Visão geral
A Rioprevidência, fundo de previdência do estado do Rio de Janeiro responsável pelo pagamento das aposentadorias dos servidores públicos, esteve envolvida em investigações sobre supostas irregularidades em operações financeiras com o Banco Master. A instituição negou qualquer conduta imprópria, afirmando que seus investimentos estão resguardados e em processo de quitação. A Polícia Federal (PF) apura irregularidades na aquisição de letras financeiras emitidas pelo Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central. A investigação aponta que os aportes da Rioprevidência no Banco Master cresceram sete vezes em um ano, sem o aval do comitê de investimentos, levantando dúvidas sobre a falta de análises técnicas e possíveis fragilidades na governança.
Contexto histórico e desenvolvimento
Entre novembro de 2023 e julho de 2024, a Rioprevidência aplicou R$ 970 milhões no Banco Master. Em janeiro de 2026, a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Barco de Papel para investigar suspeitas de operações financeiras irregulares entre as duas instituições. O Banco Master era investigado por supostamente inflar artificialmente seu balanço e não ter capacidade de honrar dívidas, com suspeitas de desvio de R$ 11,5 bilhões, o que levou à sua liquidação pelo Banco Central. As investigações da PF apontam que as aplicações da Rioprevidência colocaram em risco o patrimônio de 235 mil servidores públicos do Rio de Janeiro. A Rioprevidência, por sua vez, declarou que os investimentos de R$ 970 milhões estavam resguardados por uma decisão judicial de dezembro de 2025, que determinou a retenção dos valores acrescidos de juros e correção monetária em seu benefício. A instituição informou que o investimento estava sendo quitado por meio da retenção de valores de empréstimos consignados que seriam repassados ao Banco Master, estimando a liquidação total em cerca de dois anos. A Operação Barco de Papel, autorizada pela 6ª Vara Federal Criminal, tem como objetivo apurar a suspeita de operações financeiras irregulares que expuseram o patrimônio da autarquia a risco elevado e incompatível com sua finalidade. Dirigentes da Rioprevidência e do Banco Master podem ter cometido crimes contra o sistema financeiro nacional, como gestão fraudulenta, desvio de recursos, indução de repartição pública ao erro, fraude à fiscalização ou ao investidor, além de associação criminosa e corrupção passiva. Segundo a PF, entre novembro de 2023 e julho de 2024, a Rioprevidência teria investido aproximadamente R$ 970 milhões na instituição financeira. Em novembro de 2025, o Rioprevidência informou que o pagamento de aposentadorias e pensões estava garantido, apesar da liquidação do Banco Master, e que estava em negociação para substituir as letras financeiras por precatórios federais. Na época dos investimentos, o Banco Master possuía autorização para funcionar e um rating nacional de longo prazo "A-" atribuído pela Fitch Ratings, atestando solidez financeira e credibilidade institucional. As aplicações foram realizadas em conformidade com os regramentos vigentes e o Plano Anual de Investimentos aprovado pelo Conselho de Administração da autarquia. O Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Estado (Sepe) manifestou preocupação com a má administração e gestão temerária do fundo, citando denúncias e escândalos anteriores, incluindo uma CPI do Rioprevidência que investigou operações de crédito que teriam causado um prejuízo de R$ 17 bilhões.
Linha do tempo
- Novembro de 2023 - Julho de 2024: Rioprevidência aplica R$ 970 milhões no Banco Master.
- Novembro de 2025: Banco Master é liquidado pelo Banco Central. Rioprevidência garante pagamento de aposentadorias e pensões e informa que aplicou cerca de R$ 960 milhões no Banco Master entre outubro de 2023 e agosto de 2024, com vencimentos previstos para 2033 e 2034.
- Dezembro de 2025: Decisão judicial determina a retenção de valores e correção monetária em benefício da Rioprevidência.
- 19 de janeiro de 2026: Depoimento de ex-integrante do Comitê de Investimentos do Rioprevidência à Polícia Civil revela que os aportes no Banco Master cresceram sete vezes em um ano, sem novo aval do comitê.
- 23 de janeiro de 2026: Polícia Federal deflagra a Operação Barco de Papel para investigar transações entre Rioprevidência e Banco Master.
- 23 de janeiro de 2026: Rioprevidência nega irregularidades e informa que o investimento está em fase de quitação.
- 23 de janeiro de 2026: Polícia Federal cumpre quatro mandados de busca e apreensão, expedidos pela 6ª Vara Federal Criminal, nas residências do presidente e ex-diretores do Rioprevidência. São apreendidos veículos de luxo, dinheiro, celulares, notebooks, pen drives, HDs e documentos. Na casa de Deivis Marcon Antunes, foram apreendidos um veículo de luxo blindado, R$ 7 mil em espécie, um pen drive, relógio e documentos para perícia. Na residência de Eucherio Lerner Rodrigues, foram apreendidos R$ 3,5 mil em espécie, um veículo de luxo, celular, notebooks, pen drive, HDs e documentos.
- 23 de janeiro de 2026: Deivis Marcon Antunes anuncia renúncia ao cargo de diretor-presidente da Rioprevidência.
- 23 de janeiro de 2026: O governador Cláudio Castro exonera Deivis Marcon Antunes do cargo de diretor-presidente da Rioprevidência, com o ato publicado no Diário Oficial.
- 3 de fevereiro de 2026: A Polícia Federal prende o ex-presidente do Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, em Itatiaia (RJ), no âmbito da segunda fase da Operação Barco de Papel. Outros dois mandados de prisão temporária foram expedidos, mas não cumpridos, com os investigados foragidos. A prisão ocorreu após a PF identificar movimentações suspeitas de retirada de documentos, manipulação de provas digitais e transferência de veículos de luxo após a busca e apreensão de 23 de janeiro. Antunes foi conduzido à Delegacia de Polícia Federal em Volta Redonda e, posteriormente, à Superintendência da PF no Rio de Janeiro.
- 11 de fevereiro de 2026: A Polícia Federal cumpre a terceira fase da Operação Barco de Papel, com dois mandados de busca e apreensão em Balneário Camboriú e Itapema, Santa Catarina. Foram apreendidos R$ 429 mil em espécie, dois celulares, dois carros de luxo e diversos documentos.
Principais atores
- Rioprevidência: Fundo de previdência do estado do Rio de Janeiro, responsável pela aposentadoria dos servidores públicos.
- Banco Master: Instituição financeira investigada por inflar balanço e desviar fundos, posteriormente liquidada pelo Banco Central.
- Polícia Federal (PF): Órgão responsável pela Operação Barco de Papel, que investigou as transações.
- Banco Central (BC): Instituição que liquidou o Banco Master.
- Cláudio Castro: Governador do estado do Rio de Janeiro, responsável pela exoneração do presidente da Rioprevidência.
- Deivis Marcon Antunes: Presidente do Rioprevidência, alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Barco de Papel e posteriormente exonerado e preso.
- Eucherio Lerner Rodrigues: Ex-diretor de Investimentos do Rioprevidência, alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Barco de Papel.
- Pedro Pinheiro Guerra Leal: Ex-diretor interino de Investimentos do Rioprevidência, alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Barco de Papel.
- Robson Luiz Barbosa: Ex-integrante do Comitê de Investimentos do Rioprevidência, testemunha que levantou dúvidas sobre a forma como foram feitas as aplicações no Banco Master.
Termos importantes
- Operação Barco de Papel: Nome da operação da Polícia Federal que investigou as supostas irregularidades financeiras, incluindo gestão fraudulenta, desvio de recursos, indução de repartição pública ao erro, fraude à fiscalização ou ao investidor, associação criminosa e corrupção passiva.
- Liquidação: Processo pelo qual uma instituição financeira é encerrada e seus ativos são vendidos para pagar dívidas.
- Empréstimos consignados: Modalidade de empréstimo com desconto direto na folha de pagamento ou benefício do devedor.
- Letras Financeiras: Títulos de renda fixa emitidos por instituições financeiras, que não contam com garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).