Visão geral
O Haiti enfrenta uma crise de segurança, humanitária e de governança, com gangues armadas controlando vastas áreas da capital, Porto Príncipe, e regiões adjacentes. Essas gangues são responsáveis por deslocamentos populacionais, restrição de acesso a serviços básicos e um aumento alarmante no recrutamento de crianças e jovens, que são explorados para diversas funções, incluindo combate armado e exploração sexual. A situação é agravada pela pobreza generalizada e pela ausência de serviços de proteção infantil eficazes.
O que está acontecendo no Haiti hoje
Na noite de 23 de agosto de 2026, homens armados da coalizão Viv Ansanm invadiram o centro de Kenscoff, comuna montanhosa nos arredores de Porto Príncipe, e atacaram uma igreja que servia de abrigo para pessoas já deslocadas pela violência. Pelo menos 47 pessoas foram mortas e mais de 50 foram sequestradas; mais de 20 ficaram feridas. O prefeito Jean Massillon relatou que os atacantes incendiaram casas e mataram moradores, e entre os alvos estava a residência do médico e pesquisador de saúde pública Jean William Pape. Um líder da gangue ameaçou executar os reféns caso a polícia reforçasse o efetivo na região.
Não foi o primeiro ataque ali: entre 4 e 9 de julho de 2026, uma incursão da mesma coalizão em Kenscoff deixou pelo menos 61 mortos. Segundo a ACLED, as gangues disputam Kenscoff porque o controle da comuna permite cercar Pétion-Ville, área de renda alta da capital, e dominar as rotas alternativas que ligam Porto Príncipe ao sul do país. As forças de segurança concentraram suas operações nas áreas centrais de Porto Príncipe, deixando as zonas rurais do entorno expostas.
Números que dimensionam a crise: as gangues controlam cerca de 70% de Porto Príncipe, 1,5 milhão de pessoas estão deslocadas no país e, apenas entre janeiro e junho de 2026, a ONU registrou mais de 3.100 mortos e 1.189 feridos.
Como a crise chegou a este ponto
O assassinato do presidente Jovenel Moïse, em julho de 2021, aprofundou o vácuo institucional no país e acelerou o crescimento dos grupos armados. Em fevereiro de 2024, o ex-policial Jimmy Chérizier, conhecido como "Barbecue", anunciou a formação da Viv Ansanm ("viver juntos", em crioulo haitiano), coalizão que uniu as alianças até então rivais G9 e G-Pèp. A união permitiu ataques coordenados contra delegacias, prédios públicos e infraestrutura, e transformou grupos que disputavam território em um bloco com poder de paralisar a capital. Os Estados Unidos designaram a Viv Ansanm como organização terrorista estrangeira.
Contexto histórico e desenvolvimento
A crise no Haiti é marcada por uma crescente instabilidade, onde gangues armadas se estabeleceram como atores dominantes em Porto Príncipe e arredores. A população, com 45% de seus membros com menos de 18 anos, é particularmente vulnerável. A pobreza extrema leva muitas famílias e crianças a serem suscetíveis ao recrutamento por gangues, que oferecem uma falsa sensação de proteção, pertencimento ou renda em áreas onde o Estado é ausente. As crianças são usadas como vigias, mensageiros, informantes e diretamente em confrontos armados, postos de controle e sequestros. Meninas enfrentam riscos adicionais de exploração sexual e relacionamentos forçados. A ONU tem alertado para o aumento do recrutamento infantil e a necessidade urgente de fortalecer os sistemas de proteção e oferecer alternativas aos jovens.
A força internacional contra as gangues
Em 30 de setembro de 2025, o Conselho de Segurança da ONU autorizou a criação da Força de Supressão de Gangues (Gang Suppression Force), com 12 votos a favor e abstenções de China, Rússia e Paquistão. A força foi prevista para chegar a 5.500 militares e policiais, com mandato inicial de 12 meses, e recebeu mais ofertas de contingente do que o alvo estabelecido.
A missão anterior, liderada pelo Quênia, não conseguiu conter a violência — autoridades citam falta de financiamento, de efetivo e de apoio institucional. A diferença central é o mandato: a missão antiga apoiava a polícia local, enquanto a nova força é militarizada e pode efetuar prisões, atuando junto à Polícia Nacional do Haiti e às Forças Armadas do país.
Na prática, o desdobramento tem sido lento. Uma equipe avançada do Chade chegou em 1º de abril de 2026, e até meados do ano Jamaica, Chade, El Salvador e Guatemala haviam enviado menos de mil pessoas no total — muito abaixo dos 5.500 autorizados. O comando da força coube ao mongol Erdenebat Batsuuri.
Situação política e eleições
O Haiti não realiza eleições há cerca de uma década. O Conselho Eleitoral Provisório havia marcado o primeiro turno das eleições presidenciais, legislativas e locais para 30 de agosto de 2026, mas adiou a votação para 13 de dezembro de 2026, citando condições de segurança insuficientes e falta de financiamento. O segundo turno está previsto para 21 de fevereiro de 2027 e a publicação dos resultados para 12 de março de 2027. A autoridade eleitoral condicionou o calendário ao estabelecimento de "condições mínimas de segurança pública em todo o país" e ao financiamento necessário. Especialistas alertam que, no quadro atual de violência, votar seria perigoso demais em boa parte do território.
Linha do tempo
- Julho de 2021: Assassinato do presidente Jovenel Moïse aprofunda o vácuo institucional e acelera a expansão das gangues.
- Fevereiro de 2024: Jimmy Chérizier anuncia a Viv Ansanm, coalizão que une as alianças rivais G9 e G-Pèp.
- 30 de setembro de 2025: O Conselho de Segurança da ONU autoriza a Força de Supressão de Gangues, com previsão de 5.500 integrantes e mandato inicial de 12 meses.
- 2026 (fevereiro): A ONU alerta para um aumento alarmante no recrutamento de crianças por gangues no Haiti, destacando as consequências devastadoras para a sociedade.
- 1º de abril de 2026: Chega ao Haiti a equipe avançada do Chade, primeiro contingente da nova força.
- 4 a 9 de julho de 2026: Incursão da Viv Ansanm em Kenscoff deixa pelo menos 61 mortos.
- 27 de julho de 2026: O Conselho Eleitoral adia o primeiro turno das eleições de 30 de agosto para 13 de dezembro de 2026.
- 23 de agosto de 2026: Ataque a uma igreja usada como abrigo em Kenscoff deixa 47 mortos e mais de 50 sequestrados.
Principais atores
- Organização das Nações Unidas (ONU): Monitora a situação, denuncia o recrutamento infantil, apoia programas de proteção e educação, e trabalha para fortalecer o sistema de justiça haitiano.
- Gangues haitianas: Incluem grupos como 103 Zumbis, Vila de Deus, Tóquio e Kraze Barye. Controlam territórios, extorquem comunidades e recrutam crianças e jovens.
- Viv Ansanm: Coalizão formada em fevereiro de 2024 pela união do G9 e do G-Pèp, liderada por Jimmy "Barbecue" Chérizier, ex-policial. Designada organização terrorista estrangeira pelos Estados Unidos e apontada como responsável pelos ataques a Kenscoff em 2026.
- Crianças e jovens haitianos: As principais vítimas do recrutamento e da violência das gangues, forçados a desempenhar diversas funções e sujeitos a exploração.
- Famílias haitianas: Afetadas pela violência e deslocamento, muitas vezes incapazes de proteger seus filhos do recrutamento.
- Força de Supressão de Gangues: Força apoiada pela ONU, criada para combater as gangues e desacelerar sua expansão. Comandada pelo mongol Erdenebat Batsuuri, reúne contingentes de países como Jamaica, Chade, El Salvador e Guatemala.
Termos importantes
- Recrutamento infantil: A prática de envolver crianças em atividades de gangues, muitas vezes sob coerção ou por necessidade econômica, expondo-as à violência e exploração.
- Pobreza multidimensional: A condição de privação em múltiplas dimensões da vida, como saúde, educação e padrão de vida, que no Haiti contribui para a vulnerabilidade ao recrutamento por gangues.
- Deslocamento interno: O movimento forçado de pessoas de suas casas dentro do próprio país devido a conflitos ou violência, comum no Haiti devido às ações das gangues.
- Exploração sexual: O abuso de indivíduos para fins sexuais, um risco significativo para meninas e mulheres em áreas controladas por gangues no Haiti.
- Gourde haitiano: A moeda oficial do Haiti. O salário de 1.000 gourdes por semana (menos de R$ 40) para crianças recrutadas ilustra a pobreza extrema no país.
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