Enamed
Adicionado evento de 25/01/2026 sobre reações de especialistas e estudantes aos resultados do Enamed, incluindo a perspectiva de Eliana Amaral (Unicamp), César Eduardo Fernandes (AMB) e Vanessa Conceição da Cruz (estudante da UFV). Atualizado o contexto histórico com o anúncio de sanções pelo MEC e adicionada uma nova seção de 'Perspectivas de Especialistas e Estudantes'.
O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) é uma avaliação federal no Brasil destinada a aferir a qualidade da formação em cursos de medicina. Proposto para ser aplicado no segundo, quarto e sexto anos da graduação, o Enamed visa avaliar o progresso dos estudantes e a qualidade das instituições de ensino. Recentemente, o governo federal propôs que o Enamed também funcione como um exame de proficiência, condicionando o registro profissional de médicos recém-formados ao seu desempenho na avaliação. Esta proposta, que necessita de alteração legislativa, gerou debates sobre a fiscalização da qualidade do ensino médico no país.
A criação do Enamed e a discussão sobre sua utilização como exame de proficiência surgem em um cenário de preocupação com a qualidade da formação médica no Brasil. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou que houve uma proliferação de vagas em faculdades privadas de medicina sem a devida avaliação da qualidade do ensino no governo anterior. O Enamed é visto como uma ferramenta para promover um “choque de realidade” e aprimorar a formação médica, juntamente com a aprovação de novas diretrizes curriculares e a criação do Exame Nacional de Residência (Enare).
Os resultados da edição de 2025 do Enamed revelaram que, dos 304 cursos de medicina avaliados, 204 (67,1%) obtiveram desempenho satisfatório (conceito 3 a 5 do Enade), enquanto 99 cursos (32%) ficaram nas faixas 1 e 2, indicando que menos de 60% de seus estudantes tiveram desempenho adequado. A maioria das instituições com baixo desempenho são municipais ou privadas com fins lucrativos. O Ministério da Educação anunciou sanções para as faculdades com os piores resultados. O Conselho Federal de Medicina (CFM) interpretou esses resultados como um “problema estrutural gravíssimo” na formação médica, especialmente em instituições privadas ou municipais, e considerou usar o Enamed de 2025 como exame de proficiência para barrar o registro de formandos com notas insuficientes. Contudo, o governo federal defende que a proposta de proficiência seja implementada apenas após mudança na legislação, para edições futuras do exame, e que a avaliação seja feita pelo Ministério da Educação, visando o interesse principal na formação médica.
Após a divulgação dos resultados da primeira edição do Enamed, especialistas e estudantes de medicina expressaram suas perspectivas sobre a qualidade da formação e os desafios do setor. Eliana Amaral, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), enfatizou a necessidade de fortalecer o sistema de regulação e fiscalização das faculdades. Ela argumenta que, embora o Enamed seja uma ferramenta importante, a qualidade de um curso não deve ser medida apenas pelo desempenho dos alunos em uma prova, lembrando que o MEC já possui um Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior que inclui inspeções in loco. Amaral ressalta que a formação médica brasileira sempre foi de “altíssima qualidade” e espera que a discussão atual sirva como um “detonador” para aprimorar a fiscalização, especialmente quanto ao ensino prático, que é fundamental para o desenvolvimento da postura profissional.
César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), compartilhou a preocupação com a “expansão desenfreada” de vagas de medicina no país, que, segundo ele, coloca em risco a qualidade do ensino prático. Fernandes defende que a solução para a falta de médicos em certas regiões não é a abertura indiscriminada de faculdades, mas sim a implementação de políticas de alocação de profissionais mais eficazes, que incluam melhorias na infraestrutura de atendimento e salários mais atrativos. Ele critica a ideia de criar escolas médicas como “bancos assistenciais” em municípios sem condições de oferecer campos de ensino adequados.
Por outro lado, a estudante de medicina Vanessa Conceição da Cruz, da Universidade Federal de Viçosa (UFV) – instituição que obteve nota máxima no Enamed –, destacou a importância da formação prática de excelência. Ela relata que a UFV oferece uma estrutura que permite contato com pacientes desde os primeiros anos do curso e uma gama diversificada de cenários práticos, o que, em sua opinião, contribuiu para o bom desempenho dos alunos no exame. Vanessa defende que o Enamed conseguiu avaliar bem a formação básica, mas reforça o coro pela fiscalização contínua das faculdades, especialmente para garantir cenários práticos suficientes, inclusive na atenção primária, área frequentemente procurada por recém-formados.