Estimativas atuais
O El Niño 2026-2027 é o ciclo quente do ENSO (El Niño-Oscilação Sul) — a oscilação acoplada oceano-atmosfera que mais influencia o clima brasileiro fora dos sistemas locais — agora oficialmente declarado. Em 11 de junho de 2026 a NOAA elevou o status para El Niño Advisory, confirmando que as condições já estão presentes no Pacífico equatorial após meses de transição a partir da La Niña 2025-26. Esta página reúne as estimativas atuais das principais agências, o calendário oficial de boletins, os métodos de previsão e uma explicação da mecânica do fenômeno para quem não é meteorologista.
Em agosto de 2026 os centros operacionais já não discutem se o evento ocorre, nem apenas quão forte ele será: o cenário central passou a ser o de um El Niño muito forte, com pico previsto entre outubro e dezembro de 2026 e persistência até o início de 2027 — e, na leitura mais recente da NOAA, com chance majoritária de o evento ser o mais intenso já registrado desde 1950.
NOAA / Climate Prediction Center (CPC) — discussão de 13/agosto/2026 (El Niño Advisory, leitura mais recente):
- Status mantido em El Niño Advisory, com o comunicado descrevendo um fenômeno em intensificação.
- Índice mensal de julho/2026 em Niño-3.4: +1,4°C.
- Mais de 90% de chance de um evento "muito forte" durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026-27 (primavera e verão no Brasil) — acima dos 81% da discussão anterior.
- 69% de chance de um evento histórico entre outubro e dezembro de 2026, isto é, que ultrapasse todos os El Niños registrados desde 1950, com +2,5°C ou mais no índice RONI trimestral (a versão "relativa" do ONI, que desconta a tendência de aquecimento de fundo do Pacífico tropical).
- Probabilidades intermediárias reproduzidas pelos centros regionais a partir da mesma discussão: 93% de anomalia acima de +2,0°C entre setembro e outubro e 95% entre outubro e dezembro.
- A NOAA não emite previsão específica de impactos em território brasileiro — a tradução regional cabe a INMET, CPTEC/INPE e centros estaduais.
NOAA / Climate Prediction Center (CPC) — discussão de 9/julho/2026 (leitura anterior):
- Status do alerta: El Niño Advisory — condições presentes, mantido desde o upgrade de "Watch" para "Advisory" em 11 de junho de 2026, o primeiro El Niño em cerca de dois anos.
- Anomalia semanal de TSM em Niño-3.4 na data da discussão: +1,2°C — acima do limiar de +0,5°C e em trajetória de intensificação rápida (em 11/jun o índice estava em +0,7°C).
- 81% de chance de um El Niño "muito forte" em outubro-dezembro de 2026 — categoria oficial mais alta, que colocaria o evento entre os maiores do registro histórico desde 1950.
- 97% de chance de o evento persistir até o início da primavera do Hemisfério Norte de 2027 (outono no Brasil).
- O acoplamento oceano-atmosfera está estabelecido, sustentando a intensificação até o fim do ano.
IRI / Columbia (CCSR/IRI ENSO plume) — Quick Look de 20/julho/2026:
| Trimestre | El Niño |
|---|---|
| Jul-Set 2026 a Jan-Mar 2027 | 100% |
| Fev-Abr 2027 | 99% |
| Mar-Mai 2027 | 94% |
O plume de julho levou as probabilidades a 100% para toda a janela JAS/2026-JFM/2027, e o índice Niño 3.4 observado chegou a +2,1°C em meados de julho de 2026. O consenso dos modelos aponta pico em outubro-dezembro de 2026, com 23 de 26 modelos prevendo um El Niño muito forte (Niño 3.4 ≥ +2,0°C) nesse trimestre, e enfraquecimento gradual ao longo da primavera de 2027 (Hemisfério Norte). O IRI já havia destacado que o conteúdo de calor oceânico está mais que o dobro do observado no mesmo período de 2023 — referência ao último El Niño forte.
OMM (Organização Meteorológica Mundial) — atualização de 24/abril/2026:
- "Alta confiança" no início do El Niño e intensificação subsequente, já a partir de maio-julho/2026.
- Previsão de domínio quase global de temperaturas terrestres acima da média no próximo trimestre.
- Impactos típicos citados: aumento de chuvas em partes do sul da América do Sul (inclui sul do Brasil), sul dos EUA, Chifre da África e Ásia Central; seca em outras regiões.
- Próxima atualização prevista para julho/2026.
CPTEC/INPE + INMET + Funceme + CENSIPAM — nota técnica conjunta de maio/2026 + confirmação de junho:
- Após a declaração da NOAA em 11/jun, INMET publicou "El Niño está de volta" e a Defesa Civil de SC emitiu nota meteorológica confirmando o início do fenômeno.
- Em maio/2026 as anomalias no Pacífico equatorial avançaram para acima do limiar de El Niño, com propagação de ondas de Kelvin subsuperficiais carregando águas significativamente mais quentes em direção à costa sul-americana.
- Trimestre JJA/2026: 79% de probabilidade de El Niño (cenário oficial de maio; modelos internacionais já superavam 95%). Fenômeno atuando inicialmente com fraca intensidade, mas com intensificação esperada ao longo dos meses seguintes.
- JAS/2026: >80%.
- ASO/2026 em diante: ≥90%, com persistência prevista até o ano seguinte.
- Intensidade moderada-a-forte considerada provável dado o alto conteúdo de calor subsuperficial.
INMET — posição atualizada (monitoramento El Niño 2026):
- O INMET registra um padrão típico de El Niño, com águas mais de 2°C acima da média no Pacífico equatorial junto à costa da América do Sul.
- Acima de 90% de probabilidade de o fenômeno se manter até pelo menos o início de 2027.
- Os modelos indicam El Niño "muito forte" como cenário provável, com anomalias de TSM ultrapassando +2,0°C durante a primavera e o verão de 2026/27.
- Prognóstico para o trimestre JAS/2026: chuvas acima da média em áreas do Sul e abaixo da média no centro-norte do país; alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, com aumento de ondas de calor e de ocorrência de incêndios florestais.
- O instituto atualiza os boletins mensalmente para acompanhar impactos agrícolas, níveis de rios e reservatórios e risco de enchentes e deslizamentos.
O que significa "El Niño"
O nome não é técnico e não foi cunhado por meteorologistas. "El Niño" significa "o menino" em espanhol — e, na designação completa usada originalmente, "El Niño de Navidad", o Menino de Natal, em referência ao Menino Jesus. Foram pescadores sul-americanos que, ainda no século XVII, notaram que em alguns anos as águas da costa do Peru e do Equador ficavam anormalmente quentes por volta de dezembro, atrapalhando a pesca; como o aquecimento costumava atingir o auge perto do Natal, o apelido pegou. A fase oposta e fria do mesmo ciclo recebeu depois o nome espelhado de "La Niña" — "a menina" —, também chamada de El Viejo, anti-El Niño ou simplesmente "evento frio".
O termo científico que engloba as duas fases é ENSO (El Niño-Southern Oscillation), em português ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que junta o componente oceânico (o aquecimento ou resfriamento das águas) ao componente atmosférico (a Oscilação Sul, a gangorra de pressão entre o Pacífico ocidental e oriental).
Mecânica do fenômeno
O El Niño é uma anomalia recorrente no acoplamento entre o oceano Pacífico equatorial e a atmosfera tropical. Em condições neutras, os ventos alíseos (trade winds) sopram persistentemente de leste para oeste no equador, empurrando a água superficial quente em direção à Indonésia e à Austrália. Isso produz três efeitos encadeados:
- Acúmulo de água quente no Pacífico ocidental — o nível do mar fica até meio metro mais alto na Indonésia que no Peru, e a camada de água morna (acima da termoclina) chega a ~140 m de profundidade no oeste contra ~30 m no leste.
- Ressurgência (upwelling) no Pacífico leste — perto da costa do Peru, a água que é empurrada para o oeste é reposta por água fria vindo das profundezas, sustentando a famosa pesca peruana e mantendo a região com clima seco.
- Circulação de Walker — no ar, forma-se uma célula de circulação leste-oeste: ar úmido sobe sobre a Indonésia (chove muito), viaja em altitude para o leste e desce seco sobre o Pacífico oriental e a costa oeste sul-americana.
O que destrava o El Niño: quando os alíseos enfraquecem (ou ocorrem rajadas de oeste — "westerly wind bursts" — como as observadas no início de 2026), a barragem de água quente acumulada no oeste se rompe e essa água viaja para o leste em pulsos chamados ondas de Kelvin equatoriais. Essas ondas se propagam abaixo da superfície a ~2,5 m/s e levam cerca de dois meses para atravessar o Pacífico, aprofundando a termoclina no leste e suprimindo a ressurgência. A superfície aquece, a convecção (chuva) migra para o Pacífico central/leste, a circulação de Walker enfraquece — o que enfraquece ainda mais os alíseos. Esse círculo é o feedback de Bjerknes, o motor positivo que transforma uma anomalia inicial em um El Niño maduro.
Como se mede: a métrica oficial é o ONI (Oceanic Niño Index) — média móvel de 3 meses das anomalias de TSM na região Niño 3.4 (5°N-5°S, 170°W-120°W). Episódio de El Niño é declarado quando o ONI fica ≥ +0,5°C por cinco trimestres consecutivos sobrepostos; ≥ +1,5°C é considerado forte; ≥ +2,0°C é "super El Niño" (categoria informal). A anomalia observada em Niño 3.4 subiu rápido ao longo de 2026: +0,7°C em 11/junho, +1,2°C na discussão de 9/julho e +2,1°C em meados de julho — ou seja, já no patamar de "super El Niño" em leitura semanal, ainda que a confirmação formal do ONI dependa da média móvel trimestral ao longo dos próximos meses.
E a La Niña? É a fase oposta do mesmo ciclo. Pelo critério da NOAA, declara-se La Niña quando a TSM média na região Niño 3.4 fica pelo menos 0,5°C abaixo da média por cinco trimestres consecutivos sobrepostos, acompanhada de alíseos mais fortes e mais nebulosidade sobre a Indonésia — o espelho exato das condições de El Niño, em que os alíseos enfraquecem e a convecção migra para o Pacífico central. As duas são as fases quente e fria de um mesmo padrão natural do Pacífico tropical, o ENSO. O Brasil saiu de uma La Niña em 2025-26 justamente para o El Niño atual.
Métodos de previsão
As probabilidades publicadas combinam três famílias de modelos:
- Modelos dinâmicos acoplados (NCEP CFSv2, ECMWF SEAS5, UKMO GloSea, Météo-France, JMA CPS3, NASA GMAO, CMCC, BoM ACCESS-S) — resolvem numericamente as equações de oceano e atmosfera em conjunto, partindo do estado observado e gerando dezenas de simulações ("ensemble") com pequenas perturbações iniciais.
- Modelos estatísticos (CCA, análogos, redes neurais) — exploram padrões históricos de TSM, vento e calor subsuperficial.
- Persistência e julgamento humano (CPC) — meteorologistas avaliam consistência entre modelos, conteúdo de calor subsuperficial, atividade convectiva e ventos para definir o status oficial e ajustar probabilidades.
A IRI ENSO Plume consolida todos esses modelos, calcula a média multimodelo das anomalias de Niño 3.4 e aplica uma distribuição gaussiana cuja largura vem da habilidade histórica do conjunto para cada estação e cada lead time. O resultado é a tabela de probabilidades trimestrais La Niña/Neutro/El Niño.
A barreira de previsibilidade da primavera
Todas as previsões emitidas no outono do Hemisfério Norte (primavera/início de outono no Brasil) que atravessam abril-maio carregam um aviso explícito: a "spring predictability barrier". Nessa época do ano os gradientes de TSM no Pacífico equatorial são mais fracos, o acoplamento oceano-atmosfera é menos estável e os modelos perdem skill. Em junho de 2026 essa barreira já foi atravessada — o que explica o salto recente de confiança nas previsões, que agora se baseiam em sinal observado, não apenas em modelo, e culminaram na declaração oficial do evento em 11/jun.
Calendário oficial de divulgação
| Agência | Produto | Periodicidade | Próxima atualização |
|---|---|---|---|
| NOAA CPC | ENSO Diagnostic Discussion | Mensal, 2ª quinta-feira de cada mês | 10/setembro/2026 (última: 13/ago, Advisory mantido) |
| NOAA CPC | Weekly ENSO Update (PDF) | Semanal, segundas-feiras | semanal |
| IRI Columbia | ENSO Quick Look + Plume | Mensal, ~20 de cada mês | ~20/agosto/2026 (última: 20/jul) |
| OMM (WMO) | El Niño/La Niña Update | A cada 2-3 meses + ad hoc | a cada 2-3 meses |
| CPTEC/INPE | Boletim ENOS + nota técnica de previsão climática (MJJ, JJA, etc.) | Mensal | mensal |
| INMET | Prognóstico climático trimestral (com FUNCEME + INPE) | Mensal | mensal |
Para coberturas tempestivas, o CPC é o referencial: o status oficial ("Watch" / "Advisory" / "Final Advisory") só muda nessas discussões mensais. Em 11/junho/2026 o status foi elevado de "Watch" (condições favoráveis) para "Advisory" (condições já presentes), mantido nas discussões de 9/julho e 13/agosto/2026 — esta última consolidando o cenário de pico muito forte em outubro-dezembro e introduzindo a hipótese de evento histórico. O próximo gatilho relevante é a discussão de 10/setembro/2026.
Impactos típicos esperados no Brasil
Em El Niños moderados a fortes, o padrão observado historicamente é:
- Sul (RS, SC, PR): excesso de chuva na primavera (set-nov) e início de verão. Risco de encharcamento de solo, atraso de plantio de soja, doenças fúngicas em cereais de inverno (trigo principalmente na floração-enchimento de grãos), enchentes urbanas e quebra de qualidade da colheita.
- Nordeste (sertão e meio-norte): redução de chuvas na estação chuvosa (fev-mai/2027), agravando seca em áreas semiáridas e reduzindo vazões de reservatórios. Risco para safra de sequeiro e geração hidrelétrica do São Francisco.
- Norte (especialmente Amazônia central e oriental): estiagem mais severa entre jul-nov/2026, com risco de queda de nível dos rios (Solimões, Madeira, Negro), incêndios florestais e impacto na navegação fluvial. O El Niño de 2023-24 produziu seca histórica na Amazônia — referência recente do que pode se repetir.
- Centro-Oeste e Sudeste: sinal mais fraco e variável. Tendência de chuvas erráticas, com risco de atraso de plantio de soja no MT/GO e estresse hídrico em culturas de verão. Reservatórios do SE/CO podem ser pressionados.
- Temperatura: El Niño tende a empurrar a média global para cima. Combinado com o aquecimento de fundo, 2027 tem alta probabilidade de figurar entre os anos mais quentes já registrados.
A intensidade dos impactos depende da magnitude do El Niño (Niño 3.4 acima de +1,5°C amplifica o sinal) e da interação com outros modos climáticos — Dipolo do Atlântico Tropical, MJO (Madden-Julian) e ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul).
O que já está acontecendo (agosto de 2026)
Os impactos deixaram de ser projeção. Em agosto de 2026 o El Niño já se traduz em extremos simultâneos no Brasil:
- Calor atípico fora de estação. Ainda no inverno, as previsões apontam alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, com aumento de ondas de calor. No Centro-Oeste — especialmente Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal — a expectativa é de dias muito quentes com baixa umidade do ar.
- Seca e queimadas no centro-norte. No Norte e em parte do Nordeste a tendência é de chuva abaixo da média, com risco elevado de incêndios florestais.
- Ciclone extratropical no Sul. O INMET sinalizou a formação de um ciclone extratropical entre Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai no primeiro fim de semana de agosto, com rajadas de vento de até 95 km/h e chuvas intensas.
O contraste é a assinatura clássica de um El Niño forte sobre o Brasil: chuva em excesso no Sul e déficit hídrico no centro-norte, ao mesmo tempo.
Resposta do governo brasileiro
Em 29 de julho de 2026 o presidente Lula lançou o plano federal de prevenção e mitigação dos impactos do El Niño 2026/2027, com R$ 1,335 bilhão e uma força-tarefa envolvendo 24 ministérios.
- R$ 998 milhões para abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde pública e monitoramento hidrológico.
- R$ 337 milhões viabilizados pela Medida Provisória nº 1.367/2026, destinados a ações imediatas de fiscalização ambiental, aquisição de equipamentos e suporte logístico.
- R$ 521 milhões do Fundo Amazônia para equipamentos de prevenção e combate a incêndios na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.
- Reforço operacional: 16 veículos especiais de combate a incêndio, duas vilas operacionais, 19 helicópteros, 18 aviões para lançamento de água, uma aeronave de transporte de equipes e 4.410 brigadistas federais.
- No Sul, sistemas de alerta para chuvas intensas, atuação permanente da Defesa Civil e obras em barragens e diques em parceria com estados e municípios.
Setor elétrico: contenção de reservatórios
Em 5 de agosto de 2026 o CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) aprovou resolução determinando a "redução de defluências para preservação das cabeceiras dos reservatórios, visando à garantia de segurança hídrica futura do sistema" — na prática, as usinas liberam menos água pelas turbinas e geram menos energia agora para preservar estoque. O comitê trabalhou com 70% de probabilidade de o fenômeno se intensificar no segundo semestre e apontou as bacias do São Francisco, Tocantins e Paranapanema, além de medidas de suprimento de combustível para os sistemas isolados do Norte. O CMSE não informou a magnitude da redução, o cronograma nem quais usinas devem cumpri-la.
Desde junho o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) já operava em regime de poupança, com contenção no uso da água dos reservatórios de Itaipu e das hidrelétricas da região Sul — que sob El Niño recebem chuva acima da média — para compensar a seca esperada em outras regiões, além dos reservatórios estratégicos de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte no Norte.
Impacto global: fome e economia
Em 5 de agosto de 2026 o Programa Mundial de Alimentos (PMA/WFP), da ONU, publicou um relatório projetando que um El Niño muito forte pode empurrar quase 49 milhões de pessoas para a fome aguda até o fim de 2027 — elevando o total em 274 milhões de pessoas em 45 países vulneráveis, alta de cerca de 22% sobre a linha de base de aproximadamente 225 milhões.
- O PMA trabalha com 81% de probabilidade de o fenômeno se tornar muito forte, com temperaturas no Pacífico nos maiores níveis desde pelo menos 1982.
- Aumentos regionais projetados na insegurança alimentar aguda: América Central +83%, África Austral quase +75%. América do Sul, África Austral e Caribe devem somar, cada uma, mais de 12 milhões de pessoas adicionais.
- Segundo Jean-Martin Bauer, diretor do Serviço de Análise de Segurança Alimentar e Nutrição do PMA, trata-se de "eventos que, no passado, desencadearam fomes em larga escala".
No plano econômico, o fenômeno vem sendo tratado como risco macro: a instabilidade na oferta de commodities agrícolas pressiona a inflação de alimentos em escala mundial, com efeito direto sobre decisões de política monetária e sobre a balança comercial de países exportadores como o Brasil.
Preços de commodities e inflação de alimentos
O canal econômico mais direto do El Niño sobre o bolso do brasileiro é o preço da comida, e ele já se move nos mercados internacionais antes de qualquer quebra de safra confirmada.
No Brasil. Estudo da consultoria MB Associados divulgado em 8 de agosto de 2026 projeta efeitos ainda limitados em 2026, mas uma inflação da alimentação no domicílio entre 7,5% e 9,5% em 2027, com pico de até 11% entre agosto e novembro daquele ano. O impacto estimado sobre o IPCA cheio chega a 0,9 ponto percentual em 2027. Segundo Sergio Vale, economista-chefe da consultoria, arroz e feijão devem liderar as altas — o feijão por causa da queda de produção em 2026, o arroz por ainda carregar o efeito das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, principal estado produtor — e o milho pressiona indiretamente as proteínas animais.
O primeiro efeito mensurável já aparece na estatística oficial de safra. No LSPA divulgado pelo IBGE em 13 de agosto de 2026, a produção nacional de trigo foi estimada em 6,4 milhões de toneladas, queda de 4,3% sobre o levantamento do mês anterior e de 18,6% em relação a 2025. A retração vem principalmente da área plantada, 19,3% menor no ano — resultado de baixa rentabilidade, do histórico recente de perdas climáticas no Sul e da própria expectativa de um El Niño mais severo no segundo semestre, que desestimulou o plantio antes de qualquer perda de lavoura. No Rio Grande do Sul, maior produtor (39,0% do total nacional), a projeção caiu para 2,5 milhões de toneladas (-9,4% ante junho e -28,3% ante 2025). No agregado, porém, o país ainda deve colher 353,0 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas em 2026, 2,0% acima de 2025 — o efeito do fenômeno, por ora, é concentrado em culturas de inverno no Sul, não generalizado.
O repasse é gradual: historicamente os maiores efeitos sobre preços aparecem nove a dez meses depois do pico do fenômeno, previsto para outubro ou novembro de 2026. A sequência esperada é hortifrutigranjeiros nos primeiros meses de 2027, grãos no segundo semestre e, por último, as proteínas animais, incluindo a carne bovina. Há ainda um efeito de frete: se a seca no Norte e no Nordeste prejudicar a navegação fluvial e o escoamento pelos portos dessas regiões, a carga migra para rodovia rumo ao Sul e Sudeste — no El Niño de 2023-24 esse gargalo elevou custos entre 10% e 22%.
Nos mercados globais. O prêmio de risco já está nos preços:
- Café arábica subiu cerca de 30% desde o início de junho de 2026, a US$ 3,12 por libra, incluindo a maior alta em um único dia em 47 anos.
- Cacau saltou de ~US$ 3.950 por tonelada em meados de junho para US$ 6.455 em 9 de julho (máxima de oito meses), recuando depois para ~US$ 5.600 — ainda mais de 40% acima da mínima de junho. O Rabobank atribui a correlação anômala entre café e cacau a um "prêmio de risco do El Niño".
- Farinha e óleo de peixe: a pesca da anchoveta no Peru foi suspensa em maio de 2026 pelas águas quentes; a farinha mais que dobrou de preço em um ano e o óleo mais que triplicou desde julho de 2025.
O Banco Central Europeu calcula que eventos fortes de El Niño elevam em cerca de 9% os preços globais das commodities alimentares. Em episódios anteriores, a produção mundial de cacau caiu 12% no evento muito forte de 1982-83, 9% em 1991-92, 6% em 2015-16 e 13% em 2023-24, quando o preço médio sazonal subiu 122%. Máximo Torero, economista-chefe da FAO, aponta trigo duro e arroz como as culturas de maior preocupação, pela combinação de El Niño com menor uso de fertilizantes na Austrália e na Índia.
Nem toda leitura é de perda imediata. Em 7 de agosto de 2026 o JPMorgan manteve as recomendações para as empresas do agro brasileiro sob sua cobertura — neutra para SLC Agrícola (SLCE3) e São Martinho (SMTO3), underweight para Adecoagro (AGRO) —, avaliando que as chuvas de julho ficaram em linha com o esperado e que não há, por ora, anomalias relevantes que justifiquem revisar a tese. A equipe, liderada por Lucas Ferreira, considera prematuro reagir às projeções enquanto o plantio na América Latina está no início, mas registra risco crescente adiante: pelo modelo do ECMWF, as chuvas em Mato Grosso entre novembro de 2026 e fevereiro de 2027 podem ficar cerca de 20% abaixo da média, e no MATOPIBA entre 20% e 60% abaixo, enquanto o Rio Grande do Sul tende a chover bem acima da média até o fim do ano. O banco pondera ainda que não há regra histórica ligando automaticamente o El Niño à alta de soja e milho — em anos de El Niño a produtividade da soja caiu em média cerca de 8 sacas por hectare em Mato Grosso e 5 no MATOPIBA, com grande variação entre safras.
Por que o choque pode ser menor que em 1997-98 e 2015-16
Há um contraponto relevante às projeções de escassez, e ele não é otimismo genérico: o sistema alimentar global chega a este El Niño estruturalmente mais folgado do que nos dois eventos severos de referência. Levantamento da Reuters publicado em 11 de agosto de 2026 reúne os fatores que amortecem o choque.
- Estoques quase recordes. A Índia, responsável por 40% das exportações globais de arroz, acumula um estoque equivalente a mais de um ano do total exportado no mundo — a ponto de faltar espaço de armazenagem. Quase metade do estoque global de trigo está com a China, colchão que tende a conter a demanda por importação caso a seca prejudique a safra australiana. Os estoques globais de óleo de palma — cerca de 60% das exportações mundiais de óleo comestível — estão perto de máximas históricas, ainda que o programa de biodiesel da Indonésia deva consumir parte deles nos próximos meses.
- Novos exportadores que não existiam em 1997-98. O Brasil virou o maior fornecedor mundial de soja, com exportações mais de 13 vezes maiores que em 1997/98; o trigo russo saltou de cerca de 1 milhão de toneladas naquela safra para 48 milhões no ano passado. Volume que simplesmente não estava no mercado nos El Niños anteriores.
- Genética e manejo. Híbridos de milho tolerantes à seca se disseminaram na África e nas Américas desde 2015; variedades de trigo tolerantes a calor e estresse hídrico avançaram na Índia e na Austrália; arroz de ciclo curto ajuda o Sul e o Sudeste Asiático a conviver com monções irregulares.
- Informação. Monitoramento de safra por satélite, previsão sazonal, mapas de umidade do solo em alta resolução, adubação guiada por GPS e plataformas de recomendação agronômica com IA são ferramentas que mal existiam em 1997-98. "Os governos têm informações muito melhores do que no passado e são capazes de se preparar com mais antecedência", disse à Reuters Máximo Torero, economista-chefe da FAO. Segundo a FAO, a produção agrícola mundial supera consumo e crescimento populacional desde a década de 1980.
O contraponto tem limite explícito. A seca já prejudicou o plantio em boa parte da Ásia — Índia, Sudeste Asiático e Austrália —, e a escassez de fertilizantes e diesel provocada pela guerra no Irã agrava o quadro. Chris Hyde, meteorologista da empresa de dados de satélite SkyFi, avalia que o evento deve se intensificar no quarto trimestre e no início de 2027, e que "o grande impacto da seca ainda está por vir". Nas palavras de Andrew Whitelaw, da consultoria australiana Episode 3: existe impacto potencial sobre oferta e preços, "mas nossa melhor preparação significa que as perturbações são muito menos graves do que teriam sido nas décadas anteriores". Ou seja: o argumento é de amortecimento, não de imunidade — em 1997-98 e 2015-16 a quebra de safra virou escassez, inflação e restrição de exportação de arroz no Sudeste Asiático, e é essa cadeia que os estoques atuais tornam menos provável.
Impacto ecológico no Pacífico sul-americano
Fora do Brasil, o efeito mais visível do El Niño 2026 até agora está na costa de Equador e Peru. O aquecimento das águas desloca a corrente fria de Humboldt e derruba a produtividade marinha: a anchoveta (Engraulis ringens), base alimentar das aves marinhas da região, migra para águas mais profundas ou para latitudes extremas, e as aves que dependem de captura em superfície deixam de alcançá-la.
Os registros de aves afetadas começaram em junho de 2026 e envolvem piquero-de-pés-azuis (Sula nebouxii), pelicano-peruano (Pelecanus thagus), corvo-marinho-de-guanay, pinguim-de-Humboldt e pinguim-de-Galápagos, além de albatrozes e petréis migratórios. Não há cifra oficial de mortalidade para 2026; como referência, em 2023 foram coletadas 576 aves em uma única praia equatoriana entre junho e setembro (519 delas pardelas-cinzentas), e em 2017, 585 aves em três praias.
Pesquisadores ouvidos pela Mongabay — Jhonnattan Valdés (BirdLife Americas), Ana Ágreda (Aves y Conservación), Carlos Zavalaga (Universidade Científica do Sul, Peru) e Paolo Piedrahita (Escola Politécnica do Litoral, Equador) — apontam que o dano maior não é a mortandade visível, e sim o fracasso reprodutivo: ninhos abandonados por falta de alimento para os filhotes, o que descrevem como um "ano perdido" para essas populações, com recuperação medida em várias temporadas.
Por que importa
ENSO é o principal driver de variabilidade climática interanual no Brasil. Um El Niño confirmado para o segundo semestre de 2026 e verão 2026/27 tem implicações diretas para:
- Safra agrícola 2026/27 (soja, milho, trigo) — base do PIB do agro e da balança comercial.
- Inflação de alimentos — quebra de safra e seca em zonas produtoras pressiona preços.
- Geração de energia — hidrelétricas do Nordeste e do SE/CO podem ter afluências reduzidas, exigindo despacho térmico mais caro e elevando bandeiras tarifárias.
- Defesa civil — enchentes no Sul (como em RS/2024 sob condições diferentes mas com paralelos) e secas no Norte.
- Saúde pública — dengue tende a responder a anomalias de temperatura e chuva; queimadas amazônicas afetam qualidade do ar em todo o país.
Fontes oficiais
- NOAA CPC — ENSO Diagnostic Discussion
- NOAA — El Niño forms, expected to strengthen (11/jun/2026)
- NOAA CPC — ENSO Probabilities (ROnI)
- IRI Columbia — ENSO Quick Look
- WMO — El Niño/La Niña Updates
- CPTEC/INPE — Monitoramento ENOS
- INMET — El Niño está de volta
- Nota Técnica Conjunta INPE/INMET/Funceme/CENSIPAM
- NOAA Climate.gov — ENSO Blog
- NOAA Climate.gov — ENSO (definições de El Niño e La Niña)
- INMET — El Niño 2026: monitoramento, previsões e possíveis impactos no Brasil
- INMET — Painel El Niño 2026-2027
- Agência Brasil — El Niño forte pode levar mais 49 milhões de pessoas à fome aguda (5/ago/2026)
- Correio Braziliense — Governo prevê R$ 1,3 bilhão para ações de prevenção aos impactos do El Niño
- Correio Braziliense — El Niño provoca clima de extremos no Brasil em agosto
- NOAA Climate.gov — Walker Circulation
- Poder360 — Governo decide reduzir geração hidrelétrica para enfrentar El Niño (5/ago/2026)
- InfoMoney — ONS: El Niño exigirá poupança de água em hidrelétricas do Sul para compensar seca (19/jun/2026)
- Mongabay — Aves marinas muertas y nidos abandonados: la emergencia que deja El Niño en Ecuador y Perú (jul/2026)
- InfoMoney/Reuters — El Niño deve ser forte, mas atual sistema alimentar global está mais resiliente (11/ago/2026)
- g1 — Como estoques recordes e avanço do agro brasileiro podem reduzir impacto do "super El Niño" no mundo (12/ago/2026)
- Senado — Chico Rodrigues alerta para impactos do El Niño em Roraima (11/ago/2026)
- Correio Braziliense — El Niño tem mais de 90% de chance de atingir intensidade muito forte (13/ago/2026)
- EPAGRI/CIRAM — Nota meteorológica SDC/SC: El Niño segue em rápida intensificação (13/ago/2026)
- NOAA Ocean Service — What are El Niño and La Niña? (origem do nome)
- Canal Rural — Safra 2026 de grãos é estimada em 353 milhões de toneladas pelo IBGE (13/ago/2026)
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