1. Como começou
Pesquisa fechada em 7 de maio de 2026. A greve está ativa nas três universidades, com foco em permanência estudantil e recomposição salarial. Estudantes da USP estão em greve desde 14 de abril. Na Unesp e Unicamp, assembleias ocorrem para decidir a adesão ao movimento, enquanto o Conselho de Reitores (Cruesp) se reúne em 11 de maio para discutir as pautas.
1.1 O estopim: a GACE
Em 31 de março de 2026, o Conselho Universitário (CO) da USP aprovou a GACE — Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas: pagamento mensal adicional de R$ 4.500,00, exclusivamente para docentes em regime de dedicação integral à docência e à pesquisa (RDIDP) que apresentassem projetos em áreas consideradas estratégicas pela reitoria, como oferta de disciplinas em inglês, ações de extensão e internacionalização. A exclusão dos servidores técnico-administrativos desencadeou a primeira greve da gestão Segurado-Bernucci.
1.2 Acúmulo de insatisfações
- Defasagem salarial: o Fórum das Seis calcula perda acumulada desde 2012, exigindo reajuste de 15,97%.
- Permanência estudantil: impasses sobre o valor do PAPFE na USP e dificuldades estruturais na Unesp e Unicamp (moradia, alimentação, transporte).
- Financiamento: incertezas sobre a receita de 9,57% do ICMS diante da reforma tributária e a inclusão de outras instituições no orçamento.
2. Quem está envolvido
- USP: Reitor Aluísio Segurado e vice Liedi Bernucci.
- Unicamp: Reitor Paulo Cesar Montagner.
- Unesp: Reitora Maysa Furlan (presidente do Cruesp em 2026).
- Atores externos: O governador Tarcísio de Freitas criticou o movimento, classificando-o como de "cunho político" e afirmando que "estudante tem que estudar".
3. Alvos da greve — unidades aderentes
3.1 USP — paralisação chegou a todas as 43 unidades; 105+ cursos parados
Capital (Butantã, Leste, Largo São Francisco, Quadrilátero da Saúde):
- FFLCH (Filosofia, Letras, Ciências Humanas) — uma das primeiras a aderir
- ECA (11 cursos)
- Escola Politécnica (Poli) — adesão histórica, votação 322 favoráveis × 224 contrários (17 cursos)
- Instituto de Física (IF — 3 cursos)
- Instituto de Química (IQ)
- Instituto de Psicologia (IP)
- Instituto de Geociências (IGc) e Oceanografia (IO)
- Instituto de Relações Internacionais (IRI)
- Instituto de Ciências Biomédicas (ICB)
- IME — Matemática e Estatística (6 cursos)
- Instituto de Biociências
- Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF)
- Faculdade de Educação (FE) — Pedagogia
- Escola de Enfermagem (EE), Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Fisioterapia
- FAU — Arquitetura, Urbanismo e Design
- EACH (11 cursos da zona leste)
Interior: USP São Carlos (23 cursos); Ribeirão Preto (Psicologia, Biologia, Biblioteconomia, Pedagogia, Direito, Enfermagem, Ciências Biomédicas, Química, Física Médica, Matemática Aplicada a Negócios, Educação Física, Terapia Ocupacional); campi de Piracicaba, Bauru e Lorena também aderiram.
Adesão da FEA (Economia/Administração) não confirmada nas fontes; em deliberação. (Fonte: Metrópoles — https://www.metropoles.com/sao-paulo/greve-usp-104-cursos-parados)
3.2 USP — unidades que CRITICARAM a ocupação da reitoria (7/5)
- FMUSP (Faculdade de Medicina): divergências precisam ser "conduzidas por meio do debate institucional".
- FD/Largo São Francisco (Faculdade de Direito): reconheceu direito ao protesto, mas: "nenhuma reivindicação, por mais relevante que seja, autoriza práticas de violência, intimidação e vandalismo".
- Outras unidades também se manifestaram contra a forma (ocupação), mas não contra as pautas.
Reviravolta após a desocupação violenta (10/5): parte das unidades que criticaram a ocupação passou a criticar a ação policial; algumas que tinham desmobilizado reconsideraram a retomada da greve.
3.3 Posição dos docentes (Adusp)
- Em 10 de maio, assembleia votou por suspender a paralisação docente, mas reafirmou apoio às demandas estudantis.
- Aprovou continuação da mobilização via campanhas, divulgação de dados sobre perdas de docentes, carta à reitoria sobre políticas de contratação.
3.4 Unicamp — 16 dos 69 cursos em greve (11/5)
Aderiram: Arquitetura e Urbanismo, Biologia, Artes Cênicas, Engenharia de Alimentos e outros 12. Em deliberação: Humanidades, Medicina, Pedagogia, Economia. Reitoria afirma: "não há greve na Unicamp; negociações com entidades estudantis seguem normalmente." (Fonte: Diário do Grande ABC — https://www.dgabc.com.br/Noticia/4318609/)
3.5 Unesp
- Estado de mobilização e paralisação estadual aprovados.
- Campus de Rio Claro: greve em 3 cursos (Geografia, Física, Educação Física), impactando mais de 600 estudantes. Assembleia em 12/5 decide greve total do campus.
- Instituto de Artes (São Paulo) declarou greve.
- Apenas 10 campi da Unesp possuem restaurantes universitários subsidiados; 6 campi têm cafeterias com ~5.000 refeições/dia (insuficientes).
4. Pautas e reivindicações
- USP: Aumento do PAPFE, melhoria nos restaurantes universitários e moradia estudantil.
- Unesp: Ampliação de políticas de permanência, contratação de docentes e melhoria da infraestrutura (restaurantes e moradia).
- Unicamp: Contratação de docentes e servidores, moradia digna, acessibilidade, reformas estruturais e recomposição salarial.
5. Argumentos das reitorias / CRUESP
5.1 Posição financeira oficial
- O repasse atual é de 9,57% do ICMS (Lei Estadual; consolidado desde 1989), dividido USP/Unicamp/Unesp.
- Reforma tributária ameaça reduzir essa base com a substituição do ICMS pelo IBS até 2033. (Fonte: Adusp — https://adusp.org.br/universidade/icmsibs-estaduais/)
- LDO 2025 e 2026 do governo Tarcísio incluiu Univesp/Famema/Famerp dentro do bolo dos 9,57%, diluindo a fatia das três estaduais. (Fonte: Adusp — https://adusp.org.br/financiamento/ldo-2025/)
- CRUESP justifica oferta de 3,47% pelo "equilíbrio orçamentário-financeiro" e pelo IPC-Fipe acumulado maio/25–abril/26.
5.2 Argumentos políticos do reitor da USP (Segurado)
Em 8 de maio, Segurado declarou que:
- A oferta de R$ 912 ao PAPFE é "proposta final".
- "Não reconheço erro." Defendeu a GACE.
- A USP já investe R$ 460 milhões/ano em apoio estudantil.
- Vê "agenda política" na greve (bandeiras partidárias, manifestação anti-Tarcísio prevista para 20/5).
- Lamentou ver "encapuzados" na primeira invasão da reitoria desde 2013. (Fonte: Acessa/Folha — https://www.acessa.com/noticias/2026/05/324054-reitor-da-usp-rechaca-nova-negociacao-com-estudantes-nega-erros-e-ve-agenda-politica-na-greve.html)
5.3 Reitor Montagner (Unicamp)
Defendeu a autarquização da saúde como "essencial para o futuro da universidade", citando custos de saúde de ~R$ 1,1 bilhão em 2025.
6. Linha do tempo PRÉ-greve
- Dezembro/2025 — Consu da Unicamp aprova autarquização da área de saúde.
- Janeiro/2026 — Posse de Segurado/Bernucci na USP (mandato 2026–2030).
- Janeiro–março/2026 — Fórum das Seis cobra reuniões técnicas do CRUESP; CRUESP demora a agendar.
- Março/2026 — COP da USP elabora minuta que retira autonomia dos centros acadêmicos sobre espaços.
- 25 de março — Sintusp denuncia proposta da GACE (apenas docentes).
- 31 de março — CO da USP aprova a GACE (R$ 4.500/mês só para docentes). Estopim da greve.
- 7 de abril — Nota conjunta de 75 entidades estudantis contra a minuta da COP.
- 9 de abril — Assembleia do Sintusp aprova greve a partir de 14/4.
- 10 de abril — Fiscalizações sanitárias nos bandejões da USP.
- 13 de abril — Adusp publica nota de apoio.
- 14 de abril (terça) — INÍCIO DA GREVE dos servidores e paralisação estudantil (USP). 105+ cursos deliberam paralisação no 1º dia.
- 15 de abril (quarta) — Assembleia no Vão da FFLCH: DCE-Livre decreta greve unificada por tempo indeterminado.
- 16 de abril — Greve estudantil chega a 15 faculdades e institutos; Fórum das Seis anuncia que protocolará Pauta Unificada.
- 17 de abril — USP apresenta primeira proposta para encerrar greve dos funcionários.
- Meados de abril — Reitoria revoga a minuta da COP.
- 22 de abril — Pauta Unificada 2026 protocolada no CRUESP.
- 23 de abril — Reitoria e Sintusp assinam acordo; marcha estudantil USP → Faria Lima.
- 24–25 de abril — Fim da greve dos funcionários; estudantes ampliam a greve com pautas próprias de permanência.
- 28 de abril — Reunião de quase 6h reitoria × estudantes (5 administradores + 24 delegados). Reitoria apresenta propostas (PAPFE R$ 912, 7 GTs, BUSP). Estudantes consideram insuficientes.
- 29 de abril — Fórum das Seis protocola Pauta Unificada formal junto ao CRUESP.
7. Linha do tempo PÓS-deflagração (maio 2026)
Fase 3 — Ruptura das negociações
- 4 de maio (segunda) — Reunião do CRUESP: proposta de reajuste de 3,47% para servidores e docentes (IPC-FIPE). Ato/vigília do Fórum das Seis. Reitoria da USP declara encerradas as negociações com estudantes; PAPFE de R$ 912 vira "proposta final".
- 5 de maio (terça) — Unesp declara estado de mobilização e paralisação estadual. Segurado endurece posição ("motivação política"). Pró-Reitoria de Graduação veta alteração do calendário.
- 6 de maio (quarta) — Assembleia geral do DCE-USP aprova ocupar a reitoria. Estudantes da Unesp e Unicamp debatem adesão.
Fase 4 — Ocupação e desocupação da reitoria
- 7 de maio (quarta) — Estudantes ocupam o prédio da reitoria da USP no Butantã. Manifestantes derrubam portão de metal e duas portas de vidro. ~150 pessoas no saguão. DCE classifica como ocupação pacífica; forma-se "cordão humano" bloqueando acesso. Na Unicamp: assembleia com mais de mil estudantes aprova indicativo de greve geral; 16/69 cursos aderem nos dias seguintes.
- 8 de maio (quinta) — Manifestantes mantêm a ocupação. FMUSP e FD/Largo São Francisco emitem notas contra a ocupação. Segurado dá entrevista rejeitando renegociação.
- 9 de maio (sexta) — PM cerca a reitoria; corte de água e luz no prédio ocupado. USP aciona forças de segurança.
- 10 de maio (sábado/domingo, ~4h15 da madrugada) — PM desocupa a reitoria sem ordem judicial de reintegração de posse.
- ~50 policiais militares + Tropa de Choque
- Uso de bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e cassetetes
- Operação enquanto ocupantes dormiam; formação de "corredor polonês" na saída
- 6 feridos transportados ao pronto-socorro do Rio Pequeno (2 liberados, 4 hospitalizados, 1 com fratura no nariz). PM nega feridos.
- 4 estudantes detidos, levados ao 7º DP, liberados após procedimento por dano ao patrimônio e invasão
- PM alega ter apreendido drogas, facas, estiletes, lâminas e bastões
- DCE questiona legalidade (sem ordem judicial; vedação a ações entre 21h e 5h)
- USP declara não ter sido comunicada previamente; "lamenta os acontecimentos"
- Fórum das Seis e CSP-Conlutas emitem notas de repúdio
- CartaCapital publica: "Parecia cena de ditadura: PM agride estudantes em ocupação da reitoria da USP"
- Adusp (em assembleia no mesmo dia): suspende paralisação docente, mas mantém apoio
(Fontes: Poder360 — https://www.poder360.com.br/poder-brasil/pm-usa-gas-para-retirar-estudantes-da-reitoria-da-usp/ ; CNN Brasil — https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/policia-militar-usa-bombas-e-gas-para-desocupar-reitoria-da-usp/ ; Agência Brasil — https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2026-05/policia-militar-desocupa-estudantes-da-reitoria-da-usp ; Nota oficial USP — https://jornal.usp.br/comunicados/nota-sobre-processo-de-reintegracao-de-posse-do-predio-da-reitoria/)
Fase 5 — Ampliação do movimento
- 11 de maio (segunda — HOJE):
- Ato unificado USP+Unicamp+Unesp na Praça da República, em frente à sede do CRUESP/Reitoria da Unesp, durante a 2ª reunião CRUESP × Fórum das Seis (14h).
- Confronto com bolsonaristas: vereador Adrilles Jorge e influencer Robson Fuinha chegam ao ato e filmam estudantes. Trocas: "vai trabalhar" × "Eu que pago a universidade de vocês". Empurrões. PM lança bombas de gás lacrimogêneo para separar grupos; gás atinge estudantes. (Fonte: Poder360 — https://www.poder360.com.br/poder-educacao/grevistas-de-unesp-usp-e-unicamp-tem-confronto-com-bolsonaristas/)
- Centrais sindicais (CUT, CTB e outras) emitem nota de apoio à greve da USP.
- Unicamp: 16/69 cursos em greve. Unesp: mobilização em múltiplos campi (Rio Claro com 3 cursos parados).
- 12 de maio — Assembleia Unesp Rio Claro decide greve total do campus.
- 20 de maio — Manifestação programada contra o governo Tarcísio.
8. Observações e ressalvas
- Reitores citados em outros materiais estão desatualizados: Carlotti Jr. saiu da USP em janeiro/26 (substituído por Aluísio Segurado); Antonio Meirelles saiu da Unicamp em abril/25 (substituído por Paulo Cesar Montagner).
- A vinculação dos 9,57% do ICMS às estaduais paulistas é norma estadual, consolidada nos anos 1980, em debate agora no contexto da reforma tributária IBS.
- Greve docente (Adusp/Adunicamp/Adunesp): NÃO há greve docente declarada até 11/5. As entidades aprovaram indicativos e apoiam a campanha salarial unificada, mas o movimento docente está em fase de assembleias.
- Greve dos servidores da USP: ENCERRADA em 24/4 com acordo. O que segue é (a) campanha salarial 2026 do Fórum das Seis e (b) greve estudantil.
- Greve estudantil: ativa em USP (forte, 100+ cursos), em expansão na Unicamp (16/69) e Unesp (capilarizada por campus).
Fontes principais
Sindicatos e associações
- Adusp: https://adusp.org.br/ — greve-sintusp, f6-pauta-2, icmsibs-estaduais, ldo-2025
- Sintusp: https://www.sintusp.org.br/
- Adunesp: https://adunesp.org.br/
- ADunicamp: https://www.adunicamp.org.br/
Universidades
- Jornal da USP: https://jornal.usp.br/
- Jornal do Campus: https://www.jornaldocampus.usp.br/
- Portal Unicamp: https://unicamp.br/
- Faculdade de Direito da USP: https://direito.usp.br/
Imprensa
- Agência Brasil: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/
- Brasil de Fato: https://www.brasildefato.com.br/
- CNN Brasil: https://www.cnnbrasil.com.br/
- Poder360: https://www.poder360.com.br/
- Metrópoles: https://www.metropoles.com/sao-paulo/
- CartaCapital: https://www.cartacapital.com.br/educacao/
- Diário do Grande ABC: https://www.dgabc.com.br/
- SBT News, Revista Oeste, ISTOÉ, Band, Correio Braziliense, JC Rio Claro
Apoios externos
- CSP-Conlutas: https://cspconlutas.org.br/
- ANDES-SN: https://www.andes.org.br/
- CTB: https://www.ctb.org.br/
Notícias relacionadas
Estudantes da Unicamp e Unesp mantêm greve após fim de paralisação na USP
11 de jun, 2026
Estudantes encerram greve na USP após quase dois meses
9 de jun, 2026
Estudantes da USP aprovam recomendação para fim de greve
9 de jun, 2026
Tarcísio reconhece demandas de grevistas da USP, mas cita autonomia
27 de mai, 2026
Professores da USP entram em greve por reajuste e apoio a estudantes
25 de mai, 2026
