Visão geral
O combate ao crime organizado no Brasil é uma iniciativa multifacetada que envolve esforços coordenados entre os governos federal e estaduais. Uma das ferramentas centrais nesse esforço é o Projeto Captura, que inclui a divulgação de uma "lista vermelha" de criminosos mais procurados. Esta lista visa auxiliar as forças de segurança na captura de indivíduos estratégicos para desarticular organizações criminosas, contando também com a colaboração da população por meio de denúncias anônimas. Os crimes mais frequentemente associados aos procurados incluem homicídio, tráfico de drogas, organização criminosa e roubo. O combate ao crime organizado enfrenta desafios complexos, incluindo a integridade institucional e a influência política, como evidenciado por descontentamentos internos em órgãos como o Ministério Público e, mais recentemente, por casos de infiltração de organizações criminosas como o PCC em instituições policiais, incluindo a prisão de uma delegada em São Paulo sob suspeita de ligação com a facção. Além disso, investigações recentes revelam o desvio de munições dos estoques das forças de segurança estaduais e até do Exército para abastecer facções criminosas como o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, expondo falhas graves no controle de arsenais. Recentemente, o novo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, elevou o combate ao crime organizado a uma "ação de Estado", buscando uma atuação conjunta e articulada de todos os órgãos estatais, incluindo o Ministério Público e o Judiciário, e focando na descapitalização das organizações criminosas. A discussão sobre a criação de um Ministério da Segurança Pública, embora tenha ganhado força, foi esfriada por cálculos políticos e resistências, com a decisão de manter a segurança pública sob a alçada do Ministério da Justiça.
Contexto e histórico
A criação da lista de procurados do Ministério da Justiça e Segurança Pública foi determinada por uma portaria de 2023. O objetivo é fortalecer o combate a organizações criminosas, reduzir indicadores de crimes graves e violentos, e garantir o cumprimento da lei penal. A iniciativa busca centralizar e divulgar informações sobre indivíduos com mandados de prisão em aberto, considerados de alta relevância para a segurança pública. Contudo, a eficácia dessas ações pode ser comprometida por decisões internas de órgãos de controle, gerando críticas e preocupações sobre o enfraquecimento do combate ao crime organizado e a credibilidade das instituições. Casos de infiltração, como o de uma delegada em São Paulo supostamente a mando do PCC, e a recente prisão da delegada Layla Lima Ayub em 16 de janeiro de 2026, sob suspeita de ligação com a facção, demonstram a vulnerabilidade e os desafios na manutenção da integridade das forças de segurança. Layla Lima Ayub, que foi presa na Operação Serpens deflagrada pela Corregedoria-Geral da Polícia Civil de São Paulo e pelo Gaeco, já havia atuado como advogada para indivíduos com supostos laços com o PCC e moveu processos contra a própria Polícia Militar. Outro desafio significativo é o desvio de armamento e munição dos estoques oficiais, incluindo os do Exército e das polícias estaduais, para grupos criminosos como o Comando Vermelho, que utiliza esses recursos para fortalecer seu controle em áreas como os complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. Com a posse do novo ministro da Justiça em janeiro de 2026, a estratégia de combate foi reorientada para uma abordagem mais integrada, reconhecendo que a Polícia Federal e a Receita Federal, sozinhas, não conseguem viabilizar resultados concretos sem a colaboração do Ministério Público e do Judiciário. Essa nova perspectiva visa atingir o poder econômico do crime organizado através de cooperação e inteligência. Paralelamente, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública foi apresentada para fortalecer o papel da União no combate ao crime organizado e promover a integração das forças de segurança, reacendendo o debate sobre a estrutura administrativa da segurança pública no país.
Linha do tempo
- 2023: Portaria do Ministério da Justiça e Segurança Pública estabelece a criação da lista de procurados para combate ao crime organizado.
- Outubro de 2024: Reunião sobre a PEC da Segurança Pública no Planalto, marcando o início das discussões sobre a proposta.
- Início de dezembro de 2025: Lançamento da "lista vermelha" como parte do Projeto Captura.
- 7 de setembro de 2025: Tiago Alessandro Alves dos Santos é preso em flagrante no Paraná por uso de documentos falsos.
- 18 de dezembro de 2025: Tiago Alessandro Alves dos Santos ainda constava na lista de procurados, apesar de estar preso.
- 19 de dezembro de 2025: G1 revela a presença de um preso na lista de procurados.
- 19 de dezembro de 2025: Delegada é empossada em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.
- Dezembro de 2025: Durante a tramitação da PEC da Segurança Pública, a prerrogativa exclusiva da União para legislar sobre o tema é retirada do relatório. A votação do texto é adiada para 2026 devido a impasses.
- 22 de dezembro de 2025: Após questionamento do G1, o nome de Tiago Alessandro Alves dos Santos é removido da lista.
- 12 de janeiro de 2026: Promotores do Maranhão pedem exoneração após o Ministério Público recomendar a soltura de políticos presos, gerando críticas sobre o enfraquecimento do combate ao crime organizado e o comprometimento da credibilidade da instituição.
- 13 de janeiro de 2026: Wellington César Lima e Silva é anunciado como novo ministro da Justiça, com a missão de focar na segurança pública, mas sem a criação de um ministério exclusivo para a área.
- 15 de janeiro de 2026: O novo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, anuncia que o combate ao crime organizado será elevado a uma "ação de Estado", envolvendo o Ministério Público e o Judiciário, e focado na descapitalização das organizações criminosas. O anúncio ocorre após reunião com o presidente Lula, Alexandre de Moraes (STF) e Paulo Gonet (PGR).
- 16 de janeiro de 2026: A delegada Layla Lima Ayub é presa em São Paulo sob acusação de ter se infiltrado na Polícia Civil a mando do PCC. Autoridades cumprem nove mandados de busca e apreensão relacionados ao caso, no âmbito da Operação Serpens, deflagrada pela Corregedoria-Geral da Polícia Civil de São Paulo e pelo Gaeco.
- 17 de janeiro de 2026: Notícia revela que a delegada Layla Lima Ayub já havia advogado para suspeitos de ligação com o PCC e processado a Polícia Militar.
- 19 de janeiro de 2026: Investigações revelam que munições dos estoques das polícias estaduais e do Exército estão sendo desviadas para abastecer o Comando Vermelho (CV) em complexos como o Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro.
Principais atores
- Ministério da Justiça e Segurança Pública: Responsável pela criação e gestão da lista de procurados e pelo Projeto Captura. Atualmente liderado por Wellington César Lima e Silva, que defende uma abordagem de "ação de Estado" no combate ao crime organizado. A pasta também coordena políticas nacionais de segurança pública, comanda a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Força Nacional, e gerencia o sistema penitenciário federal.
- Governos Estaduais: Indicam nomes para a lista e são responsáveis pela atualização das informações sobre os procurados. Alguns governos estaduais expressaram resistência à PEC da Segurança Pública, especialmente em relação à ampliação do papel da União. Enfrentam o desafio de garantir a integridade de seus arsenais e prevenir o desvio de munições para organizações criminosas.
- Forças de Segurança (Polícias Civil, Militar, Federal): Atuam na captura dos criminosos listados e na investigação. A Polícia Federal, sob a nova diretriz, busca maior cooperação interinstitucional para descapitalizar o crime organizado. A integridade dessas forças é constantemente desafiada por tentativas de infiltração e corrupção por parte de organizações criminosas, como evidenciado pela prisão da delegada Layla Lima Ayub em São Paulo sob suspeita de ligação com o PCC. Além disso, o desvio de munições de seus estoques para o crime organizado representa uma falha crítica na segurança e controle de arsenais.
- Ministério Público: Atua na acusação e fiscalização, sendo um ator essencial na nova estratégia de "ação de Estado" para o combate ao crime organizado. Pode enfrentar conflitos internos e críticas sobre suas decisões em relação a casos de crime organizado.
- Judiciário: Fundamental para a efetividade das ações de combate ao crime organizado, garantindo que as medidas judiciais tenham o impacto necessário.
- População: Contribui com denúncias anônimas que podem levar à prisão dos procurados.
- Organizações Criminosas: Grupos que são o alvo principal das ações de combate, como o PCC, que busca ativamente infiltrar-se em instituições estatais para minar o combate ao crime, e o Comando Vermelho (CV), que se beneficia do desvio de munições de estoques oficiais para fortalecer sua atuação, especialmente no Rio de Janeiro.
- Wellington César Lima e Silva: Novo ministro da Justiça, com experiência prévia no cargo e atuação destacada no combate ao crime organizado na Bahia. Promove a integração de diferentes esferas do Estado no combate ao crime organizado, assumindo a pasta sem a divisão do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
- Alexandre de Moraes: Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), envolvido em discussões de alto nível sobre a estratégia de combate ao crime organizado.
- Procurador-Geral da República (PGR), parte integrante da estratégia de coordenação interinstitucional no combate ao crime organizado.
Debate sobre a criação do Ministério da Segurança Pública
A criação de um ministério exclusivo para a Segurança Pública voltou ao centro do debate político no final de 2025 e início de 2026, impulsionada pela preocupação com o avanço do crime organizado e a necessidade de maior protagonismo do tema na estrutura do governo federal. A saída do então ministro Ricardo Lewandowski foi vista como uma oportunidade para a divisão do Ministério da Justiça e Segurança Pública. No entanto, cálculos políticos e resistências à criação de uma nova pasta na Esplanada esfriaram essa possibilidade. Wellington César Lima e Silva foi anunciado como novo ministro da Justiça em 13 de janeiro de 2026, com a missão de focar na segurança pública, mas sem a fragmentação do ministério.
Um dos principais fatores que reacenderam a discussão foi a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, proposta pelo governo para fortalecer o papel da União no combate ao crime organizado e promover uma ação integrada das forças de segurança. A PEC partiu do diagnóstico de que o enfrentamento ao crime organizado exige maior coordenação nacional, dada a atuação interestadual e transnacional dessas organizações. A proposta ganhou fôlego após megaoperações policiais no Rio de Janeiro e buscava atribuir à União a competência de coordenação, sem retirar a responsabilidade dos estados pela execução das ações.
O debate sobre a PEC levantou a questão da suficiência da estrutura administrativa atual, gerando resistência de governos estaduais, especialmente aqueles ligados à direita. Defensores da divisão do ministério argumentavam que uma pasta específica ajudaria a operacionalizar a articulação com estados e municípios, fortaleceria o combate ao crime organizado e teria orçamento próprio. Críticos, por outro lado, avaliavam que a mudança constitucional já seria suficiente para fortalecer a coordenação federal, e a criação de uma nova pasta poderia gerar mais burocracia sem ganhos concretos. Em dezembro de 2025, durante a tramitação da PEC, a prerrogativa exclusiva da União para legislar sobre o tema foi retirada do relatório, e a votação do texto foi adiada para 2026 devido a impasses, o que representou uma derrota para o governo.
Termos importantes
- Projeto Captura: Iniciativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública para combater o crime organizado, que inclui a lista de procurados.
- Lista Vermelha: Termo popular para a lista de criminosos mais procurados do Brasil, divulgada pelo governo federal.
- Organização Criminosa: Associação de quatro ou mais pessoas, estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, com o objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais.
- Mandado de Prisão: Ordem judicial que determina a prisão de uma pessoa.
- Ação de Estado: Nova abordagem estratégica no combate ao crime organizado, que busca a atuação conjunta e articulada de todos os órgãos do Estado, incluindo Executivo, Ministério Público e Judiciário, para maior efetividade.
- PEC da Segurança Pública: Proposta de Emenda à Constituição que visa fortalecer o papel da União na coordenação do combate ao crime organizado e na integração das forças de segurança.
- Operação Serpens: Operação deflagrada em 16 de janeiro de 2026 pela Corregedoria-Geral da Polícia Civil de São Paulo e pelo Gaeco, que resultou na prisão da delegada Layla Lima Ayub sob suspeita de ligação com o PCC.
- Comando Vermelho (CV): Uma das maiores facções criminosas do Brasil, com forte atuação no Rio de Janeiro, que tem se beneficiado do desvio de munições de estoques oficiais.