O que é o Opus Dei
O Opus Dei ("Obra de Deus", em latim) é uma instituição da Igreja Católica fundada em 2 de outubro de 1928, em Madri, pelo padre espanhol Josemaria Escrivá de Balaguer, canonizado em 2002. O nome oficial é Prelazia da Santa Cruz e Opus Dei. Desde 1982 é uma prelazia pessoal, a única existente no direito canônico: uma estrutura sem território, que reúne pessoas, e não paróquias, sob um prelado com sede em Roma.
A ideia central é a busca da santidade no trabalho e na vida comum. Os membros não vivem em mosteiros: em sua maioria são leigos, casados, com profissão e família, que procuram viver a fé no próprio emprego e em casa. Segundo dados da prelazia citados pela ACI Prensa em fevereiro de 2026, o Opus Dei tem 94.450 membros; 60% são mulheres e 74% são casados. Cerca de 2% são sacerdotes.
Desde 2022 a instituição passa por uma reforma imposta pelo papa Francisco, que retirou privilégios que ela tinha desde João Paulo II. Os novos estatutos que adaptam o Opus Dei a essas regras foram entregues ao Vaticano em 11 de junho de 2025 e seguiam em análise em 2026, sob o papa Leão XIV.
Como funciona e quem são os membros
O Opus Dei é governado por um prelado, eleito de forma vitalícia por um Congresso Geral e confirmado pelo papa. O atual é o espanhol Fernando Ocáriz Braña, prelado desde 23 de janeiro de 2017. O vigário auxiliar, segundo na hierarquia, é o argentino Mariano Fazio.
Os membros se dividem em categorias:
- Supernumerários: em geral homens e mulheres casados, com carreira comum. São cerca de 70% do total. Dedicam parte do dia à oração, vão a palestras de formação e fazem retiros anuais.
- Numerários: celibatários, com "plena disponibilidade" para as tarefas da prelazia. Vivem em centros do Opus Dei separados por sexo e entregam a maior parte da renda à organização. São cerca de 20%.
- Numerárias auxiliares: categoria só de mulheres, celibatárias, que fazem o trabalho doméstico dos centros, como limpeza e cozinha.
- Agregados: celibatários que moram na própria casa e assumem tarefas de formação.
- Sacerdotes: padres do clero da prelazia, em geral vindos dos numerários e agregados. Formam, com padres diocesanos associados, a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz.
- Cooperadores: não são membros. Ajudam com oração, doações ou trabalho, e não precisam ser católicos.
Todos seguem um "plano de vida", conjunto de devoções católicas tradicionais distribuídas ao longo do dia. Alguns membros praticam a mortificação corporal: jejum, silêncio em certas horas e, entre numerários, o uso do cilício.
Como entrar: a entrada pressupõe que a pessoa sinta uma vocação. Segundo a própria prelazia, em resposta ao livro do jornalista Gareth Gore, os estatutos exigem maioridade, o consentimento expresso em pelo menos oito ocasiões ao longo de no mínimo seis anos e meio, e qualquer membro pode sair quando quiser.
História
Escrivá, ordenado padre, fundou a Obra em 1928. O Opus Dei cresceu primeiro na Espanha de Franco e, depois de 1945, no exterior. Em 1947 o papa Pio XII o reconheceu como instituto secular, categoria criada naquele ano para organizações cujos membros seguem a fé católica sem deixar a vida social comum nem entrar em ordens religiosas. Em 1950 veio a aprovação definitiva, que abriu a entrada de casados.
Quando Escrivá morreu, em 26 de junho de 1975, o Opus Dei já tinha mais de 60 mil membros de 88 nacionalidades. Foi sucedido por Álvaro del Portillo e, após a morte deste em 1994, por Javier Echevarría, que morreu em dezembro de 2016.
Em 28 de novembro de 1982, João Paulo II, simpatizante da instituição, transformou o instituto secular em prelazia pessoal, pela constituição apostólica Ut sit. Na prática, o Opus Dei passou a responder ao seu próprio prelado, e não ao bispo de cada diocese, com status semelhante ao de uma diocese sem território. Virou costume o papa nomear o prelado bispo. No contexto da Guerra Fria, a autonomia foi lida como um passo do catolicismo à direita, dada a postura anticomunista de João Paulo II. Bento XVI manteve o arranjo. João Paulo II canonizou Escrivá em 2002.
As reformas de Francisco
Francisco considerava excessiva a autonomia do grupo e entendia que nenhuma instituição deveria ter regime de exceção na Igreja, segundo vaticanistas ouvidos pela BBC News Brasil. Ele mexeu no Opus Dei em três passos:
- Praedicate Evangelium (março de 2022): na reforma da Cúria, as prelazias pessoais passaram do Dicastério para os Bispos ao Dicastério para o Clero. A mudança foi lida como rebaixamento.
- Ad charisma tuendum (julho de 2022): o motu proprio, em vigor desde 4 de agosto de 2022, determinou que o prelado não seja mais ordenado bispo, mas tenha o título de protonotário apostólico supranumerário, com tratamento de monsenhor. Também exigiu relatórios anuais, em vez de quinquenais, e mandou adaptar os estatutos. Ocáriz foi o primeiro prelado a não receber o título de bispo.
- Motu proprio de 8 de agosto de 2023: reescreveu os cânones 295 e 296 do Código de Direito Canônico. As prelazias pessoais passaram a ser "assimiladas" às associações clericais públicas de direito pontifício com faculdade de incardinar clérigos, e o prelado passou a atuar como moderador com faculdades de ordinário. Os leigos podem se dedicar às obras da prelazia por meio de convenções, e continuam ligados ao bispo da diocese onde moram.
A segunda mudança foi a mais funda, porque toca o papel dos leigos, que João Paulo II e Escrivá entendiam como membros da prelazia. Parte da imprensa, como o g1, descreveu a mudança como passagem do Opus Dei de prelazia pessoal a associação clerical pública. O texto do motu proprio fala em assimilação, e o Opus Dei segue sendo a única prelazia pessoal da Igreja. O jornalista português Rui Pedro Antunes, autor de Opus Dei: Eles Estão no Meio de Nós, disse à BBC News Brasil que a mudança "retirou-lhe margem de manobra e, por consequência, poder". O teólogo Gerson Leite de Moraes, do Mackenzie, liga a reforma à herança do Concílio Vaticano II, que discutiu o poder partilhado com bispos e dioceses. Para o cientista político Aldo Fornazieri, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, o Opus Dei "deixará de ser uma 'igreja dentro da Igreja'".
O Opus Dei fez uma consulta a todos os membros em 2023 e levou uma primeira minuta a um congresso extraordinário em abril daquele ano. Depois do motu proprio de agosto, recomeçou o trabalho com uma comissão mista da prelazia e do Dicastério para o Clero.
O que mudou com Leão XIV
Francisco morreu em 2025 antes de aprovar os estatutos. Leão XIV, papa desde 8 de maio de 2025, recebeu Ocáriz seis dias depois da eleição. A prelazia entregou a proposta final de estatutos em 11 de junho de 2025.
Em 16 de fevereiro de 2026, Leão XIV recebeu de novo Ocáriz e Fazio e, segundo nota do Opus Dei, disse que a adequação dos estatutos "ainda está em fase de estudo" e que "não é possível prever uma data para sua publicação". No mesmo encontro, o prelado apresentou ao papa a "perspectiva institucional" sobre as denúncias na Argentina. Em 16 de março de 2026, o papa recebeu em audiência o jornalista britânico Gareth Gore, autor do livro Opus, que acusa a organização de exploração e tráfico de pessoas. O Vaticano não comentou.
Até 1º de novembro de 2026 não havia anúncio de aprovação dos estatutos. Segundo o g1, a expectativa é que a questão se resolva até 2028, centenário da fundação. Leão XIV tem viagem prevista a Uruguai, Argentina e Peru em novembro de 2026; um grupo de 43 ex-numerárias auxiliares argentinas pediu para encontrá-lo em Buenos Aires.
Antes de ser papa, como bispo de Chiclayo, no Peru, Prevost sucedeu dois bispos do Opus Dei e nomeou membros da Obra para cargos importantes na diocese, segundo a Wikipédia em inglês.
Opus Dei no Brasil
O trabalho do Opus Dei no Brasil começou em março de 1957, em Marília (SP), a pedido do bispo local, dom Hugo Bressane de Araújo. O primeiro padre a chegar foi Jaime Espinosa Anta. Em 1959 abriu em São Paulo a Residência Universitária do Pacaembu e, em 1960, a residência feminina Jacamar. O padre Xavier de Ayala chegou em 1961 e chefiou a Obra no país até morrer, em 1994. O primeiro supernumerário brasileiro foi o magistrado José Geraldo Rodrigues de Alckmin, depois ministro do STF; o primeiro brasileiro ordenado padre na prelazia foi Pedro Barreto Celestino, em 1971. Escrivá visitou o Brasil em 1974.
Entre as iniciativas ligadas a membros da prelazia no país estão o Centro de Estudos Universitários do Sumaré, o Centro Cultural Mirador, o Instituto Internacional de Ciências Sociais (ICSS) e centros de capacitação profissional como o de Pedreira e o dos Pinhais.
Alckmin e o Opus Dei: o vice-presidente Geraldo Alckmin é sobrinho de José Geraldo Rodrigues de Alckmin e tem uma prima numerária. Em 2006, a revista Época relatou que ele tinha Caminho, livro de Escrivá, como livro de cabeceira e se confessava com um padre do Opus Dei. Alckmin nunca se declarou membro. Em 2018, o Opus Dei informou ao Metrópoles que ele não pertence à organização, e um primo disse que o pai de Alckmin seguia a linha franciscana.
Polêmicas
O Opus Dei é alvo de críticas por suposto sigilo, métodos de recrutamento, controle sobre os numerários, elitismo, tratamento dado às mulheres e ligação de membros com governos autoritários, como ministros tecnocratas da ditadura de Franco. A instituição nega o caráter secreto e diz que muitas críticas vêm de ex-membros ou de ficção. O romance O Código Da Vinci e o filme de 2006 popularizaram a imagem de seita.
Argentina: em 12 de setembro de 2022, uma denúncia à Procuradoria de Tráfico e Exploração de Pessoas (PROTEX) deu início a uma investigação sobre ex-numerárias auxiliares. Segundo os promotores, ao menos 44 mulheres, a maioria recrutada quando eram meninas e adolescentes pobres, teriam trabalhado de graça em serviço doméstico nos centros da Obra entre 1972 e 2015. Em outubro de 2024 a promotoria pediu que quatro ex-dirigentes da Obra na Argentina fossem interrogados como acusados por redução à servidão e, em quatro casos, tráfico de pessoas. Em 11 de junho de 2025 pediu o mesmo para Mariano Fazio, vigário auxiliar mundial. Até setembro de 2026, o juiz Daniel Rafecas não tinha marcado os interrogatórios. Em 22 de setembro de 2026, a Câmara Federal de Cassação confirmou, por 2 votos a 1, a prescrição de três dos casos em relação a um dos acusados, Gabriel Dondo. O Opus Dei nega as acusações.
Livro de Gareth Gore: Opus, anunciado pela editora em 2024, acusa a organização de tráfico de pessoas e de uso político do dinheiro. O Opus Dei chamou as acusações de "absolutamente falsas" e publicou uma resposta de 106 páginas, capítulo por capítulo.
Abusos: em julho de 2020 o Opus Dei reconheceu publicamente, pela primeira vez, um caso de abuso sexual cometido por um de seus padres, Manuel Cociña, na Espanha.
Linha do tempo
- 2 de outubro de 1928: Escrivá funda o Opus Dei em Madri.
- 1947: Pio XII reconhece o Opus Dei como instituto secular.
- 1950: aprovação definitiva pela Santa Sé.
- Março de 1957: começa o trabalho no Brasil, em Marília (SP).
- 26 de junho de 1975: morre Escrivá.
- 28 de novembro de 1982: João Paulo II cria a prelazia pessoal (Ut sit).
- 2002: João Paulo II canoniza Escrivá.
- 23 de janeiro de 2017: Fernando Ocáriz é eleito prelado.
- 12 de setembro de 2022: denúncia na Argentina abre a investigação sobre as numerárias auxiliares.
- 2022: Praedicate Evangelium transfere as prelazias ao Dicastério para o Clero; o motu proprio Ad charisma tuendum entra em vigor em 4 de agosto.
- 8 de agosto de 2023: motu proprio de Francisco reescreve os cânones 295 e 296.
- 8 de maio de 2025: eleição de Leão XIV.
- 11 de junho de 2025: o Opus Dei entrega ao Vaticano a proposta de novos estatutos.
- 16 de fevereiro de 2026: Leão XIV diz que os estatutos seguem em estudo, sem data.
- 16 de março de 2026: o papa recebe Gareth Gore.
- 22 de setembro de 2026: a Cassação argentina confirma a prescrição de três casos.
- 2028: centenário da fundação.
Principais atores
- Josemaria Escrivá de Balaguer (1902-1975): fundador, canonizado em 2002.
- João Paulo II (1920-2005): criou a prelazia pessoal em 1982.
- Bento XVI (1927-2022): manteve o status do Opus Dei.
- Francisco (1936-2025): fez as reformas de 2022 e 2023.
- Leão XIV: papa desde maio de 2025; analisa os novos estatutos.
- Fernando Ocáriz Braña: prelado desde 2017, o primeiro não ordenado bispo.
- Mariano Fazio: vigário auxiliar, acusado pela promotoria argentina.
- Gareth Gore: jornalista britânico, autor de Opus.
- Rui Pedro Antunes, Gerson Leite de Moraes e Aldo Fornazieri: analistas ouvidos pela BBC News Brasil sobre a reforma.
Termos importantes
- Prelazia pessoal: estrutura da Igreja sem território, definida pelas pessoas que reúne, com um prelado à frente. O Opus Dei é a única.
- Instituto secular: categoria de 1947 para organizações cujos membros vivem a fé sem deixar a vida social comum.
- Associação clerical pública: forma de associação de fiéis em que o clero tem primazia; desde 2023 as prelazias pessoais são assimiladas a ela.
- Dicastério: órgão da Cúria Romana chefiado por um prefeito nomeado pelo papa.
- Motu proprio: documento que o papa emite por iniciativa própria.
- Clero secular: padres e diáconos ligados a uma diocese, e não a uma ordem religiosa.
- Estatutos: regras internas do Opus Dei, aprovadas pela Santa Sé.
- Carisma: a vocação específica de uma instituição na Igreja; no Opus Dei, a santificação do trabalho comum.
- Concílio Vaticano II (1962-1965): concílio que abriu a Igreja a temas sociais e discutiu o poder partilhado com bispos e dioceses.
Perguntas frequentes
O que é o Opus Dei?
É uma instituição da Igreja Católica fundada em 1928 por Josemaria Escrivá, que propõe a busca da santidade no trabalho e na vida comum. Desde 1982 é uma prelazia pessoal, a única da Igreja, com cerca de 94 mil membros, a maioria leigos casados.
O que significa Opus Dei?
"Obra de Deus", em latim. Os membros chamam a instituição de "a Obra".
Como entrar no Opus Dei?
A entrada depende de a pessoa sentir uma vocação e ser maior de idade. Segundo a prelazia, o ingresso pleno exige consentimento expresso em pelo menos oito ocasiões ao longo de seis anos e meio. Quem não quer ser membro pode participar das atividades como cooperador.
O Opus Dei existe no Brasil?
Sim, desde 1957. Começou em Marília (SP) e depois se expandiu a partir de São Paulo para outras cidades.
Geraldo Alckmin é do Opus Dei?
Alckmin nunca se declarou membro, e o Opus Dei disse em 2018 que ele não pertence à organização. Ele tem parentes na Obra e já citou Caminho, de Escrivá, como livro de cabeceira.
O que mudou no Opus Dei com o papa Francisco?
O prelado deixou de ser bispo, a supervisão passou ao Dicastério para o Clero, os relatórios ficaram anuais e as prelazias pessoais foram assimiladas às associações clericais públicas. Os novos estatutos ainda aguardam aprovação de Leão XIV.
