A SpaceX protocolou seu pedido de oferta pública inicial (IPO) na Nasdaq em maio de 2026, buscando consolidar-se como um conglomerado que integra tecnologias espaciais, internet via satélite e inteligência artificial. A empresa, que agora engloba a xAI e a rede social X, busca capital para expandir sua infraestrutura de computação e quitar dívidas estratégicas. Sob o controle majoritário de Elon Musk, a operação é uma das maiores da história, refletindo a escala de seus negócios atuais.
Em 20 de maio de 2026, a Space Exploration Technologies Corp. (SpaceX) protocolou na SEC o formulário S-1, o prospecto preliminar que abre caminho para sua oferta pública inicial de ações (IPO). A empresa pediu listagem na Nasdaq e na Nasdaq Texas sob o código "SPCX". Por ser um documento preliminar, o preço por ação, o número de papéis ofertados e o valuation-alvo ainda não foram definidos — serão preenchidos em emenda posterior, antes do roadshow. A imprensa estima um valor de mercado entre US$ 1,5 trilhão e US$ 1,75 trilhão, o que tornaria a operação uma das maiores estreias em bolsa da história, superando o recorde da Saudi Aramco em 2019.
A SpaceX chega ao mercado como um conglomerado verticalmente integrado em três frentes: Space (foguetes Falcon e Starship), Connectivity (a rede de internet por satélite Starlink) e AI (a xAI, criadora do chatbot Grok, e a rede social X). É a primeira vez que a empresa, fundada em 2002, revela suas demonstrações financeiras detalhadas ao público.
O IPO ocorre logo após uma reorganização que concentrou os principais negócios de Elon Musk sob um único guarda-chuva. Em março de 2025, a xAI adquiriu a X Corp. (ex-Twitter), combinando inteligência artificial e rede social na holding X.AI Holdings Corp. Em fevereiro de 2026, a própria SpaceX adquiriu a xAI numa transação totalmente em ações, que avaliou a SpaceX em US$ 1 trilhão e a xAI em US$ 250 bilhões — um total de US$ 1,25 trilhão. Como o X já pertencia à xAI, ele entrou no pacote, e a SpaceX passou a consolidar os resultados das três empresas. Em maio de 2026, Musk anunciou que a xAI deixaria de existir como empresa separada, com Grok e X migrando para a divisão "SpaceXAI".
A fusão foi estruturada em duas etapas, via veículos em Nevada, mantendo a xAI/X como subsidiária integral separada. O desenho protege a SpaceX-mãe da dívida herdada do X (cerca de US$ 12 bilhões) e de passivos jurídicos, como investigações na Europa sobre conteúdo gerado pelo Grok.
A oferta é de ações Classe A, que dão um voto cada. A estrutura é de dupla classe: as ações Classe B conferem dez votos por ação e elegem a maioria do conselho. Com isso, Elon Musk mantém aproximadamente 85,1% do poder de voto combinado após o IPO, e a SpaceX se enquadra como "controlled company" nas regras da Nasdaq, dispensando exigências de governança como a maioria de conselheiros independentes. Musk acumulará os cargos de CEO, diretor de tecnologia (CTO) e presidente do conselho.
Os recursos captados serão destinados à expansão da infraestrutura de computação para IA, à infraestrutura e aos veículos de lançamento e às constelações de satélites. Parte obrigatória do uso é o abatimento do SpaceX Bridge Loan, empréstimo-ponte de US$ 20 bilhões contraído em março de 2026, que precisa ser pago com os proventos do IPO em até seis meses. As ações do fundador e de investidores relevantes ficam sujeitas a um lock-up de 366 dias, sem liberação antecipada. Os bancos coordenadores líderes são Goldman Sachs, Morgan Stanley, BofA Securities, Citigroup e J.P. Morgan, com o BTG Pactual entre os demais participantes. A empresa não pretende pagar dividendos no futuro previsível.
Em 2025, a SpaceX registrou receita consolidada de US$ 18,7 bilhões, alta de 33% sobre os US$ 14,0 bilhões de 2024 (US$ 10,4 bilhões em 2023). Apesar do crescimento, a empresa teve prejuízo líquido de US$ 4,9 bilhões em 2025, resultado puxado pela incorporação do segmento de IA, que sozinho perdeu US$ 6,4 bilhões no operacional. O déficit acumulado chegava a US$ 41,3 bilhões em março de 2026, com caixa de US$ 15,9 bilhões.
A Connectivity (Starlink) é o motor financeiro: gerou US$ 11,4 bilhões de receita em 2025 (crescimento de 50% ao ano) e EBITDA ajustado de US$ 7,2 bilhões. O número de assinantes Starlink chegou a 10,3 milhões, embora a receita média por usuário (ARPU) venha caindo — de US$ 99/mês em 2023 para US$ 66/mês no primeiro trimestre de 2026, reflexo da massificação em mercados emergentes. O segmento Space, com US$ 4,1 bilhões, cresce devagar porque a maior parte da capacidade de lançamento é consumida internamente para o próprio Starlink. O segmento AI soma US$ 3,2 bilhões, divididos entre publicidade do X (US$ 1,8 bilhão, estagnada) e a linha de Grok e infraestrutura (US$ 1,4 bilhão, em rápida expansão). Esse segmento ganhou um reforço relevante em maio de 2026, quando a SpaceX firmou acordos de serviços de nuvem com a Anthropic, criadora do chatbot Claude: a empresa de IA pagará US$ 1,25 bilhão por mês, até maio de 2029, por acesso à capacidade de computação dos clusters COLOSSUS e COLOSSUS II — cerca de US$ 15 bilhões anuais em regime cheio, várias vezes a receita atual do segmento de IA. O contrato pode ser rescindido por qualquer das partes com 90 dias de aviso e exemplifica a estratégia de "dupla monetização" da SpaceX, que vende capacidade ociosa de computação a terceiros, inclusive a concorrentes diretos de seu modelo Grok. A carteira de contratos (backlog) era de US$ 28,4 bilhões, e cerca de um quinto da receita de 2025 veio de um único cliente, o governo dos Estados Unidos.
Carregando comentários...