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title: "Shein"
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updated: 2026-08-24T11:49:52.796+00:00
categories: ["world", "business", "economy"]
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language: pt-BR
publisher: "Daily Journal"
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# Shein

A Shein é uma varejista online de moda fundada na China e sediada em Cingapura, principal expoente do chamado ultra fast fashion: algoritmos rastreiam tendências e lotes de teste de 100 a 200 peças viram milhares de modelos novos por dia. O modelo perdeu fôlego com o fim das isenções tarifárias nos EUA e na Europa e com a "taxa das blusinhas" no Brasil, onde a meta de 2 mil fábricas parceiras parou em 336. Em 24 de agosto de 2026 a empresa lançou sua oferta pública inicial na Bolsa de Hong Kong, com estreia prevista para 1º de setembro e valor de mercado de até US$ 26,8 bilhões — cerca de um quarto do pico de 2022.

## O que é a Shein

A Shein é uma varejista online de moda fundada na China e hoje sediada em Cingapura, controlada pela holding Roadget Business Pte. Ltd. Vende roupas, calçados, cosméticos, itens de casa e eletrônicos a preços muito baixos, com catálogo renovado diariamente, e opera em mais de 150 países. Em 2022 chegou a ser a maior varejista de moda do mundo em receita, à frente de Zara e H&M.

O nome se pronuncia "chi-in" (em inglês, *she-in*). A empresa é o principal expoente do que a imprensa e o setor chamam de *ultra fast fashion*: um estágio além do fast fashion tradicional, em que o intervalo entre identificar uma tendência e colocar a peça à venda cai de meses para dias.

Seu fundador e presidente-executivo, Xu Yangtian — conhecido como Chris Xu e, mais recentemente, Sky Xu —, mantém um perfil público quase inexistente. Até fevereiro de 2026, quando apareceu em um evento na província de Guangdong, a maior parte das fotos que circulavam na internet como sendo dele eram falsas, segundo o New York Times.

## Quando surgiu a Shein e quem a fundou

A data de fundação é ela própria um ponto de divergência. A Wikipédia em inglês registra outubro de 2008, em Nanquim, sob o nome ZZKKO, tendo Chris Xu como fundador único. Reuters e New York Times situam a origem em 2012, quando Xu e três colegas de uma empresa de marketing que ajudava exportadores chineses a vender pela internet montaram o negócio. A própria Shein já apresentou as duas versões: segundo a revista The Atlantic, o site da companhia listou 2008 e Xu sozinho antes de passar a informar 2012 e quatro fundadores.

O que é consistente entre as fontes:

- A operação começou vendendo vestidos de noiva pela internet, segundo a BBC.
- Em 2014 a empresa comprou a varejista chinesa Romwe.
- Em 2015 o nome foi encurtado de Sheinside para Shein, com a justificativa de precisar de algo mais simples de lembrar e de buscar online.
- A sede foi transferida para Cingapura, movimento que a Reuters situa no fim de 2021 e o New York Times em 2019. Anos depois, a entidade corporativa original na China foi baixada. O objetivo, segundo o NYT, era em parte contornar as regras chinesas para empresas que buscam listagem no exterior.

Xu é descrito nos relatos como um especialista em otimização para buscadores (SEO). Reportagem do Guardian de 2022 apontou que informações sobre sua formação e trajetória são contraditórias entre as fontes — parte delas o descreve como sino-americano formado pela George Washington University, outras indicam nascimento em 1984 na província de Shandong e formação na Universidade de Ciência e Tecnologia de Qingdao. A Shein sustenta que ele nasceu na China.

## Como funciona o modelo da Shein

O mecanismo central é comprimir o ciclo da moda. Algoritmos rastreiam tendências emergentes; a empresa então faz pedidos iniciais pequenos — de 100 a 200 peças, segundo a BBC — para testar a demanda real. O que vende ganha reposição imediata; o que não vende morre ali, com prejuízo baixo.

A escala que isso permite é o diferencial. Segundo o New York Times, o modelo levava a Shein a lançar cerca de 4.700 modelos novos de roupa por dia; a Zara, em comparação, produz cerca de 20 mil por ano, de acordo com analistas.

A Shein não é dona das fábricas. Como a Amazon, ela trabalha com milhares de fornecedores terceirizados — na China, no Brasil e na Turquia — e despacha de centros de distribuição centralizados. Fornecedores parceiros têm acesso aos dados de venda de cada peça, o que permite a eles antecipar a reposição.

Desde 2023 a empresa tenta transformar essa engenharia em produto: vende a outras marcas o acesso ao seu sistema de criação, produção e entrega. Até 2026 o programa havia atraído cerca de 20 marcas e gerado menos de 1% da receita líquida da companhia em 2025, segundo a própria Shein.

## Shein no Brasil

O Brasil foi o primeiro país do mundo a receber o marketplace local da Shein, e a empresa passou a tratar o modelo brasileiro como referência global. A operação no país combina três frentes: importação direta da China (*cross-border*), estoque próprio comprado de fábricas brasileiras parceiras (1P) e o marketplace de vendedores terceiros (3P).

Em abril de 2023 a Shein anunciou investimento de R$ 750 milhões no Brasil, com a meta de firmar parceria com 2 mil confecções, movimentar 100 mil empregos diretos e indiretos e ter 85% das vendas no país feitas com produtos de fabricação local até o fim de 2026. O acordo com o grupo têxtil Coteminas, assinado em junho de 2023, era a espinha dorsal desse plano.

O plano ficou muito abaixo do anunciado. Levantamento da Reuters divulgado em março de 2026 mostrou que a empresa fechou acordo com 336 fábricas — menos de 25% da meta — e revisou a estratégia para um modelo mais seletivo, com parcerias mais profundas em fábricas mais capacitadas. Questionada, a Shein afirmou que "a produção no Brasil exigiu tempo para amadurecer e, em pouco tempo, as diferenças nos modelos de negócio e na infraestrutura industrial se tornaram evidentes".

Em fevereiro de 2025, o marketplace local já respondia por 55% das vendas da Shein no Brasil, com cerca de 30 mil vendedores cadastrados. A empresa estimou à BBC News Brasil que aproximadamente 75% dos produtos vendidos por terceiros na plataforma são produzidos localmente, chegando a 85% em vestuário feminino, masculino e calçados.

### A "taxa das blusinhas"

Em agosto de 2024, após pressão do varejo nacional por isonomia tributária, passou a valer no Brasil o imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 — apelidado de "taxa das blusinhas". Para compras entre US$ 50 e US$ 3 mil, a alíquota é de 60%. Sobre tudo isso incide ainda o ICMS, de 17%, elevado a 20% em alguns estados a partir de abril de 2025.

Os efeitos medidos:

- A carga tributária paga pelo consumidor saltou de 20,82% para 44,58%, segundo cálculo apresentado pela própria Shein.
- As compras na faixa de até US$ 50 caíram 43%, para 10,3 milhões de encomendas, conforme dados da Receita Federal obtidos pela BBC News Brasil via Lei de Acesso à Informação.
- A arrecadação do imposto de importação sobre remessas internacionais foi recorde em 2024: R$ 2,8 bilhões, alta de 40,7% sobre 2023.

Marcelo Claure, então vice-presidente executivo global da empresa, criticou a medida em entrevista ao jornal O Globo em junho de 2024, argumentando que ela pesa sobre as classes C, D e E — que segundo ele representam 90% dos clientes da Shein — e afirmando que a taxação aceleraria a transição da companhia para fabricar mais no Brasil.

## O IPO em Hong Kong

Depois de anos de tentativas frustradas, a Shein lançou sua oferta pública inicial na Bolsa de Hong Kong em 24 de agosto de 2026. Os termos, segundo documento apresentado à bolsa:

- 280 milhões de ações ofertadas, a um preço entre HK$ 47,60 e HK$ 49,50 cada.
- Captação de até HK$ 13,9 bilhões, cerca de US$ 1,8 bilhão.
- Valor de mercado implícito de US$ 25,7 bilhões a US$ 26,8 bilhões.
- Preço final definido em 31 de agosto; estreia prevista para 1º de setembro.

É a maior emissão de novas ações de Hong Kong em 2026 e o terceiro maior IPO da Ásia no ano, atrás de CXMT (US$ 9,8 bilhões) e China Resources New Energy (US$ 3,6 bilhões).

O número mais eloquente é a comparação com o passado: em rodadas privadas, a Shein foi avaliada em US$ 98,2 bilhões em 2022 e US$ 64 bilhões em 2023 e abril de 2024. Quando as conversas com investidores para o IPO começaram, a empresa buscava entre US$ 30 e US$ 40 bilhões. Chegou à oferta valendo cerca de um quarto do pico.

Entre os investidores âncora estão Boyu Capital (US$ 150 milhões, o maior compromisso), Tiger Global (US$ 53 milhões), General Atlantic e Tencent (US$ 50 milhões cada), além de Greenwoods, Taikang Life e a gestora de ativos do UBS em Cingapura — que investe na Shein pela primeira vez. O total subscrito pelos cornerstones é de cerca de US$ 383 milhões.

Hong Kong foi a última alternativa depois que as tentativas anteriores fracassaram: a listagem em Nova York foi abandonada em 2024 diante do escrutínio de parlamentares dos dois partidos sobre cadeia de suprimentos e práticas trabalhistas, e a rota de Londres esbarrou em resistência de ONGs e grupos de oposição. Pequim deu aval à operação em Hong Kong em julho de 2026.

O prospecto expõe a deterioração dos resultados: a companhia passou de lucro de US$ 395 milhões no primeiro trimestre de 2025 para prejuízo de US$ 99 milhões no mesmo período de 2026, com receita em queda.

## Fim das isenções tarifárias nos EUA e na Europa

O modelo de baixo custo da Shein dependia de regimes que deixavam pacotes baratos entrarem sem imposto. Os dois principais foram desmontados.

Nos Estados Unidos — maior mercado da empresa —, a decisão do governo Donald Trump de encerrar a isenção conhecida como *de minimis* atingiu o negócio em cheio. Em maio de 2025 a Shein começou a subir preços no país. No primeiro trimestre de 2026, a receita líquida da companhia nos EUA caiu 14,3%, para US$ 2 bilhões.

Na Europa, que responde por mais de um terço da receita da Shein, a União Europeia aprovou uma taxa fixa de 3 euros sobre encomendas de até 150 euros que antes entravam sem cobrança. Em seu prospecto, a Shein alertou que, embora ainda fosse cedo para medir o efeito completo, ele "poderia ser, em geral, semelhante ou superior ao impacto observado nos EUA". A França já aplicava separadamente uma taxa de 2 euros por pacote.

Diante disso, a empresa tenta diversificar. Produtos que não são roupas — móveis, cosméticos, itens para animais de estimação, eletrônicos — responderam por mais de um terço da receita no primeiro trimestre de 2026.

## A compra da Everlane e a revisão do CFIUS

Em maio de 2026 a Shein concluiu a compra da Everlane, varejista americana de São Francisco fundada em 2011 por Michael Preysman e Jesse Farmer, conhecida justamente pelo posicionamento oposto ao da compradora: produção ética, transparência de cadeia de suprimentos e auditorias públicas de salários e condições de trabalho. O valor foi de US$ 80 milhões.

Em agosto de 2026, a Bloomberg revelou que o Comitê de Investimento Estrangeiro nos Estados Unidos (CFIUS) — órgão interagências presidido pelo Departamento do Tesouro — abriu revisão de segurança nacional sobre a transação. A revisão foi iniciada depois de a operação já estar concluída, a partir de pedido voluntário da própria Shein, o que é incomum: em geral as empresas buscam o aval do CFIUS antes de fechar o negócio. Segundo pessoa próxima ao acordo, a Shein protocolou depois porque a situação financeira da Everlane exigia rapidez, e não por qualquer intervenção do governo americano.

O foco da análise é o tratamento de dados pessoais de cidadãos americanos por uma empresa de controle chinês. O CFIUS tem poder para bloquear, desfazer ou impor condições a operações que considere ameaça à segurança nacional. O resultado ainda não é conhecido — as revisões do comitê são confidenciais.

A compra também gerou reação pública nos EUA. Michael Preysman, fundador da Everlane que deixou a empresa anos antes, e comentaristas do setor trataram o negócio como traição aos valores da marca. Um porta-voz da Shein disse que a companhia está "comprometida em cumprir todas as leis e regulamentações aplicáveis nos mercados onde opera".

## Polêmicas e sanções

### Trabalho e cadeia de suprimentos

A origem do algodão é o ponto mais sensível. Em janeiro de 2025, parlamentares britânicos reagiram com indignação quando a empresa se recusou a garantir que seus produtos não continham algodão de Xinjiang, região da China associada a trabalho forçado uigur. Em resposta escrita a um comitê do Parlamento britânico, a Shein afirmou que exige de seus fabricantes contratados o uso de algodão apenas de regiões aprovadas — que não incluem a China — para produtos vendidos nos EUA, em conformidade com a lei americana Uyghur Forced Labor Prevention Act. As regiões aprovadas incluem Austrália, Brasil, Índia, Estados Unidos e, em casos limitados, alguns países da Europa, Oriente Médio, África e Sudeste Asiático. A empresa informou que 1,3% do algodão veio de regiões não aprovadas em 2024.

Investigação publicada em 2024 pela ONG suíça Public Eye apontou que trabalhadores em fábricas fornecedoras da Shein ainda cumpriam jornadas de 75 horas semanais, apesar das promessas da companhia de melhorar as condições.

### Impacto ambiental

O poliéster respondeu por 81,5% do total de fibras usadas pela Shein em 2024, segundo o relatório ESG da própria empresa — acima dos 75,7% do ano anterior. Em 2023, a revista Time reportou que a companhia produzia mais de 6,3 milhões de toneladas de CO2 por ano.

### Multas na Europa

As autoridades francesas se tornaram o principal foco de sanções contra a empresa:

- **Julho de 2025** — multa de 40 milhões de euros da DGCCRF por práticas comerciais enganosas. A investigação constatou que, entre outubro de 2022 e agosto de 2023, 57% dos produtos anunciados como em promoção não tinham redução de preço, 19% tinham desconto pequeno e 11% na verdade haviam ficado mais caros. A mesma decisão apontou que a Shein não conseguiu comprovar suas alegações ambientais.
- **Julho de 2025** — multa de 1,1 milhão de euros por não informar a presença de microfibras sintéticas em mais de 730 produtos, exigência da lei antidesperdício francesa (AGEC).
- **Setembro de 2025** — multa recorde de 150 milhões de euros da CNIL, a autoridade francesa de proteção de dados, por violações nas regras de consentimento de cookies. A empresa recorre.
- **Junho de 2026** — novas multas somando cerca de 22 milhões de euros, por falhas de informação ao consumidor, informação ambiental e apresentação do direito de arrependimento. A Shein contesta e classificou as penalidades como "manifestamente desproporcionais".

Somadas, as sanções francesas passaram de 210 milhões de euros em cerca de um ano. Na Itália, a autoridade de concorrência multou a empresa em 1 milhão de euros por greenwashing.

### Estados Unidos

Em fevereiro de 2026, o procurador-geral do Texas, Ken Paxton, processou a Shein alegando venda ilegal de produtos tóxicos a consumidores e exposição de dados pessoais de americanos ao governo chinês. A empresa disse discordar "fortemente" das acusações e contesta o caso. A Federal Trade Commission também investiga a operação americana da companhia por possíveis violações de leis de proteção ao consumidor, e a Shein afirma estar cooperando.

## Notícias recentes

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