A Privatização de Hidrovias na Amazônia refere-se à concessão de trechos de rios amazônicos à iniciativa privada para operação e gestão, visando ampliar o transporte de commodities. O Decreto nº 12.600/25, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, incluiu as hidrovias dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira no Programa Nacional de Desestatização (PND). A medida, que busca modernizar a navegação e reduzir custos logísticos, gerou forte oposição de lideranças indígenas e ambientalistas, que apontam riscos socioambientais e a ausência de consulta prévia às populações afetadas, especialmente às vésperas da COP 30 em Belém.
A Privatização de Hidrovias na Amazônia refere-se ao processo de concessão de trechos de rios amazônicos à iniciativa privada para operação e gestão, com o objetivo de ampliar o transporte de commodities, como grãos e minérios. Este movimento foi impulsionado pelo Decreto nº 12.600, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 28 de agosto de 2025, que incluiu as hidrovias dos rios Tapajós (cerca de 250 km entre Itaituba e Santarém, PA), Tocantins (aproximadamente 1.731 km entre Belém, PA, e Peixe, TO) e Madeira (cerca de 1.075 km entre Porto Velho, RO, e Itacoatiara, AM) no Programa Nacional de Desestatização (PND). A medida visa transferir responsabilidades como dragagem, sinalização e gestão do tráfego para empresas privadas, argumentando melhorias na navegabilidade e redução de custos logísticos para o escoamento de produtos do agronegócio via Arco Norte. No entanto, gerou forte reação de lideranças indígenas, ambientalistas e movimentos sociais, que apontam riscos socioambientais, como impactos na biodiversidade, pesca tradicional e territórios indígenas, além da ausência de consulta prévia, livre e informada às populações afetadas, conforme a Convenção 169 da OIT. A decisão ocorre às vésperas da COP 30, sediada em Belém (PA) em novembro de 2025, intensificando debates sobre sustentabilidade na região.
A privatização de infraestruturas no Brasil teve início na década de 1990, com o Programa Nacional de Desestatização (PND) criado em 1990, durante o governo Collor, visando transferir ativos públicos para a iniciativa privada para modernizar setores como telecomunicações, energia e transportes. No setor de transportes, programas de concessão foram implementados para expandir a logística, especialmente no escoamento de commodities agrícolas e minerais. No contexto das hidrovias amazônicas, o governo federal, por meio do Ministério dos Portos e Aeroportos (Mpor) e da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), desenvolveu o Plano Geral de Outorgas (PGO) Hidroviário em 2023. Este plano, em parceria com a Infra S.A. e o BNDES, visa a concessão de mais de 3 mil quilômetros de rios para a iniciativa privada, sob o argumento de modernizar a navegação, melhorar a segurança e reduzir custos logísticos. O Decreto nº 12.600/2025 concretizou a inclusão das hidrovias do Madeira, Tocantins e Tapajós no PND, abrindo caminho para leilões de concessão por até 12 anos, com investimentos estimados em R$ 109 milhões, majoritariamente públicos. Essa política consolida o Arco Norte como corredor logístico para exportação, beneficiando empresas como Cargill, Bunge e Vale, mas ameaçando modos de vida tradicionais. Críticos argumentam que o modelo repete padrões neoextrativistas, priorizando lucro sobre sustentabilidade, e ignora impactos cumulativos de projetos como barragens e portos na região.
A concessão das hidrovias pode intensificar o desmatamento, a poluição e a perda de biodiversidade na Amazônia, região que já transporta 41 milhões de toneladas de carga por ano. Obras de dragagem e sinalização ameaçam sítios arqueológicos, locais sagrados e a pesca artesanal, afetando diretamente povos indígenas como os Munduruku, ribeirinhos e quilombolas. Estudos apontam riscos de contaminação por agrotóxicos e sedimentos, além de alterações no regime hídrico que podem impactar unidades de conservação. Economicamente, beneficia o agronegócio, mas marginaliza comunidades locais, violando direitos constitucionais e internacionais. O governo afirma que intervenções exigirão licenciamento ambiental e consultas, mas críticos duvidam da efetividade, citando histórico de violações.
O decreto desencadeou mobilizações imediatas. Em setembro de 2025, atos no Dia da Amazônia denunciaram a "venda" dos rios ao agronegócio. Durante a COP 30, povos indígenas como os Munduruku protestaram, exigindo revogação. Em janeiro de 2026, iniciou-se uma ocupação histórica no porto da Cargill em Santarém (PA), com mais de 1.200 indígenas e aliados bloqueando acessos contra a dragagem do Tapajós e a privatização. Apoio veio de deputados como Duda Salabert e Glauber Braga, e organizações como MAB e Amazon Watch. O governo suspendeu a dragagem em fevereiro de 2026, mas manifestantes insistem na revogação total.
A Cargill, multinacional agrícola com terminal em Santarém, é alvo central por lucrar com exportações via Tapajós e acumular denúncias de soja de áreas desmatadas. Desde 22 de janeiro de 2026, indígenas ocupam o acesso ao porto, paralisando operações. Em 19 de fevereiro, 400 manifestantes ocuparam uma balsa de grãos no rio, estendendo faixas contra o decreto. No dia 20, após ordem judicial de desocupação, invadiram o terminal interno, alegando falta de diálogo. A Cargill reportou vandalismo e paralisação total, enquanto indígenas afirmam ação pacífica. Em 21 de fevereiro, a Frente Parlamentar da Agropecuária condenou a invasão como "ilegal". Protestos simultâneos ocorreram em São Paulo, vandalizando a sede da empresa. Até 22 de fevereiro de 2026, a ocupação continua, com exigências de revogação e consultas.
1990: Criação do Programa Nacional de Desestatização (PND) no Brasil.
2023: Lançamento do Plano Geral de Outorgas (PGO) Hidroviário pela Antaq e Ministério dos Portos e Aeroportos.
Maio de 2025: O Conselho do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) recomenda a inclusão de hidrovias amazônicas no PND.
Agosto de 2025: Presidente Lula assina o Decreto nº 12.600, incluindo as hidrovias dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira no PND.
Setembro de 2025: Atos no Dia da Amazônia denunciam o decreto.
Novembro de 2025: Protestos indígenas na COP 30 em Belém.
2025 (previsão): Edital de concessão da Hidrovia do Rio Madeira inicialmente previsto.
22 de janeiro de 2026: Início da ocupação do porto da Cargill em Santarém por indígenas contra o decreto.
Fevereiro de 2026: Governo suspende dragagem do Tapajós; ocupação continua.
19 de fevereiro de 2026: Ocupação de balsa da Cargill no rio Tapajós.
20-21 de fevereiro de 2026: Invasão do terminal interno da Cargill após ordem judicial; operações paralisadas.
Primeiro semestre de 2026 (previsão): Nova previsão para o edital de concessão da Hidrovia do Rio Madeira, após contestações.
Governo Federal do Brasil: Responsável pela formulação e implementação das políticas de desestatização.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva: Assinou o Decreto nº 12.600/2025.
Ministério dos Portos e Aeroportos (Mpor): Envolvido na elaboração do PGO Hidroviário e nos estudos de concessão.
Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq): Participa do desenvolvimento do PGO Hidroviário e da análise dos estudos de viabilidade.
Infra S.A.: Elaborou o Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) para a Hidrovia do Rio Madeira.
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES): Parceiro no desenvolvimento do projeto de concessão.
Cargill: Multinacional agrícola com terminal em Santarém, beneficiária das hidrovias para exportação de grãos; alvo de protestos por impactos ambientais.
Lideranças indígenas e ambientalistas (ex: Alessandra Korap Munduruku, Auricélia Arapiun da Coiab): Críticos do processo, apontando riscos socioambientais e a falta de consulta.
Populações ribeirinhas, quilombolas e indígenas: Direta ou indiretamente afetadas pelas obras e operação das hidrovias.
Movimentos sociais (ex: MAB, Amazon Watch, deputados como Duda Salabert e Glauber Braga): Lideram protestos e exigem revogação.
Programa Nacional de Desestatização (PND): Programa do governo brasileiro que visa a transferência de ativos ou serviços públicos para a iniciativa privada.
Hidrovia: Via navegável, natural ou artificial, utilizada para o transporte aquaviário.
Concessão: Contrato pelo qual o poder público transfere à iniciativa privada a execução de um serviço público ou a exploração de uma infraestrutura, por tempo determinado.
COP 30: 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, realizada em Belém (PA) em 2025.
Arco Norte: Região que engloba os portos do Norte do Brasil, estratégica para o escoamento da produção agrícola e mineral.
Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA): Análise que avalia a viabilidade de um projeto sob os aspectos técnico, econômico e ambiental.
Dragagem: Processo de remoção de sedimentos do fundo de rios para melhorar a navegabilidade.
Consulta Prévia, Livre e Informada: Direito previsto na Convenção 169 da OIT, exigindo participação de povos indígenas em decisões que os afetem.