril de 2025, o banqueiro pediu que o acesso interno ao contrato fosse restringido para evitar vazamentos. Registros da Receita Federal indicam que o escritório recebeu R$ 80,2 milhões até a liquidação do banco.
Os metadados. A PF examinou os metadados de uma minuta do contrato encontrada no celular de Vorcaro e identificou que o último usuário a modificar o arquivo antes da assinatura aparece registrado como "Ministro Alexandre de Moraes".
Proposta de R$ 50 milhões. Datada de maio de 2025, entre a Viking Participações, de Vorcaro, e o escritório. A cláusula de pagamento previa a quitação de R$ 40 milhões por meio de participações em empresas proprietárias de um jato Legacy 650 e de um helicóptero Airbus EC 155 B1, com o restante destinado a despesas operacionais. Não há registro em São Paulo de transferência definitiva da propriedade das aeronaves.
Em nota, o escritório afirmou que seu setor de compliance consultou Alexandre de Moraes, "na condição de marido da sócia-diretora", sobre a existência de impedimentos legais à contratação — como ações sob sua relatoria no STF — e que, "diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados".
Os cartões de crédito para os filhos de Moraes
Em 2 de outubro de 2025, quinze dias antes da prisão de Vorcaro, o administrador do escritório Barci de Moraes, Guilherme de Toledo Benazzi, procurou o banqueiro para tratar da emissão de cartões de crédito do Banco Master para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos do ministro. Vorcaro encaminhou o contato de Adriana Solano, então superintendente executiva comercial do banco.
No mesmo dia, às 14h05, Solano perguntou ao banqueiro: "O Guilherme que trabalha com a dra Viviane me ligou para emitir cartão para os filhos dela… limite de 300 pra cada… posso seguir?". Vorcaro respondeu "Ok".
Ao Estadão, o escritório Barci de Moraes confirmou que os cartões foram oferecidos pelo Master, mas afirmou que "jamais foram usados por qualquer advogado ou pessoa do escritório".
Pedidos de alteração em reportagens
O relatório reúne dois episódios em que Vorcaro transmitiu a veículos jornalísticos pedidos atribuídos a Moraes, ambos ligados a um evento organizado pelo banqueiro em Londres em abril de 2024.
Em 25 de abril de 2024, às 16h40, Vorcaro enviou a Fábio Faria o link da reportagem "Moraes fala sobre regular as Big Techs — e os riscos da IA", publicada pelo Brazil Journal, e pediu que verificasse com o ministro se ele queria alterar ou acrescentar algo. Diante da demora, insistiu: "Fala para ele olhar agora" e "importante ele alterar o que quer rápido", acrescentando que "temos que usar o Brazil Journal para conscientizar todos não só do evento como dos temas". Às 17h13, Faria encaminhou uma resposta atribuída ao ministro: "Está bom. Pode liberar".
No dia seguinte, 26 de abril, Vorcaro escreveu a um contato salvo como "Geraldo Brazil Journal" que Moraes havia pedido a inclusão, no texto, da informação de que os três ministros do STF haviam se reunido em caráter privado com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. A informação foi publicada pelo veículo no mesmo dia.
O fórum jurídico de Londres
O 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias foi realizado em Londres, em abril de 2024, no hotel The Peninsula, organizado pelo Grupo Voto e patrocinado pelo Banco Master. Participaram como palestrantes os ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além de integrantes do STJ e do governo federal.
Segundo o relatório, mensagens indicam que Moraes sugeriu palestrantes, aprovou textos, orientou a estrutura do encontro e vetou convidados. Uma integrante da organização afirmou ter seguido as recomendações enviadas pelo ministro. Os registros apontam ainda que ele reclamou do destaque dado ao governador Tarcísio de Freitas e da eventual participação de Antonio Rueda, presidente da federação União Brasil-PP. Em diálogo de 18 de abril de 2024, Fábio Faria e Vorcaro discutem a exclusão de um participante, e o banqueiro atribui a decisão ao ministro.
As menções a Paulo Gonet e Andrei Rodrigues
O relatório cita o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, mas não atribui prática criminosa a nenhum dos dois, e não há investigação formal aberta contra eles no contexto da operação.
A PF informou não ter encontrado no celular de Vorcaro um contato salvo com o nome de Paulo Gonet. As referências ao procurador-geral aparecem sobretudo em conversas entre o banqueiro e o advogado Ciro Soares, que atuava como intermediário. Em 29 de março de 2025, Soares escreveu a Vorcaro: "Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres". O banqueiro respondeu: "Óbvio né". Segundo o relatório, Vorcaro autorizou o custeio das despesas de Pedro Gonet, filho do procurador-geral, e do próprio Ciro Soares para o evento em Londres. Há ainda mensagens em que Gonet pede a Soares que transmita cumprimentos pessoais ao banqueiro.
Em outro conjunto de diálogos, de 19 de março de 2025, Vorcaro afirma ao ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza que estava com Moraes e que o ministro "vai chamar o Paulo pra dar um aperto".
Quanto a Andrei Rodrigues, os pedidos de Vorcaro para que fosse "sensibilizado" partem do próprio banqueiro. Não há, no material tornado público, indicação de que o diretor-geral da PF ou o procurador-geral tenham realizado qualquer das intervenções solicitadas.
Como o caso chegou ao plenário do STF
Em 24 de agosto de 2026, André Mendonça determinou que a Polícia Federal identificasse os destinatários e demais pessoas mencionadas nas mensagens de Vorcaro, incluindo eventuais autoridades com foro por prerrogativa de função. O despacho se apoiava na hipótese, levantada pela própria PF, de que o banqueiro teria montado uma "rede de monitoramento e influência, com potencial infiltração nas mais elevadas instâncias de diversas instituições da República".
A PF entregou o relatório em 27 de agosto. Mendonça determinou o desentranhamento do material dos autos originais (PET 15.556) e sua autuação como processo autônomo, a Petição 16.662. Em 30 de agosto, comunicou o teor da decisão ao presidente do STF, Edson Fachin. Em 1º de setembro, abriu vista à PGR pelo prazo de cinco dias e levantou o sigilo dos autos, invocando a publicidade dos atos judiciais prevista nos artigos 5º, LX, e 93, IX, da Constituição.
Na mesma decisão, o relator afirmou que, "independentemente de qual venha a ser a manifestação exarada pela douta Procuradoria-Geral da República, o caminho inevitável dos presentes autos leva ao Plenário deste Supremo Tribunal Federal". Determinou que a deliberação ocorra "de forma pública e transparente, em sessão presencial do Colegiado", em data a ser definida por Fachin. Até o momento, a sessão não foi pautada.
Caberá ao plenário decidir se autoriza a abertura de investigação formal, se determina novas diligências ou se arquiva o material.
O pedido de nulidade da PGR
Na noite de 1º de setembro de 2026, Paulo Gonet apresentou manifestação de oito páginas pedindo a nulidade da ordem de Mendonça, a invalidação do relatório dela decorrente e a extinção da Petição 16.662.
O procurador-geral sustenta uma "dupla nulidade". A primeira: um magistrado não pode determinar, sem provocação do Ministério Público ou iniciativa da autoridade policial, a investigação de pessoas específicas. "Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais", escreveu. A segunda: a investigação de um ministro do STF depende de autorização prévia do plenário da Corte, e Mendonça deveria ter encaminhado a questão ao presidente do tribunal.
Gonet argumenta ainda que o relator sabia, ao dar a ordem em 24 de agosto, que entre as pessoas mencionadas havia autoridades com foro por prerrogativa de função, incluindo Moraes: "Não poderia deixar de o saber". E que o resultado prático foi uma investigação sobre um colega de Corte, ocupando quase 190 das 218 páginas do relatório policial.
A manifestação não discute o conteúdo das mensagens, apenas o rito. Gonet é ele próprio citado no relatório.
O que dizem os citados
Alexandre de Moraes não se manifestou publicamente sobre o relatório tornado público em 1º de setembro de 2026. Em março de 2026, ao comentar outro conjunto de mensagens atribuído a ele, o ministro afirmou não ter recebido os conteúdos divulgados e classificou a associação de seu nome aos diálogos como uma "ilação mentirosa" destinada a atacar o Supremo.
Escritório Barci de Moraes afirma que não houve irregularidade nem conflito de interesses, que o compliance consultou previamente o ministro sobre impedimentos e que Moraes nunca julgou causa envolvendo o Banco Master. Sobre os cartões, diz que foram oferecidos pelo banco e nunca utilizados.
Procuradoria-Geral da República sustenta que a ordem e o relatório são nulos e pede a extinção do processo.
Fábio Faria afirma ter apenas sugerido o escritório para um caso na Justiça de São Paulo, sem conhecer os valores contratados.
Defesa de Daniel Vorcaro informou que não vai se posicionar.
Andrei Rodrigues e Paulo Gonet não se manifestaram sobre as menções feitas por Vorcaro nas mensagens.
Repercussão
A divulgação provocou reação imediata no Congresso e na campanha presidencial de 2026. Senadores e deputados da oposição protocolaram novos pedidos de impeachment contra Moraes — o caso é o 54º pedido apresentado especificamente contra o ministro, entre os 109 que tramitam no Senado contra integrantes do STF. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, classificou o volume como fora do normal, evitou comentar o conteúdo das mensagens e sinalizou a aliados que não pretende pautar o processo.
A oposição também protocolou notícia-crime na PGR pedindo a investigação de Moraes e de Andrei Rodrigues, e enviou ofício a Fachin. O senador Carlos Viana apresentou requerimento para convocar o ministro a prestar esclarecimentos no plenário do Senado.
Entre os presidenciáveis, Flávio Bolsonaro defendeu a renúncia do ministro; Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Renan Santos também se manifestaram. O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai, classificou o caso como grave e afirmou que as relações do senador Flávio Bolsonaro com Vorcaro igualmente precisam ser investigadas.
O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil divulgou nota exigindo apuração rigorosa e isenta, com observância do devido processo legal, da ampla defesa e da presunção de inocência.
Entre juristas, o ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr. avaliou que os diálogos revelam "uma promiscuidade entre poderosos e o poder" e podem configurar advocacia administrativa. O jurista e ex-desembargador Walter Maierovitch levantou a hipótese de afastamento cautelar do ministro enquanto os fatos são apurados.
Dentro do STF, a divulgação abriu disputa sobre a validade da prova e sobre a condução do caso. Uma ala próxima a Moraes avalia que o relatório pode ser declarado nulo por ter sido produzido sem autorização prévia do plenário; interlocutores de Mendonça sustentam que a PF apenas identificou o destinatário de mensagens já existentes nos autos, o que não configuraria ato de investigação.
O contexto: Operação Compliance Zero
A Operação Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025 para apurar suspeitas de fraude em operações de cessão de carteiras de crédito entre o Banco Master e o BRB, estimadas em cerca de R$ 12 bilhões. As investigações apontam emissão de títulos de crédito sem lastro real, manipulação de ativos e uso de documentos falsos para inflar artificialmente o valuation da instituição.
Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar para Dubai. O Banco Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central dias depois, em novembro de 2025, gerando rombo bilionário ao Fundo Garantidor de Créditos. A operação chegou a dez fases, e André Mendonça é o relator no STF.
O que ainda não se sabe
Três limites do material tornado público em 1º de setembro de 2026:
- Não se conhece o lado de Moraes. A perícia recuperou apenas as mensagens enviadas por Vorcaro. O relatório registra que houve respostas, mas o celular do ministro não foi periciado e o conteúdo delas permanece desconhecido.
- Não há demonstração de que os pedidos foram atendidos. Os documentos não indicam que Andrei Rodrigues ou Paulo Gonet tenham realizado qualquer das intervenções solicitadas pelo banqueiro.
- A validade da prova está em disputa. Se o plenário do STF acolher o pedido de nulidade da PGR, o relatório e os elementos dele derivados perdem valor para embasar atos processuais, independentemente do que digam as mensagens.
Parte das mensagens é atribuída diretamente ao ministro pela PF; em outros trechos, a corporação afirma apenas suspeitar que ele seria o interlocutor.
Perguntas frequentes
O que Vorcaro pediu a Alexandre de Moraes? Que intercedesse junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para conter ou adiar medidas contra o Banco Master; e informações sobre o andamento das investigações, incluindo se deveria deixar o país.
Alexandre de Moraes respondeu às mensagens? Segundo o relatório, sim, usando o mesmo método de visualização única. O conteúdo das respostas não foi recuperado porque o celular do ministro não foi periciado.
Como a PF conseguiu ler mensagens de visualização única? Cruzando o bloco de notas onde os textos eram escritos, as capturas de tela armazenadas no aparelho e o registro de uso do aplicativo de mensagens logo após cada captura.
Alexandre de Moraes está sendo investigado? Não formalmente. A retirada do sigilo não abre inquérito. Cabe ao plenário do STF decidir se autoriza a investigação, e a data da sessão ainda não foi definida.
Qual é o valor do contrato entre o Banco Master e o escritório da mulher de Moraes? R$ 131 milhões, assinado em janeiro de 2024, com parcelas mensais de cerca de R$ 3,6 milhões. Foram pagos R$ 80,2 milhões até a liquidação do banco. Há ainda uma proposta posterior, de R$ 50 milhões, cujo pagamento seria feito em parte com cotas de aeronaves.
Quem apresentou Vorcaro a Alexandre de Moraes? Segundo a revista piauí e o relatório da PF, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que compartilhou o contato do ministro com o banqueiro em 26 de dezembro de 2023 e articulou os primeiros encontros.
Quem é o relator do caso? O ministro André Mendonça, do STF, relator dos procedimentos derivados da Operação Compliance Zero. O processo específico sobre as mensagens é a Petição 16.662.
